Colômbia. O administrador da Província Jesuíta clama: “Chega de impunidade, chega de indiferença”

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17 Mai 2021

 

“Este enorme desafio que estamos todos enfrentando, se torna mais incisivo para aqueles que tem a responsabilidade de nos dirigir. Lamentavelmente não vejo líderes de tamanho, grandes em dignidade, crentes e com autoridade moral para convocar com força e ordenar um diálogo nacional de fundo e com todos os atores. Toda a classe política está desprestigiada. Eu, pelo menos, estou farto de discursos oportunistas de alguns, medíocres de outros, polarizantes de muitos, desavergonhados todos. Creio que todos nós queremos algo novo, algo distinto. Basta dos mesmos de sempre, mentirosos compulsivos, farsantes mentirosos que prometem descaradamente o que sabem que nunca cumprirão”, escreve José Leonardo Rincón, administrador da Província Jesuíta na Colômbia, em artigo publicado por Religión Digital, 14-05-2021. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

 

Eis o artigo.

 

Não lembro de ter vivido uma greve nacional tão prolongada, tão firme, com tantas manifestações por todas as partes, com tantos comunicados, marchas, expressões de toda ordem em redes sociais e meios de comunicação. Nem a ameaça de contágios massivos em plena pandemia, nem as fortes tempestades que caíram dissuadiram, espantaram ou puderam impedir essa força popular.

O copo transbordou e não sei se os que estão à frente do país estão conscientes disso. Se ninguém aguentava um dia mais de confinamento com seus fechamentos obrigatórios que deixaram milhares desempregados, passando fome e morando na rua, menos ainda aguentaria uma reforma tributária impiedosa, louca e absurda.

Equivocaram-se de conjuntura e de destinatários. Foram teimosos e não quiseram nem ver, nem escutar. Agora estamos com um país caótico e na pior crise estrutural de sua história. E não é uma frase pronta, não caímos nas garras demoníacas da esquerda comunista regional denominada castro-chavismo-madurismo com a qual sempre nos assustaram, por fim, caímos nas garras de outro regime, tão nefasto como aquele, porque regime é regime, seja de esquerda ou de direita, e sempre usam o poder para seu proveito e em qualquer caso é sempre o povo que perde.

Este enorme desafio que estamos todos enfrentando, se torna mais incisivo para aqueles que tem a responsabilidade de nos dirigir. Lamentavelmente não vejo líderes de tamanho, grandes em dignidade, crentes e com autoridade moral para convocar com força e ordenar um diálogo nacional de fundo e com todos os atores. Toda a classe política está desprestigiada. Eu, pelo menos, estou farto de discursos oportunistas de alguns, medíocres de outros, polarizantes de muitos, desavergonhados todos. Creio que todos nós queremos algo novo, algo distinto. Basta dos mesmos de sempre, mentirosos compulsivos, farsantes mentirosos que prometem descaradamente o que sabem que nunca cumprirão.

A qualidade do ensino escolar não pode cair mais. As humanidades foram descartadas como subversivas (religião que nos falava de transcendência, ética que nos ensinava valores, civilidade que nos dizia como nos comportar como cidadãos para cuidar do público e saber como agir com os outros; oratória, escrita e ortografia para saber falar com os outros, escrever bem e corretamente; a geografia que nos localizava e contextualizava; a história que nos ensinava as lições do passado; a filosofia que nos fazia pensar criticamente) e o se usou de apologia o discurso técnico-científico e tecnológico, como se fosse a panaceia.

As instituições perderam seu norte ao serem corrompidas. A justiça se ajoelhou diante do crime organizado, dando lugar ao crime desenfreado e à impunidade. O dinheiro fácil permeou por toda parte como a melhor opção para economizar trabalho, esforço e sacrifício. A lista de infortúnios seria interminável, mas sabemos e o conhecemos.

Essa conjuntura pode ser uma bênção feliz se for aproveitada para ir ao cerne da questão. Vivemos em um dos países mais desiguais do mundo, onde a miséria cresce diante do olhar indiferente de uma elite minoritária. E criticar o capitalismo neoliberal não é defender o comunismo, nem o fascismo. A pobreza absoluta deve desaparecer e a classe média deve ser catapultada, para viver sem ostentação e onde ninguém passa fome.

A justiça deve ser fundamentalmente reformada e recuperar a impecabilidade que tinha. O Congresso, espaço legítimo de representação do povo, deve ser reduzido em número e artimanhas e expulsar de suas instalações aqueles que lucram sem fazer nada. Devemos reduzir o desperdício e os gastos públicos saturados de burocracia. É urgente gerar empregos.

O campo e a agricultura devem ser estimulados. A pesquisa e a ciência precisam ser apoiadas. Esportes e recreação que promovem a saúde física e mental. Uma reforma educacional deve ser realizada com um currículo que forme pessoas íntegras e integrais para a vida e a convivência humana. A saúde deve ser digna e para todos.

Os comunicadores devem ser imparciais e verdadeiros. As instituições precisam ter credibilidade novamente. A vida humana é sagrada e os direitos humanos não são uma ideologia ameaçadora se forem acompanhados pelos deveres humanos, fundamento básico de uma sociedade justa. Diversidade e pluralidade são nosso maior patrimônio.

Assim, temos que ir ao fundo do essencial e não nos deixar distrair por banalidades supérfluas. Tudo isto tão terrível e tão difícil que estamos vivendo, não é para procurar candidatos para as eleições de 2022, mas para trabalhar para um novo alvorecer para o nosso país.

E para que não haja dúvidas e lacunas, categoricamente aqui desta plataforma de livre pensamento e expressão, rejeito todos os atos de vandalismo e violência, todos os danos aos bens públicos precisamente porque são nossos, todos os atentados à vida humana, tanto de quem marcha pacificamente e quanto de quem cuida e defende o povo. Qualquer desajustado deve ser punido e reeducado, obrigado a ressarcir os danos causados e trabalhar para reconstruí-lo. Os criminosos, independente do estrato social que sejam, devem pagar por seus delitos e crimes. Chega de impunidade, chega de indiferença. O problema é que não vejo liderança, outra ausência lamentável.

 

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