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28 Setembro 2022

 

O atual e o ex-presidente são os dois únicos candidatos com chances realistas de vencer as eleições de 2 de outubro. As esperanças de vitória do vigente repousam em uma improvável aliança de protestantes evangélicos e católicos ultraconservadores.

 

A reportagem é de Francis McDonagh, enviada pelo autor ao IHU, será publicada por The Tablet, 01-10-2022. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

 

De acordo com sua constituição, o Brasil é um país laico. 10% dos brasileiros disseram em uma pesquisa de 2020 que não tinham filiação religiosa, acima da média da América Latina. No entanto, a religião continua sendo uma poderosa alavanca que um político pode usar para atrair votos, e Jair Bolsonaro, o populista de direita que venceu as eleições de 2018, adotou o lema “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. Ele precisa de todos os votos que conseguir. Uma pesquisa publicada em 21 de setembro mostra Bolsonaro 14 pontos atrás de seu principal oponente, o esquerdista Luiz Inácio Lula da Silva, mais conhecido como Lula. A pesquisa sugere que Lula, que venceu as eleições presidenciais em 2002 e 2006, pode ganhar mais de 50% dos votos no primeiro turno; se o fizer, não haverá necessidade de um segundo turno.

 

Parte do pano de fundo para esta eleição é o declínio constante no número de católicos no Brasil e o crescimento correspondente no número de protestantes, que significa principalmente evangélicos e neopentecostais, mais notoriamente representados pela Igreja Universal do Reino de Deus – IURD e Assembleia de Deus Vitória em Cristo – Advec. Estas são geralmente distinguidas das igrejas protestantes “históricas”, isto é, luteranas, presbiterianas e metodistas. No censo de 2010, quase 65% dos brasileiros se declararam católicos e 22% protestantes, mas uma pesquisa realizada em 2020 colocou as proporções em 50% e 31%. Lula está atualmente creditado com 52% de apoio entre os católicos e Bolsonaro com 27%, enquanto entre os protestantes Bolsonaro tem 50% e Lula 32%.

 

As afiliações religiosas de Bolsonaro são complicadas. Ele foi batizado e criado como católico, mas passou por uma cerimônia batismal no rio Jordão conduzida por um pastor pentecostal. Em 2018, foi “consagrado” pelo bilionário magnata da mídia o “bispo” Edir Macedo, fundador da IURD: “Que tenha coragem, energia, saúde, força, fortaleza”, declarou Macedo. “Nós o consagramos. As pessoas são testemunhas de um antes e depois deste ponto”.

 

Lula é católico, mas não fala muito de religião, embora em seus dias de dirigente sindical dos metalúrgicos tenha sido apoiado pela Pastoral Operária da Igreja Católica, incluindo o frade dominicano Frei Betto. “A maior mentira que ele [Bolsonaro] conta todo dia é avocar o nome de Jesus toda hora”, disse Lula. “Vocês sabem, aqui deve ter bastante evangélicas, vocês sabem nos olhos dele que ele está mentindo. Ele usa o nome de Jesus em vão que é pra poder tentar enganar a boa-fé das mulheres e dos homens cristãos desse país”, disse Lula em uma reunião de trabalhadoras domésticas no início de setembro. Bolsonaro, ao contrário, apareceu em Londres para o funeral da rainha Elizabeth acompanhado de Silas Malafaia, líder da Advec, um velho amigo que realizou seu casamento com sua atual esposa, Michelle.

 

Em 2 de setembro, a normalmente reticente Conferência Nacional dos Bispos do Brasil emitiu uma declaração que pode ser lida como uma acusação à presidência de Bolsonaro:

 

Nosso País está envolto numa complexa e sistêmica crise, que escancara a desigualdade estrutural, historicamente enraizada na sociedade brasileira. Constatamos os alarmantes descuidos com a Terra, a violência latente, explícita e crescente, potencializada pela flexibilização da posse e porte de armas que ameaçam o convívio humano harmonioso e pacífico na sociedade. Entre outros aspectos destes tempos estão o desemprego e a falta de acesso à educação de qualidade para todos. A fome é certamente o mais cruel e criminoso deles, pois a alimentação é um direito inalienável (cf. Papa Francisco, Fratelli Tutti, 189). Segundo relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO, 2022), a quantidade de brasileiras e brasileiros que enfrentam algum tipo de insegurança alimentar ultrapassou a marca de 60 milhões.

