Al Sistani, o homem-chave no Iraque

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26 Fevereiro 2021

Durante sua viagem ao Iraque, o Papa Francisco fará uma parada na cidade sagrada de Najaf, querida pelos muçulmanos xiitas e lar do aiatolá Al Sayyed Ali al Husseini al Sistani. Quem é este líder religioso? E por que ele é importante?

A reportagem é de Elisa Pinna, publicada por Terra Santa.net, 24-02-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

Al Sayyed Ali al Husseini al Sistani. (Foto: Wikipédia)

Quem é o grande aiatolá xiita Al Sayyed Ali al Husseini al Sistani, líder religioso com quem o Papa Francisco se encontrará na cidade sagrada de Najaf no dia 6 de março, em um dos momentos mais marcantes de sua visita ao Iraque?

Alguns podem responder que ele é o verdadeiro homem no comando em um país onde os governos e as forças armadas são perenemente fracos demais e incapazes de defender a soberania nacional. Na realidade, Sistani é muito mais. Sua autoridade moral e seguidores populares ultrapassam as fronteiras do Iraque, tornando este religioso, frágil, silencioso, de 90 anos, um ponto de referência para a maioria dos xiitas da região, incluindo o Irã. Até o todo-poderoso general Qassem Soleimani, que de 2014 a 2016 organizou e liderou a contraofensiva contra o ISIS no Iraque, admitia sem constrangimento que a única pessoa a que obedecia era o aiatolá de Najaf, provavelmente fazendo estremecer não só o governo de Bagdá, mas também muitos clérigos de Qom.


Mapa do Iraque, em destaque as localidades que serão visitadas pelo Papa Francisco. Fonte: Universidade do Texas

De origem iraniana, e seu sotaque ainda o revela hoje, al Sistani é o símbolo vivo de um islã xiita de que muitos sentem saudade: uma fé feita de orações, conselhos e exemplos espirituais para os crentes, compaixão e solidariedade, alteridade com respeito ao poder terreno. É "quietismo" em oposição à teocracia política dos aiatolás imposta no Irã pela revolução khomeinista de 1979.

Sistani raramente sai de sua modesta casa, que fica em um beco em Najaf, a poucos passos da Mesquita de Ali, o mais venerado local sagrado por xiitas de todo o mundo, provavelmente mais amado do que a própria Meca. Do lado de fora da porta, há sempre uma fila interminável de pessoas. O aiatolá as recebe sentados de pernas cruzadas sobre um tapete em uma sala com paredes sem adornos; o turbante preto, a grande barba branca, as sobrancelhas grossas e os olhos que sempre buscam o contato visual com o visitante. À sua frente, às vezes, políticos iraquianos, líderes de milícias, no passado até generais dos Estados Unidos, mas acima de tudo gente simples em busca de conforto, uma indicação, uma explicação para os pequenos ou grandes acontecimentos da vida.

Sistani não faz discursos públicos. Conforme o caso, ele confia as suas mensagens a porta-vozes, que também as divulgam pela internet. Na recente e turbulenta história do Iraque, ele interveio apenas em momentos-chave e, na maioria das vezes, salvou o país do abismo. Em 2004, ele conseguiu parar os combates, que eclodiram em Najaf entre as milícias xiitas de um lado e o exército iraquiano e soldados americanos do outro. Mais tarde, ele tentou evitar represálias xiitas contra a minoria sunita iraquiana, mas não teve tanto sucesso. Essencial foi seu apelo aos iraquianos em 2014 para se unirem para lutar juntos contra o Estado Islâmico. Seu soft power às vezes parece invencível. Nos últimos anos, apoiou os protestos de rua contra a corrupção do poder e depois do assassinato de Soleimani em Bagdá em 3 de janeiro de 2020 (decidido pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump) apoiou o fim da interferência externa no Iraque. Um sinal para os Estados Unidos e, certamente, para o Irã dos aiatolás khomeinistas, mas não para o Irã das pessoas comuns, cansadas da crise econômica e da superexposição internacional de seu país.

Portanto, não é preciso imaginar que o Papa fale com Sistani com o objetivo de envolver também as autoridades iranianas. Afinal, as relações diplomáticas entre a Santa Sé e o Irã são boas. O grande aiatolá de Najaf ainda é a pessoa certa para chegar ao coração do mundo xiita. Sistani é um homem de paz e com Francisco certamente abordará a questão crucial de como consertar as relações de confiança entre a minoria cristã, agora reduzida a 200 mil pessoas, e os integrantes da maioria muçulmana. O religioso está pronto para gestos corajosos. Nos primeiros meses da pandemia de Covid-19, os cemitérios iraquianos rejeitavam as mortes por vírus por medo de contaminar o solo. Os parentes ficaram desesperados, não sabiam para onde levar seus entes queridos. Em Najaf existe um dos maiores cemitérios do mundo: todos os xiitas querem ser enterrados perto da mesquita de Ali, são milhões e milhões de túmulos. Pois bem, Sistani decidiu dedicar um espaço ainda não utilizado do “Vale da Paz” para acolher aqueles que ninguém queria, os mortos de Covid-19, de graça e sem olhar para a fé professada. Agora, naquele pedaço de terra que quase se confunde com o deserto, milhares de xiitas e sunitas - até mesmo alguns cristãos - descansam lado a lado.

Por que Persépolis?

A cidade de Persépolis era o centro do mundo antes de Alexandre o Grande e de Roma. Foi um símbolo de uma época de convivência e integração cultural para aquela imensa região que chamamos de Oriente Médio. Hoje as ruínas da capital política do antigo Império Persa estão localizadas no coração geográfico de uma área que em poucas décadas viu e está vendo guerras desastrosas, invasões de superpotências estrangeiras, terrorismo, conflitos latentes e lacerações internas do Islã: acontecimentos que escapam às simplificações com que os acontecimentos daquele quadrante geográfico são frequentemente lidas no Ocidente e que exigem paciência na busca dos fatos e abertura na avaliação de suas interpretações. É isso que este blog se esforça em fazer, propondo um olhar atento sobre a cultura, a sociedade, a economia, a religião, as raízes identitárias do Irã e os territórios com forte componente xiita, entre o Mediterrâneo e Ormuz, entre o Iêmen e a Ásia Central.

Elisa Pinna, jornalista e escritora, foi vaticanista, enviada para o Oriente Médio e correspondente de Teerã para a agência Ansa, além de colaboradora de vários jornais italianos. Ela escreveu livros sobre o pontificado do Papa Bento XVI, sobre as minorias cristãs no Oriente Médio, sobre o legado do apóstolo São Paulo. Com a Edizioni Terra Santa publicou Latte, miele e falafel: un viaggio tra le tribù di Israele e contribuiu com Iran, guida storica–archeologica.

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