Sobre a castidade e a sexualidade, sem exagero. Em diálogo com Domenico Marrone. Artigo de Andrea Grillo

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21 Junho 2022

 

"As novas possibilidades de 'vivências castas' no exercício do prazer sexual são também o produto da sociedade aberta e dos sinais dos tempos que ela produz. Esses sinais, certamente não lineares, mas nem mesmo aberrantes, pedem à Igreja que continue a pensar corajosamente a vida casta, mas com a urgência de novas categorias culturais e de diversas relações pessoais. A coragem de falar de castidade é uma coisa, mas a pretensão de impor ordenamentos morais, jurídicos e imaginários do passado é outra coisa, que não é tanto o exercício da virtude da coragem, mas talvez a concessão ao medo ou a rendição ao desespero", escreve o teólogo italiano Andrea Grillo, professor do Pontifício Ateneu Santo Anselmo, em artigo publicado por Come Se Non, 20-06-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

As discussões que surgiram em torno dos "Itinerários catecumenais" publicados pelo Dicastério para os Leigos se concentraram em um ponto da tradição cristã e católica que sofreu grandes mudanças nos últimos séculos. Trata-se do tema da "castidade", sobre o qual é fácil confundir muitas coisas. Também um artigo como o de Domenico Marrone (sobre a castidade contra o ídolo do prazer, que pode ser lido aqui), me parece que, mesmo com a intenção correta, não contribui muito para apreender as reais questões em jogo.

 

Em seu texto, de fato, ele defende a castidade, como é correto, mas o faz com uma linguagem ultrapassada e demasiado apologética. Quando se interpreta a castidade como "luta contra o prazer como ídolo", somos capturados por uma leitura em termos de "continência" que é apenas uma parte da castidade. No fundo, lê-se a parte pelo todo e assim fica mais fácil rejeitar o todo identificado com uma parte.

 

O ídolo do prazer e as formas da vida casta

 

O que Marrone quer dizer, e nisso ele está totalmente certo, é que aqueles que “rejeitam a castidade” caem em erro. Isso está certo. Todo mundo precisa da castidade, porque a sexualidade não se identifica com o bem. O sexo é um grande bem, mas não é nem tudo bem nem o bem de todos.

 

A tradição coloca a questão de "gerir" o uso do sexo e o faz essencialmente de duas maneiras: renunciando a ele ou orientando-o. Na renúncia há duas vias: a do "voto religioso" e a da "lei eclesiástica". Por um lado, de fato, a tradição do monasticismo masculino e feminino "doa" a própria vida sexual ao louvor e ao trabalho, à oração e à contemplação, sem esposas, sem maridos e sem filhos (mas com irmandade, sororidade e paternidade/maternidade espiritual).

 

Por outro lado, a lei eclesiástica do celibato, embora também decorra de razões econômicas, hereditárias e de pureza ritual, encontra sua evidência na condição "celibatária" do ministro da Igreja. Como é óbvio, uma lógica puramente "legal" do celibato é muito frágil se não se alimentar de razões "espirituais". A imitação de Cristo e o “amor indiviso” do Pai são os lugares-comuns dessa interferência positiva e problemática entre ministério e vida cotidiana. O outro lado da castidade é aquele que não renuncia ao exercício da sexualidade, mas o submete ao "regime matrimonial", antes de tudo ordenando-o à geração. O exercício da sexualidade é justificado pelo seu “fim fecundo”, que é a abertura ao outro (como filho).

 

Todas essas três linhas (do voto religioso, do celibato e do casamento) identificam "fora de si" uma região, mais ou menos ampla, que é chamada de "vício contra a castidade". Nenhuma dessas três linhas é por si só obrigada a ler a sexualidade como um mal, mas é fortemente tentada a reconstruir a esfera sexual encobrindo-a com grande suspeita. A própria evolução da formulação do sexto mandamento é bastante instrutiva: surge como "não cometer adultério" (que é essencialmente um pecado social e de exercício da sexualidade), traduz-se em "não fornicar" (isto é, não exercer a sexualidade fora do casamento) e depois se estende a "não cometer atos impuros" (cuja lógica "individual" parece muito acentuada).

 

A linha evolutiva da terminologia sugere uma visão cada vez mais "individual" do sexo: talvez marcada pela experiência que os celibatários têm do sexo, que não por acaso desenvolveram, no tratado teológico, um espaço desproporcional dedicado à "polução noturna", quando no sono, todas as energias empregadas para não tocar, não se tocar e não se deixar tocar, cedem ao surgimento da libido inconsciente. O quanto isso também possa ser julgado "pecado" é um problema que para os medievais é tão importante quanto revelador dos limites de sua compreensão. O fato é que o discurso sobre a castidade foi monopolizado, quase integralmente, pela experiência de homens e mulheres não casados, cuja experiência do sexo era necessária e institucionalmente limitada.

