Naufrágio de migrantes na costa da Calábria, Itália. “A culpa pelo massacre é das políticas da Itália e da Europa”. Entrevista com Corrado Lorefice, arcebispo de Palermo

Corrado Lorefice, arcebispo de Palermo. (Foto: Reprodução | Festival delle Letterature migranti)

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02 Março 2023

“A responsabilidade pelo enésimo massacre de migrantes é da política italiana e europeia. [Matteo] Piantedosi [ministro do Interior italiano] jogou a culpa sobre as vítimas. Ao invés disso, é preciso esclarecer se houve omissões graves de resgate.”

O arcebispo de Palermo, Corrado Lorefice, condenou as palavras do ministro do Interior após o naufrágio na costa da Calábria (“O desespero nunca pode justificar condições de viagem que ponham em risco a vida dos próprios filhos”) e rejeitou o decreto que amarra as mãos das ONGs.

A reportagem é de Giusi Spica, publicada por La Repubblica, 01-03-2023. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Por que você diz que a culpa pelo massacre dos migrantes é nossa?

O que ocorreu na Calábria não foi um acidente, mas sim a consequência das políticas italianas e europeias dos últimos anos. Nós, cidadãos, nós, cristãos, apesar dos apelos do papa, não fizemos o que era necessário, voltando-nos para o outro lado.

Piantedosi adverte os migrantes a não colocarem em risco a vida de seus filhos. O que você acha?

Para quem não vive os dramas da guerra e da pobreza, é fácil teorizar. Essas pessoas não têm outra escolha senão tentar encontrar um pedaço de terra acolhedor. Nós, ocidentais, temos as nossas responsabilidades, porque favorecemos as mudanças climáticas e exportamos armas para seus países. Todos nós corremos o risco de adoecer de uma forma particular de Alzheimer, que nos faz esquecer das nossas responsabilidades. Acho que é necessário responder às muitas interrogações em aberto sobre o naufrágio e dissipar todos os mal-entendidos sobre a gravíssima responsabilidade de quem não resgata os náufragos e os deixa morrer no mar.

É uma rejeição do último decreto sobre os navios das ONGs?

É uma norma que viola a lei do mar e a Constituição italiana. Evidentemente, não se quer ninguém no Mediterrâneo, razão pela qual as ONGs são criminalizadas. É absurdo exigir que os navios que já fizeram um resgate não parem se se depararem com outro naufrágio.

Como é possível conter os massacres no Mediterrâneo?

Não com políticas de rejeição. O medo da invasão do mundo árabe é um álibi. Os migrantes que chegam às nossas costas são principalmente católicos e ortodoxos. Na Itália, eles produzem oito bilhões [de euros] de PIB, pagam os impostos, trabalham no campo e cuidam dos idosos. Somos nós que ganhamos com isso. Há uma grande hipocrisia do Ocidente que os retrata como invasores.

É uma alusão à centro-direita?

Minha tarefa não é fazer política, mas dizer a palavra do Evangelho. Jesus dizia: “Eu era forasteiro, e vocês me acolheram”. Em vez disso, hoje, muitos cristãos são vítimas da lavagem cerebral que vê no estrangeiro um inimigo. Esquecemos a lição dos pais constituintes que reconheceram igual dignidade social para todas as pessoas, independentemente de sexo, idade, religião.

Corremos o risco de um novo fascismo?

Receio que é possível prefigurar novamente aquele nacionalismo e aquela mesquinhez que nos fazem perder a nossa verdadeira identidade. A Itália viveu o drama da emigração e foi parte ativa da escolha de unir a Europa após o desastre da Segunda Guerra Mundial. Em vez disso, cresce o individualismo das nações.

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