O difícil encontro entre cristãos e muçulmanos

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30 Abril 2019

Para a metade dos cristãos da Europa ocidental, o Islã é incompatível com a cultura e os valores da própria nação. 30% não estão dispostos a aceitar um membro da família muçulmano. Para 25%, os imigrantes do Oriente Médio são desonestos. Perdendo apenas para Portugal a taxa de cristãos entre a população (80%, a metade dos quais praticantes), a Itália é o país com a maior percentual daqueles que gostariam que a imigração fosse reduzida (52%). Entre os cristãos da Europa ocidental, os italianos estão no topo do ranking da negatividade sobre muçulmanos e imigrantes.

O instituto independente norte-americano Pew Research Center publicou esses dados há um ano, fruto de entrevistas conduzidas entre abril e agosto de 2017 em uma amostra aleatória de 24.000 adultos em doze países. Os novos dados publicados sobre a religião no mês passado pela equipe de pesquisa do Pew, dirigido por Alan Cooperman, parecem confirmar o quadro.

De acordo com essa pesquisa mundial sobre as atitudes em relação aos migrantes, de 2014 a hoje o percentual de italianos que consideram os imigrantes um recurso diminuiu 7% e agora está em 12%, enquanto na França, Espanha e Reino Unido aumentou em 10% e chega a 60%. A "Lettura" se encontrou com Cooperman na Suécia, na Universidade de Uppsala, por ocasião de uma reunião de diretores de centros de pesquisa sobre a religião.

A entrevista é de Marco Ventura, publicada por La Lettura, 28-04-19. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

A Itália é o país mais anti-imigrantes da Europa ocidental?

Vamos esclarecer: pelas várias perguntas da pesquisa, a Itália está na posição mais alta entre os países com maior percentual de população com opiniões negativas sobre os migrantes e muçulmanos.

Mas na vossa "escala de negatividade" para os imigrantes e muçulmanos, a Itália é claramente o primeiro país.

A escala deve ser interpretada com cautela. O resultado varia dependendo das perguntas que fizemos. Na Itália, como em outros lugares, há uma pluralidade de opiniões. Em geral, a maioria dos italianos rejeita os estereótipos anti-islâmicos. Além disso, muitos italianos não expressam um sentimento de superioridade cultural, como acontece em outros países.

Em suma, está na defensiva.

Não. Mas seria um paradoxo que em uma pesquisa sobre os estereótipos, caíssemos em um estereótipo sobre os italianos.

Da sua pesquisa, emerge uma Europa em que a religião ainda é importante.

A importância da religião para a identidade nacional é forte nos países ortodoxos da Europa central e oriental, da Grécia à Rússia. É menos forte na Europa ocidental.

Mas se olharmos para os seus dados sobre os cristãos europeus, até mesmo na Europa ocidental, a religião condiciona a percepção do outro.

Existe certamente uma correlação entre como as pessoas se percebem por esse ponto de vista e a atitude em relação aos migrantes e muçulmanos.

Um percentual considerável de europeus ocidentais declara agora que não pertence a nenhuma religião. Mais de 40% na Bélgica e nos Países Baixos, Suécia e Noruega. São 15% na Itália.

Eles tendem a ver a religião como um fator menos importante. São menos religiosos, embora alguns possam acreditar em Deus.

Apenas 11% daqueles que não são afiliados a uma religião declaram-se contrários a um eventual membro da família muçulmano, contra 30% dos cristãos. 30% dos não afiliados consideram o Islã incompatível com a cultura e os valores nacionais, contra 50% dos cristãos.

Precisamente porque a religião conta pouco em suas vidas, os não afiliados dão menos peso à identidade religiosa. Isso parece refletir-se em uma opinião mais favorável em relação a minorias e imigrantes. É um fato que encontramos em diferentes respostas e em diferentes países.

Um dado sobre o qual os cristãos devem refletir.

Precisamos lembrar que isso diz respeito apenas a uma parte dos cristãos. Certamente não todos. Não podemos dizer que os cristãos em geral são anti-imigrantes.

Mas muitos deles são.

Em cada país da Europa ocidental há uma fatia da população que expressa uma série de opiniões negativas sobre imigrantes e muçulmanos. Aqueles que se identificam como cristãos são uma grande parte dessa fatia. Isso não significa que não existam cristãos que pensem de maneira diferentemente.

É impressionante que na intensidade das opiniões antimuçulmanas e anti-imigrantes não exista diferença entre cristãos praticantes e não praticantes.

A chave é a identidade. Para essa fatia da população, a referência ao cristianismo é acima de tudo uma questão de identidade...

