Deus escondido entre as dobras da vida. Artigo de Gianfranco Ravasi

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17 Agosto 2021

 

Sagradas Escrituras. Três estudos sobre Rute, e Qohelet (Eclesiastes) revelam como o Pai é capaz de modificar os destinos humanos sem despertar nenhum clamor. Já foi dito que esse encantador conto composto de apenas 1294 palavras hebraicas é uma espécie de "Cinderela bíblica": a protagonista Rute, de fato, da extrema pobreza de catadora de espigas ascende ao casamento com o senhor da cidade de Belém, o rico proprietário de terras Boaz. O desenvolvimento é ágil e se entrelaça com suspense, curiosidade e surpresas, e a vivacidade das cores narrativas exige que o comentarista tenha sutileza não só teológica, mas também literária.

O comentário é do cardeal italiano Gianfranco Ravasi, prefeito do Pontifício Conselho para a Cultura, em artigo publicado por Il Sole 24 Ore, 15-08-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

É o que acontece no comentário ao livro de Rute de um exegeta belga, o jesuíta Jean-Pierre Sonnet, também poeta e escritor refinado. Será, portanto, um prazer deixar-se acompanhar por ele na descoberta dos recantos remotos, inclusive noturnos, da história, nos convites lexicais, nos vislumbres espirituais. É sugestiva, de fato, não só a sequência das cenas, mas também a visão teológica que coloca em ação um Deus que vagueia escondido nas dobras dos atos, capaz de virar a sorte sem, no entanto, nenhum clamor epifânico.

Também é interessante a capacidade do autor judeu de transpor para uma história algumas leis típicas do ordenamento civil do antigo Israel, como o levirato, regra segundo a qual o irmão de um falecido era obrigado a casar-se com sua viúva se o casal tivesse ficado sem filhos. Também importante é a prática da colheita nos campos, uma espécie de salário mínimo de sobrevivência para os pobres. E nas linhas finais eis então uma genealogia que tem como último elo ninguém menos que o Rei Davi, cuja bisavó é justamente Rute.

Nosso objetivo então passa da atmosfera interiorana e camponesa de Belém, com uma história familiar conturbada, mas no final apaziguada em um sereno final feliz, para uma verdadeira catedral poética. Surge imponente - mesmo com as lesões que o tempo lhe infligiu - com suas 8343 palavras hebraicas, confiadas a um léxico mutável, estendido ao extremo de suas potencialidades, assim como seu projeto temático, impressionante, mas difícil de desvendar. Estamos falando do livro de Jó, uma obra-prima absoluta de trevas, gritos, silêncios, palavras extremas e supremas. Com coragem, outro estudioso - entre os tantos comentaristas que se aventuraram a entrar na crista cortante entre fé e negação desenhada pelo protagonista, o "xeque" estrangeiro 'Jiôb de Uz – confrontou-se com esse texto de complexa estratificação literária e teológica.

É Benedetto Piacentini, que tem uma vasta experiência de estudos, mas também de vida na terra da Bíblia. Sua abordagem para essa obra de redação bastante conturbada é minuciosa na análise, atenta nos caracteres tipográficos e menor na tonalidade que exclui uma definição clara da mensagem, confiando sua descoberta ao exame cuidadoso do próprio texto, conduzido versículo por versículo, mas também com um olhar sintético sobre cada etapa. No final, irrompe o Deus disputado e chamado em causa incessantemente pelo grande sofredor. E é aqui que se concentra, no enovelado das perguntas (e não das respostas) divinas, o fio do significado último do livro que consegue fazer prevalecer a teologia, ou seja, o discurso de Deus, sobre a antropologia, o escândalo do sofrimento, varrendo para longe os teoremas "racionais" dos amigos teológicos de .

Texto de crise, portanto, no sentido genuíno do termo, de discriminante entre "dizer coisas retas" sobre Deus ou apenas estereótipos. Livro de crise, mas no sentido comum da palavra é, por outro lado, outro texto bíblico capital, classificado sob o pseudônimo de Qohelet/Eclesiastes, "presidente da assembleia".

Estamos, de fato, diante de uma dura reflexão de 2.987 palavras hebraicas que colocam a sabedoria tradicional sob escrutínio crítico, um pouco como fazia , mas sem chegar a um resultado final marcado pela forte voz de Deus. Os exegetas sempre se dedicaram com afinco sobre essa obra, oscilantes entre os extremos interpretativos do pessimismo ou do desapego pacato e até sereno.

Partindo da rica colheita de comentários, um biblista de alta qualidade como Ludwig Monti tenta um confronto provocativo colocando lado a lado Qohelet com Jesus, duas vozes à primeira vista dissonantes, mesmo que os Padres da Igreja não hesitem em afirmar que "o nosso Eclesiastes é Cristo". Mas como é possível sustentar tal tese diante das cortantes palavras do sábio veterotestamentário "Tudo é vaidade, um sopro, um perseguir vento, tudo é sempre igual debaixo do sol, e no fim se vai para a morte..."?

Ou deixar-nos surpreender por suas perguntas sem resposta: Quem conforta o choro dos oprimidos? Qual Deus? Ainda é possível falar quando todas as palavras estão gastas? Que sabedoria é possível? Por quem me esforço? Que sentido tem a história e a vida?

A surpreendente originalidade de Monti é ter dirigido essas perguntas a Jesus, encontrando nos Evangelhos suas reações, respostas, mas também o relançamento de novas perguntas alternativas.

Deixamos aos leitores a participação nesse dueto verdadeiramente envolvente: será a descoberta paradoxal de dois mestres, diferentes mas necessários, "companheiros de viagem de grande respeito" no emaranhado do ser e do existir.

 


Editado por Jean-Pierre Sonnet, Rut, San Paolo, pp. 146, € 25 |  Benedetto Piacentini, Il libro di Giobbe, Edizioni San Lorenzo, pp. 361, € 19,50 | Ludwig Monti, Qohelet e Jesus, San Paolo, pp. 253, € 19 (Fotos: Divulgação)

 

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