“O coronavírus é consequência dessa dinâmica de exploração global”. Entrevista com Ivan Briz i Godino

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14 Julho 2021

 

Para o arqueólogo, historiador e pesquisador Ivan Briz i Godino, a pandemia de coronavírus é um indicador do fim do “modelo de desenvolvimento neoliberal extrativista”, para quem a época atual possui uma transcendência histórica comparável a eventos como a queda do Império Romano ou a chegada dos europeus na América.

Segundo o cientista, o vírus não deveria ser apontado como a causa, mas a consequência dos acontecimentos atuais, proveniente de um “capitalismo que se caracteriza por um crescimento continuado, sem fim, em um planeta com recursos limitados”, destacou.

“A dinâmica atual de exploração dos recursos naturais implica necessariamente a eliminação da biodiversidade. Além disso, o consumo industrial de combustíveis fósseis gera uma alteração global das condições climáticas do planeta e uma aproximação com os vírus”, afirma Briz i Godino, oriundo da Catalunha (Espanha), ainda que, desde 1995, vinculado a Ushuaia, na Terra do Fogo [Argentina], onde pesquisa o papel das estratégias de cooperação nos povos originários da região, no Centro Austral de Pesquisas Científicas (CADIC), vinculado ao CONICET.

Embora tenha se formado e realizado seus estudos de pós-graduação na Universidade Autônoma de Barcelona e realizado grande parte de seu trabalho no Conselho Superior de Pesquisas Científicas da Espanha, acabou se tornando pesquisador do CONICET para aprofundar seus estudos sobre povos como os yámanas e também desenvolver métodos de simulação social que lhe renderam uma bolsa na Universidade Harvard, nos Estados Unidos.

A entrevista é de Gabriel Ramonet, publicada por Télam, 11-07-2021. A tradução é do Cepat.

 

Eis a entrevista.

 

Por que utiliza o conceito de sindemia, em vez de pandemia, para definir a situação atual?

A pandemia pode ser entendida como um fenômeno estritamente sanitário. Ao contrário, a sindemia incorpora o componente social que implica uma situação pandêmica. Ou seja, não se trata somente da tragédia sanitária que estamos experimentando, mas de todas as causas e consequências sociais vinculadas a isso.

A ideia de sindemia envolve todas as condições sociais, econômicas, geopolíticas e sociopolíticas dessa época. Desse ponto de vista, parece-me que está sendo cometido um erro quando se entende o coronavírus como uma causa, quando na realidade é uma consequência.

E qual é a causa da pandemia?

Eu acredito que vivemos em um contexto de exploração de recursos naturais a níveis absolutamente demenciais, dentro de um espectro concreto como é a limitação que o planeta oferece. Isso significa que estamos entrando em contato com determinados elementos do ambiente com os quais não tínhamos entrado antes, o que provoca situações novas.

O coronavírus é consequência dessa dinâmica de exploração global. Essa exploração está gerando um novo contexto da biodiversidade. Comumente, é chamado de Antropoceno, ainda que autores como Jason Moore, da Universidade Binghamton, prefiram limitá-lo historicamente ao capitalismo e o chamam de Capitaloceno. Nunca antes na história da humanidade havíamos impactado dessa maneira, alterando o clima e a biosfera.

Esses fatores relacionados podem ser encontrados em outras epidemias ou pandemias da história?

É claro. Um exemplo claro é a propagação da chamada peste negra na Ásia, Europa e África, que foi produto da interconectividade do mundo urbano de finais do século XIII e inícios do XIV, com base no comércio mediterrâneo, sobretudo a partir da rota da seda e o império chinês.

Essa conectividade, que não existia na Alta Idade Média, é a que gerou uma dinâmica de propagação. A Covid também é a consequência de um mundo globalizado e interconectado. As epidemias surgem por um elemento sanitário ou biológico, mas existem em um contexto social.

Você compara esta pandemia com a queda do Império Romano ou a chegada dos europeus na América. Estamos realmente diante de uma mudança de época dessa dimensão?

Eu penso que estamos diante do fim deste modelo de desenvolvimento neoliberal extrativista. Esta dinâmica de crescimento continuado, característica essencial do capitalismo, entra em choque com a finitude dos recursos e expõe um problema indissolúvel, inclusive do ponto de vista da física clássica, como muito bem apontam pesquisadores como Antonio Turiel.

Esta exploração sem limites gerou, por exemplo, a mal denominada mudança climática, que na realidade é aquecimento global. Alteramos tanto o ambiente, em uma dinâmica impossível de parar de um dia para o outro, que a consequência será uma mudança completa da forma de vida no planeta. Essa é a mudança de época.

