O Papa pede aos idosos que demonstrem “com muita humildade e firmeza, que crer não é algo ‘para velhos’”

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04 Mai 2022

 

  • "A honra da fé está periodicamente sob pressão, também violenta, da cultura dos dominadores, que tentam degradá-la tratando-a como um achado arqueológico, velha superstição, teimosia anacrônica".

 

  • "Um velho que, por sua vulnerabilidade, concordasse em considerar irrelevante a prática da fé, faria os jovens acreditarem que a fé não tem relação real com a vida".

 

  • "A pressão que esta crítica indiscriminada exerce sobre as gerações jovens é forte".

 

  • "A prática da fé não é o símbolo da nossa fraqueza, mas sim o sinal da sua força".

 

A reportagem é publicada por Religión Digital

 

Na catequese da audiência desta quarta-feira na Praça São Pedro, o Papa Francisco continua o seu ciclo sobre a velhice, apoiando-se no exemplo de Eleazar e sublinhando a honra da fé. O Papa sublinha que hoje, por vezes, “a prática da fé é considerada como uma externalidade inútil e até prejudicial, como um resíduo ultrapassado, como uma superstição mascarada”. E por isso convida os idosos a demonstrarem “com muita humildade e firmeza, precisamente na nossa velhice, que acreditar não é coisa 'para idosos'”.

 

A Praça São Pedro está novamente cheia (hoje cerca de 30.000 fiéis), apesar das profecias dos apocalípticos rigoristas, que pregavam que as pessoas estavam abandonando os apelos de Francisco. O Papa, apesar da dor no joelho, não quis perder o encontro com o santo povo de Deus. E, antes da catequese, percorreu, sentado no papamóvel, a praça, entre os aplausos, os aplausos e a devoção do povo, o que mostra, mais uma vez, que continua ao seu lado.

 

Após as saudações, o papamóvel sobe os degraus do 'sagrado', com o Papa a bordo e o deposita a poucos metros da sede. Metros que anda mancando de braço dado com o chefe da Casa Pontifícia, chega ao pódio, permanece de pé para iniciar a audiência e se joga na cadeira, sem perder o sorriso nem a paz.

 

Há alguns meses, os oradores do Papa, que antes eram apenas clérigos, agora são leigos, clérigos e freiras. Nas saudações, pediu aos polacos que continuem a rezar pela "paz na Europa".

 

Na saudação em italiano, o Papa volta a falar publicamente do seu joelho: "Não posso vir cumprimentá-lo e peço desculpas por ter que cumprimentá-lo sentado. É uma coisa momentânea e espero que passe logo e pode andar entre vocês, para cumprimentá-los."

 

Texto integral da catequese do Papa

 

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

 

No caminho da catequese sobre a velhice, hoje encontramos um personagem bíblico chamado Eleazar, que viveu na época da perseguição de Antíoco Epifânio (2 Mac 6,18.23-25). A sua figura dá-nos um testemunho da relação especial que existe entre a fidelidade da velhice e a honra da fé. Gostaria de falar precisamente da honra da fé, não só da coerência, do anúncio, da resistência da fé. A honra da fé está periodicamente sob pressão, também violenta, da cultura dos dominadores, que tentam degradá-la tratando-a como um achado arqueológico, velha superstição, teimosia anacrônica.

 

A história bíblica – ouvimos uma passagem – narra o episódio dos judeus forçados por decreto de um rei a comer carne sacrificada a ídolos. Quando é a vez de Eleazar, que era um velho muito estimado por todos, os oficiais do rei o aconselham a fazer uma simulação, ou seja, fingir comer a carne sem realmente fazê-lo. Hipocrisia religiosa e clerical, há tanta coisa. Assim Eleazar teria sido salvo, e – diziam – em nome da amizade ele teria aceitado seu gesto de compaixão e carinho. Afinal – insistiram – foi um gesto mínimo, insignificante.

 

A resposta calma e firme de Eleazar é baseada em um argumento que nos chama a atenção. O ponto central é este: desonrar a fé na velhice, para ganhar alguns dias, não é comparável à herança que deve deixar aos jovens, para inteiras gerações futuras. Um velho que viveu na coerência de sua própria fé ao longo de sua vida, e agora se adapta ao repúdio fingido, condena a nova geração a pensar que toda fé foi uma ficção, uma cobertura externa que pode ser abandonada pensando que pode ser mantida privado. Não é assim, diz Eleazar. Tal comportamento não honra a fé, nem honra a Deus. E o efeito dessa banalização exterior será devastador para a interioridade dos jovens. A coerência de um velho que pensa nos jovens.

 

É precisamente a velhice que aparece aqui como o lugar decisivo e insubstituível deste testemunho. Um velho que, por sua vulnerabilidade, concordasse em considerar a prática da fé irrelevante, levaria os jovens a acreditar que a fé não tem relação real com a vida. Isso lhes apareceria, desde o início, como um conjunto de comportamentos que, se necessário, podem ser simulados ou disfarçados, pois nenhum deles é tão importante para a vida.

 

A velha gnose heterodoxa, que foi uma armadilha muito poderosa e muito sedutora para o cristianismo dos primeiros séculos, teorizou precisamente isso: que a fé é uma espiritualidade, não uma prática; uma força da mente, não um modo de vida. A fidelidade e a honra da fé, segundo esta heresia, nada têm a ver com a conduta da vida, as instituições da comunidade, os símbolos do corpo. A sedução dessa perspectiva é forte, porque interpreta, à sua maneira, uma verdade indiscutível: que a fé nunca pode ser reduzida a um conjunto de regras alimentares ou práticas sociais. O problema é que a radicalização gnóstica dessa verdade anula o realismo da fé cristã, que, no entanto, deve sempre passar pela encarnação. A heresia gnóstica, que está tão na moda hoje.

 

A tentação gnóstica, a heresia, permanece sempre atual. Em muitas tendências da nossa sociedade e cultura, a prática da fé sofre de uma representação negativa, ora sob a forma de ironia cultural, ora com uma marginalização oculta. A prática da fé é considerada como uma externalidade inútil e até prejudicial, como um resíduo ultrapassado, como uma superstição mascarada. Em suma, uma coisa para os idosos. A pressão que essa crítica indiscriminada exerce sobre as gerações mais jovens é forte. É verdade que sabemos que a prática da fé pode se tornar uma exterioridade sem alma. Mas em si não é de todo. Talvez coube precisamente a nós, anciãos, restaurar sua honra à fé, torná-la consistente até o fim. A prática da fé não é o símbolo de nossa fraqueza, mas sim o sinal de sua força. Não somos mais crianças. Não estávamos brincando quando entramos no caminho do Senhor!

 

A fé merece respeito e honra até o fim: mudou nossas vidas, purificou nossas mentes, ensinou-nos a adoração de Deus e o amor ao próximo. É uma bênção para todos! Não trocaremos a fé por alguns dias tranquilos. Vamos demonstrar, com muita humildade e firmeza, justamente na nossa velhice, que acreditar não é algo “para idosos”. E o Espírito Santo, que faz novas todas as coisas, nos ajudará de bom grado. Caros anciãos (estamos na mesma guilda): Os jovens olham para nós. E nossa coerência pode abrir um caminho de vida para eles.

 

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