“Não há perda de fé ou de crentes, mas agora os antigos ritos não agradam mais”. Entrevista com Mauro Ferraresi

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15 Janeiro 2024

Não está se perdendo a crença religiosa, os rituais estão mudando, afirma Mauro Ferraresi, professor adjunto de Sociologia da Comunicação no Departamento de Comunicação, Artes e Mídia “Giampaolo Fabris” da Universidade IULM de Milão.

A entrevista é de Flavia Amabile, publicada por La Stampa, 13-01-2024. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

O número de estudantes que frequentam as aulas de religião católica está diminuindo. É um fenômeno que indica também um declínio no número de crentes?

Mais do que um fenômeno, eu o definiria como uma tendência de longo prazo. Mas eu seria cauteloso ao atribuir isso à perda da crença religiosa. Mudaram os rituais a que a igreja católica obrigava os crentes.

De que forma?

Foram se perdendo até terem uma validade muito menor. Hoje preferem-se ritos menos rigorosos, frequenta-se pouco a missa, são menos respeitados os ditames que marcavam a vida cotidiana dos católicos.

Será o efeito da ditadura do relativismo contra a qual lutava o Papa Bento XVI?

Há muitos aspectos da sociedade contemporânea que contribuíram para essa tendência. Existe o relativismo, mas também o materialismo, o consumismo e, de certa forma, também a natureza frenética das nossas vidas cotidianas que nos faz pensar nos ritos como a uma perda de tempo. A própria religião católica evoluiu e o atual Papa é um símbolo disso na sua tentativa de refundar a Igreja com base em alguns valores mais do que em rituais agora antigos. Até mesmo algumas narrativas religiosas hoje são recebidas com um sorriso.

Por exemplo?

Não sei quantas pessoas acreditam seriamente no inferno.

A tendência a não frequentar as aulas de religião é mais generalizada nas escolas do Norte, onde chega a 30%, e muito menos no Sul. Do que depende?

Faltam pesquisas específicas. Só pode-se levantar hipóteses e a explicação poderia depender do ritmo da vida que no Sul permite maior atenção aos ritos, ou talvez ainda exista uma diferença cultural em enfrentar as coisas da vida entre o Norte e o Sul. O que é evidente é que a Itália ainda se apresenta dividida também em matéria de comportamentos religiosos.

Depende também das famílias?

A primeira instância educativa que temos é justamente a família e era a família que repassava a religião com os seus rituais. Se hoje em casa os filhos não veem os pais irem à missa ou recitar orações, é inevitável que permaneçam mais frios em relação à religião.

Diminui a domínio da religião católica sobre os italianos, mas continua muito forte a tentativa da política de usar a religião para influenciar a vida dos italianos. Não lhe parece uma contradição?

O poder político deveria levar em conta que a Igreja hoje está se refundando sobre valores em vez de ritos antigos.

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