Diante dessa dinâmica de crescimento constante do vigente modelo, um futuro com base no decrescimento econômico é uma perspectiva mais do que factível. E isso terá inevitavelmente consequências sociais.

Você diz que o capitalismo vai acabar?

Acabar ou se transformar. Uma das características do capitalismo é sua capacidade camaleônica. Constantemente está mudando de cor. Agora, aparecem propostas de “capitalismo verde”, por exemplo. São tentativas de se reinventar para poder gerar uma continuidade a nível de poder conseguir a maior quantidade de lucros possíveis. Não sei se o capitalismo vai acabar, mas certamente terá que mudar para outro modelo.

Por que a exploração exacerbada de recursos leva ao surgimento de vírus?

Porque a dinâmica atual de exploração de recursos implica necessariamente a eliminação de biodiversidade. E isso gera uma alteração global das condições climáticas do planeta. São fenômenos complexos.

Por exemplo, o problema não é somente o aumento de temperatura e do nível do mar, mas existe uma relação entre as massas oceânicas e a atmosfera, que se retroalimentam. Isso gera mudanças na circulação das marés e nas correntes de ar ou regimes de chuva.

Se os regimes de chuva mudam, alteram-se as contribuições de água doce para determinados setores, que no caso da Argentina afetam também as geleiras. E assim em uma dinâmica complexa de efeitos concatenados.

Por isso, a biodiversidade se reajusta e as condições de vida para os seres humanos mudam. Em uma zona marítima como a costa da Terra do Fogo, os efeitos dessas mudanças serão de grande relevância.

E como se chega aos vírus?

De muitas maneiras. Por exemplo, com o degelo de diferentes elementos no permafrost no hemisfério norte. Esses elementos sempre estiveram aí, mas agora entram em contato conosco.

Sendo assim, podem surgir vírus com os quais até agora não havíamos tido contato (ou, no mínimo, não temos registro histórico). O mesmo com as profundas alterações que as mudanças climáticas provocam em diferentes biótopos com os quais entramos ou entraremos em contato.

Você se dedica à pesquisa de povos originários da Terra do Fogo. De que maneira esses estudos podem se relacionar com a atual conjuntura da pandemia?

O passado de nossa espécie é a única base de dados que temos sobre como podemos tentar esboçar alguma resposta frente ao futuro. E isso inclui os povos originários, dos quais podemos extrair grandes contribuições para reconsiderar a forma a nossa forma de nos relacionarmos e com o resto do planeta.

Não dispomos de outra informação sobre o comportamento humano. Não há nenhuma outra. Nosso passado é a nossa grande reserva de informações. E ao estudá-lo nos permite compreender que processos ou comportamentos naturalizados no presente foram de outras formas no passado.

Um exemplo crucial em relação aos povos fueguinos: no contexto atual, explicaram para nós, como ideia predominante, que a obtenção de lucros e o individualismo é a forma mais eficiente de organização social. A frase típica: nunca antes se havia gerado tanta riqueza como na era capitalista. A pergunta é sob quais condições.

O passado humano nos oferece todo um leque de alternativas para podermos nos repensar e nos reorganizar de outra maneira, especialmente em contextos de crise. Por exemplo, sob dinâmicas de cooperação social, que era um traço distintivo dos povos fueguinos.

Você disse que essas mudanças na organização social nos ajudariam a superar esse tipo de crise?

Exato. Vou fazer uma premonição, com muito cuidado e respeito. Eu acredito que aqueles grupos humanos, sejam uma sociedade, um Estado, um continente ou uma federação de países, que conseguirem implementar uma dinâmica de ajuda mútua e cooperação, terão primeiro as ferramentas mais poderosas para superar contextos de crise.

Como avalia que será o mundo pós-pandemia?

É difícil calcular o nível e a profundidade das mudanças que se aproximam. O que, sim, suspeito que em pouco tempo irá mudar é esta dinâmica de capitalismo continuado e acelerado, simplesmente porque o mundo capitalista ocidental será incapaz de manter esses níveis de crescimento e porque as limitações do planeta são o que são.

A partir disso, o capitalismo deverá se reinventar como sistema. A bifurcação é muito simples. Ou tenderemos a uma dinâmica de desigualdade muito maior, com um perigoso aumento das tensões sociais, ou começarão a surgir focos de delineamentos alternativos, relacionados à cooperação.

 

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