 

Não tocar, não se tocar, não se deixar tocar

 

Por mais que se procure, com razão, oferecer as razões positivas da castidade, como convém, facilmente prevalece o registo negativo. A identificação de "castidade" com "continência" é exemplar deste ponto de vista. Parece que "vida casta" se identifica com "vida sem sexo". Mas vamos tentar entender melhor essa resistência ao "ídolo do prazer". Um bispo idoso, com a parrésìa que muitas vezes vem da idade, disse certa vez este lema: para nós a castidade significava "não tocar, não se tocar, não se deixar tocar".

 

Essa síntese, certamente também ingênua, capta bem uma certa maneira de entender a tradição. E diz respeito, como é evidente, ao exercício do tato. O fundamento de todo sentido é interrompido tanto ativamente, quanto reflexivamente e passivamente. Isso, por analogia, também passa para os outros sentidos. No paladar, olfato, audição e visão, não tocar, não se tocar, não se deixar tocar. Um programa desse tipo, concebido como um "caminho para a virtude", levava, por exemplo - e aqui está a história de um idoso padre-operário, que se lembrava de seu pároco - a uma gestão dos olhos nos padres que era inspirada nesse princípio. Já que mesmo com os olhos “tocamos, nos tocamos e nos deixamos tocar”, o idoso pároco, quando uma senhora entrava na sacristia, sempre mantinha os olhos fixos nos sapatos, sem nunca levantar o olhar para a mulher. Essa era a regra.

 

Não há dúvida de que o prazer seja um ídolo. Mas também a renúncia a todo prazer é outro ídolo, não menos perigoso. E, no entanto, conta-se que um famoso Bispo de Palermo sempre terminasse as reuniões com a fórmula "foi um prazer!".

 

Manter a porta entreaberta

 

Recentemente, em um belo texto que apareceu no Osservatore Romano, o bispo francês J-P. Vesco, que é um frade dominicano, ofereceu uma releitura do celibato e do voto de castidade, com uma metáfora interessante. Dizia que para ele ter escolhido a vida consagrada e celibatária era uma forma de "manter a porta entreaberta". Em outras palavras, permanecer aberto a todos, radicalmente. Se na escolha do matrimônio se entra numa relação íntima necessariamente exclusiva, que "fecha a porta", no voto de castidade a porta permanece aberta.

 

Que seja a "clausura" que garanta essa abertura, e que sejam os condomínios e os apartamentos ou as casas os locais do máximo fechamento não é apenas um paradoxo. É também outra forma de pensar os caminhos da "castidade". Amar-se com ternura, sem renunciar a ter prazer com o corpo da própria esposa ou do próprio marido, é uma forma de "sair de si": assim diz a castidade conjugal que estamos elaborando, com bastante dificuldade, há menos de um século.

 

Esta é outra questão em relação a Agostinho e Pascal. A concessão do casamento apenas como "generatio" - que Agostinho, Tomás de Aquino e Pascal têm em comum - deixa de conceber o "bonum coerum" como um bem do casamento. Tampouco consegue conceber que ao casamento formal se chegue "por graus", que também são níveis do relacionamento físico, corpóreo e sexual. E que nesses graus se possa ser tão responsável antes do casamento quanto depois. Uma vida casta, numa leitura da relação sexual orientada para a geração, para o bem dos cônjuges e para o prazer do outro de si, não é uma contradição, mas uma nova possibilidade real das vivências comuns. Em tudo isso, não existe apenas o drama da autossatisfação, sempre possível, mas também a real correlação com o próximo e com Deus. E que a domesticação do sexo possa gerar monstros tantos quanto sua satisfação desenfreada não precisa de muitas provas.

 

As novas possibilidades de "vivências castas" no exercício do prazer sexual são também o produto da sociedade aberta e dos sinais dos tempos que ela produz. Esses sinais, certamente não lineares, mas nem mesmo aberrantes, pedem à Igreja que continue a pensar corajosamente a vida casta, mas com a urgência de novas categorias culturais e de diversas relações pessoais. A coragem de falar de castidade é uma coisa, mas a pretensão de impor ordenamentos morais, jurídicos e imaginários do passado é outra coisa, que não é tanto o exercício da virtude da coragem, mas talvez a concessão ao medo ou a rendição ao desespero.

 

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