Aquela cruz no nosso mar

Dois jovens imigrantes gambianos analisam o mapa do mundo depois de atravessar para a Itália, em 2016, desacompanhados dos pais. (Foto: Ashley Gilbertson | União das Nações Unidas)

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21 Setembro 2022

 

Ele era uma criança de quatro anos. E ela é do tamanho certo. É uma pequena cruz de madeira boa, madeira de nogueira, feita sob medida para ele. Que se chamará para sempre Loujin Ahmed Nasif, sírio de nascimento e, no final, um cidadão do Mar Mediterrâneo. Navega à deriva, a pequena cruz escoltada por quatro barcos vazios, que se encontraram não por acaso nas águas territoriais da Líbia.

 

A reportagem é de Mauro Armanino, publicada por Avvenire, 20-09-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Formam uma procissão silenciosa e triste, acompanhada apenas pelo voo das gaivotas que parecem tocar, no vento, a última melodia roubada da terra. A pequena cruz de madeira dança nas ondas que, como aprenderam a fazer há milênios, a balançam com doçura materna.

 

Ele tinha quatro anos e, segundo a ONG "SOS Méditerranée" que o recolheu, estava há dez dias à deriva. Fome, sol e sede para ele e outras 60 pessoas, entre as quais outras crianças, principalmente meninas ainda mais novas que ele.

 

Pouco seria necessário para ajudá-los e, em atendimento às antigas leis do mar, salvá-los da morte iníqua. Mas eles vieram e desapareceram no mar. De forma escondida, como que por vergonha, apenas para escapar das guerras dos grandes que nunca terminam.

 

Sob os olhos distantes, distraídos, ausentes daqueles que, no mesmo mar, mas na outra margem, saboreiam os últimos dias daquele descanso que, pelo contrário, se tornou eterno para eles.

 

Eles desapareceram, apesar dos instrumentos de controle e interceptação cada vez mais eficazes e sofisticadas. Quatro barcos vazios escoltando uma pequena cruz de madeira boa, madeira de nogueira, feita sob medida para ele. Dez dias à deriva com a cruz da criança no meio, protegida das ondas do mar. Os barcos também, à sua maneira, fogem e partem novamente assim que chegam à costa.

 

Havia cerca de sessenta pessoas a bordo do barco de pesca que estava abandonado nas ondas há dez dias. Não se sabe quantos passageiros transportassem os quatro barcos encontrados vazios, um dos quais sem motor.

 

O destino dessas pessoas ainda permanece desconhecido hoje. Com certeza existe a data, 24 de agosto, uma pequena cruz, feita sob medida para ele e o silêncio. O cúmplice silêncio nosso.

 

Casarza Ligure, 18 de setembro de 2022

 

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