Líbia. O martírio dos últimos na Cirenaica esquecida. Artigo de Alberto Negri

Foto: Reprodução | National Meteorological Centre, Libya

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15 Setembro 2023

"Acredito que hoje, depois do ciclone Daniel e do rompimento das barragens, nada mais disso existe. Mas mesmo naquela época o Gebel, também chamado de Montanha Verde, era uma ameaça muito temida pelo próprio Coronel Gaddafi", escreve Alberto Negri, filósofo italiano, em artigo publicado por Il Manifesto, 13-09-2023. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Às vezes, nada é mais enganoso do que a geografia. Espremida entre Bengasi e Tobruk, vi Derna, nos anos 1990, descendo do planalto em direção ao mar no final de um desfiladeiro feito de paredes verticais cortadas pelo uádi que vinha de Gebel al Akhdar, irrigando palmeirais, pomares e plantações de cítricos.

Acredito que hoje, depois do ciclone Daniel e do rompimento das barragens, nada mais disso existe. Mas mesmo naquela época o Gebel, também chamado de Montanha Verde, era uma ameaça muito temida pelo próprio Coronel Gaddafi. De fato, ali se aninhavam islamitas e jihadistas que tentaram várias vezes assassiná-lo. Para manter a população local feliz e conter a pregação dos imãs, na década de 2000 Gaddafi lançou aqui no meio do ginásio grego a “Declaração da Montanha Verde”, um grande projeto para devolver esplendor à região de Pentápolis, um plano ambicioso que, como muitos outros do regime, permaneceu no papel.

Isso também foi, no final, um engano. Com o fim de Gaddafi em outubro de 2011, num país revirado pela anarquia, os jihadistas retornaram a Derna em 2015: eram os combatentes líbios do ISIS protagonistas das batalhas em Dayr az Zor, na Síria, e depois em Mosul, no Iraque.

A desestabilização desencadeada na esteira das Primaveras Árabes no Médio Oriente, espalhava-se pela Península Arábica no Iêmen e, portanto, também na África. Com o fim do rais líbico as fronteiras da Jamahyria afundaram no Sahel com a propagação do jihadismo, seguida posteriormente por golpes de estado militares: história dos últimos tempos, do Mali ao Burkhina Faso e ao Níger.

Em Derna então foi hasteada a bandeira negra do Califado e teve início uma longa série de assassinatos visando todos os opositores, por milicianos de outras facções, incluindo o batalhão Abu Salim, afiliado à Al Qaeda – até os ativistas, os juízes, os advogados.

A mesma técnica usada por Ansar al Sharia em Bengasi para se livrar dos adversários. Em Derna o ISIS, na época ainda liderado por Abu Bakr, instaurou um emirado e a cidade foi transformada na triste e sombria capital do Califado na Cirenaica.

Derna e a região estavam destinados a se tornar um campo de batalha. Primeiro entre as milícias islamistas com os afiliados da Al Qaeda que tentaram a revanche para eliminar o Califado. Depois do General Khalifa Haftar contra todos os jihadistas e aqueles que queriam se opor a ele. A cidade foi o alvo da força aérea de Haftar, apoiado pelo Egito, pelos Emirados, pela Rússia e também pela França. Sem contar com um discreto apoio dos EUA, visto que o general havia passado mais de vinte anos em exílio nos Estados Unidos. Derna foi reduzida em algumas zonas da cidade a uma peneira: destruição em cima de destruição.

No Marrocos atingido pelo terremoto pelo menos existe um “estado”, uma monarquia com o soberano pai senhor do país que, no entanto, fica em silêncio. Não como na Líbia que depois da queda de Gaddafi, depois da revolta de Bengasi e da intervenção ocidental dividiu-se entre Cirenaica e Tripolitânia sem voltar a encontrar a unidade. Há dois anos que estão marcadas eleições para reunificar os governos dos Trípoli e Bengasi, mas francamente a linha de chegada ainda parece distante.

O ciclone Daniel, com o rompimento de duas barragens na região de Derna, ceifou milhares de vidas que vivem há anos em um ambiente tóxico: mas quem nas últimas décadas fez mais manutenção na Líbia, exceto pelas centrais petrolíferas úteis para engordar as receitas de governos mais semelhantes à cleptocracias de traficantes de seres humanos, divididas em clãs e tribos, do que a uma nação?

Basta ir a Ras Jedir, na fronteira entre a Líbia e a Tunísia, onde tráficos de todos os tipos alimentam uma economia de meio bilhão de dólares por ano. Ali onde os migrantes, roubados, explorados e subjugados, morrem no deserto, longe de qualquer testemunho, sem qualquer possibilidade de salvação.

A tragédia aconteceu justamente em Derna, cuja libertação de islâmicos e jihadistas foi anunciada alguns anos atrás pelo próprio General Haftar. A vitória, acompanhada pelas incursões estadunidenses, primeiro contra o Estado Islâmico e depois contra os grupos ligados à Al Qaeda, abriram o caminho para a conquista de uma cidade de 100 mil habitantes, mas que foi obtida a um alto preço de sangue e destruições.

Mas quem depois cuidou do destino e da segurança da população? Ninguém: o general Haftar pensou primeiro no seu poder, como quando em 2019 tentou conquistar também Trípoli, detido pelo governo Sarraj e sobretudo pelos drones e soldados turcos. Ninguém durante estes anos, alguma vez pensou nos líbios deixados nas mãos de clãs e divisões regionais. Nem mesmo as potências estrangeiras que estão de olho no gás, petróleo e milícias úteis para a detenção de migrantes, mas certamente não para o bem-estar da população.

Essas tragédias têm muitos rostos, mas principalmente uma vítima, os últimos, o povo, abandonado à sua sorte, uma multidão de seres humanos tratados como súditos desprovidos de valor.

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