 

Os bispos também expressaram sua preocupação com “a manipulação religiosa e a disseminação de notícias falsas, que têm o poder de destruir a harmonia entre indivíduos, povos e culturas e ameaçam a democracia. A manipulação religiosa, liderada por políticos e figuras religiosas, distorce os valores do Evangelho e desvia a atenção dos problemas reais que precisam ser debatidos e abordados”. Bolsonaro é vulnerável em seu histórico; se os eleitores podem ser distraídos para votar em linhas religiosas, ele tem uma chance melhor. Ele não negligenciou o voto católico. Em agosto assistiu à missa com colete à prova de balas, segundo o correspondente do El País, e recebeu a comunhão. O mesmo repórter descreve como a esposa de Bolsonaro, Michelle, uma pentecostal apaixonada, se tornou mais importante na campanha. “Ela organiza um culto religioso todos os domingos no gabinete do presidente com pastores e fiéis protestantes. Foi Michelle quem abordou a ideia de que Lula e a esquerda por muitos anos representaram o diabo no gabinete presidencial. ‘Aquele lugar, por muitos anos consagrado aos demônios, hoje é consagrado a Jesus!’, ela gritou em público... Em outro discurso, ela chegou a afirmar, sob aplausos: ‘O chefe de governo no Brasil hoje não é meu marido – é Jesus!’”

 

Segundo a analista Magali Cunha, a aliança de Bolsonaro com os pentecostais atende aos interesses de ambos os lados. Uma imagem de Bolsonaro como conservador social, defensor da “família tradicional, da heterossexualidade como norma e do controle sobre os corpos das mulheres” – apelando tanto para católicos conservadores quanto para protestantes conservadores – foi cuidadosamente cultivada. Bolsonaro também teve o cuidado de ser visto com os principais pentecostais em cultos e outros eventos públicos. Sob Bolsonaro há cinco protestantes de várias denominações como ministros plenos, dois deles pastores; o ministério com a maioria dos protestantes em níveis juniores é o de Mulheres, Família e Direitos Humanos, liderado pela pastora pentecostal Damares Alves. Isso mostra, diz Cunha, sua habilidade em nomear ministros de uma ampla gama de denominações protestantes. Os protestantes também ampliaram sua agenda para excluir temas como orientação sexual e política do currículo escolar e para acabar com a demarcação (proteção) de territórios indígenas, em aliança com o chamado grupo parlamentar “Bala, Boi e Bíblia” que representa grandes proprietários de terras.

 

Apesar das diferenças amplamente divulgadas entre eleitores católicos e protestantes, a criação do religioso Bolsonaro foi, em grande medida, obra de católicos ultraconservadores. Ignacio Arsuaga, fundador do grupo espanhol de extrema-direita HazteOir (“Faça sua voz ser ouvida”), que agora se expandiu para um movimento internacional de língua inglesa, o CitizenGO, veio ao Brasil no final de 2013 para trabalhar com católicos de direita, incluindo o padre José Eduardo, acadêmico conservador e blogueiro muito seguido. Outros elementos da extrema-direita católica incluem os Arautos do Evangelho, uma ramificação do antigo movimento tradicionalista católico, anticomunista, Tradição, Família e Propriedade – TFP. Os Arautos foram colocados sob supervisão do Vaticano em 2019. Outro grupo importante é o Centro Dom Bosco. O que une esses grupos é a rejeição do Concílio Vaticano II e a aversão ao Papa Francisco. Eles têm ligações com Steve Bannon, aliado de longa data de Donald Trump indiciado em Nova York no mês passado por acusações de lavagem de dinheiro, fraude e conspiração.

 

Esses grupos ultraconservadores representam uma minoria de católicos brasileiros, mas seu uso habilidoso das mídias sociais lhes confere uma influência desproporcional. Uma das poucas vozes católicas que se manifestam publicamente contra Bolsonaro é o teólogo da libertação Leonardo Boff. Ele chamou esta eleição de “uma escolha entre civilização e barbárie”. À medida que a eleição se aproxima, também há sinais de rejeição, principalmente por parte dos jovens protestantes, da politização dos serviços religiosos, e alguns lançaram o lema: “Deus não tem candidato”.

 

Um temor à medida que as eleições se aproximam é a violência: dois partidários de Lula já foram mortos por partidários de Bolsonaro. O próprio Bolsonaro foi esfaqueado um mês antes da eleição de 2018. Outra é a dúvida se Bolsonaro vai cumprir sua ameaça de rejeitar o resultado eleitoral se lhe for desfavorável. Em 2 de setembro, a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP realizou uma manifestação pedindo que os resultados das eleições fossem respeitados – era o aniversário do dia em que, em 1977, a polícia da ditadura invadiu a universidade e prendeu 700 estudantes que faziam uma reunião pró-democracia. “A situação ainda é instável”, relata o professor Fernando Altemeyer da PUC. “O problema é que as milícias [Bolsonaro] se armaram. Eles são esquadrões da morte legalizados com milhares de armas nas mãos”.

 

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