... uma identidade distinta da prática e o credo?

Entrevistamos pessoas durante o período mais agudo da crise síria. Esses são os dados de uma conjuntura histórica particular. Parece ser uma identidade reativa, à qual as pessoas recorrem como uma reação a uma ameaça. Como o fato de estar diante de ondas de imigrantes. Dez anos atrás, provavelmente teríamos tido respostas diferentes.

Não parece causar-lhe surpresa a existência de uma identidade cristã europeia independente de ir ou não à missa, e até mesmo acreditar ou não acreditar em Deus.

Essa não é uma exceção. É a norma em todo o mundo. Para todas as religiões. De maneiras diferentes e em diferentes graus, claro; mas o esquema é comum. É por isso que, em nossas pesquisas, colocamos a identidade, a prática e o credo em diferentes pools de perguntas.

Sobre os imigrantes, a identidade e não a prática, a religiosidade. Frequentar a missa não muda nada.

É algo que nos impressiona nesta pesquisa. Sobre o aborto, sabemos que normalmente a um nível mais elevado de religiosidade corresponde uma posição mais conservadora. Sobre os imigrantes e muçulmanos não. Ser um praticante ou não praticante não conta. A diferença não existe.

A identidade religiosa é o fator mais importante na determinação de opiniões negativas sobre imigrantes e muçulmanos?

Primeiro, vem o pertencimento político. Pedimos aos entrevistados que se posicionassem em uma escala de direita até à esquerda. Aqueles que têm opiniões negativas sobre imigrantes e muçulmanos posicionaram-se à direita. Depois vem a identidade religiosa. Atenção: não religiosidade, a identidade. E depois o nível de instrução.

Nível de instrução?

É um importante fator preditivo. A população mais instruída tende a ser menos negativa.

A maior surpresa da pesquisa...

... é a idade. Que a idade não faz diferença. Jovens e menos jovens se dividem em proporções iguais. Com uma ligeira diferença para a Itália, onde os jovens parecem mais inclinados do que os menos jovens a aceitar muçulmanos e judeus.

Pois bem, vamos voltar para a Itália. Poderíamos explicar um dado nacional tão negativo com a maior sinceridade dos italianos?

"Poderia ser. Sabemos que existem diferenças nacionais sobre a distorção determinada no indivíduo entrevistado pelo que se considera socialmente desejável. Pode acontecer que em outros países pese mais sobre os entrevistados o medo de dizer algo inaceitável na sociedade..."

... algo politicamente incorreto ...

... sim, é possível. Inclusive, nós medimos os sentimentos expressos. Não posso entrar na cabeça das pessoas. Apenas sei o que elas querem me dizer ...

.... mas então ...

... não por isso os resultados são menos significativos. Pelo contrário. É muito importante medir o que as pessoas consideram que podem dizer em um determinado contexto, em uma dada sociedade. E quem diz o quê. Por exemplo, as pessoas mais instruídas, ou as mulheres que parecem um pouco menos negativas do que os homens nesta pesquisa. Ou os cristãos que, ao contrário, parecem querer dizer determinadas coisas.

Então, quão confiáveis são os seus dados?

Precisamos trabalhar em larga escala. Estamos cientes de que os indivíduos são complicados, únicos. Mas os grandes números podem nos permitir ver coisas importantes.

A Itália emerge desta pesquisa como um país muito negativo sobre os judeus. Um quarto dos entrevistados não aceitaria um membro da família judeu. Para 36% os judeus exageram sobre as perseguições do passado. São números muito superiores à média da Europa ocidental. O que pensa desse antissemitismo, você que é judeu?

Não temos dados suficientes para definir esses resultados como indicativos de antissemitismo.

Teria sido importante perguntar a opinião dos judeus europeus, além daquela dos cristãos.

Nossa amostra é determinada aleatoriamente. Nela encontramos cristãos e não afiliados, católicos e protestantes, judeus e muçulmanos. Mas não tivemos um número suficiente de judeus, ou mesmo de muçulmanos, para alcançar um dado significativo.

Devemos, portanto, nos limitar por enquanto às opiniões sobre judeus e muçulmanos e não de judeus e muçulmanos.

Os dados são, no entanto, muito importantes. Observamos em toda parte uma correlação entre opiniões negativas sobre muçulmanos e sobre judeus. Como no caso italiano, quanto maior for o percentual negativo sobre o Islã, maior o porcentual de opiniões negativas sobre o judaísmo.

É um resultado diante do qual não se pode ficar indiferente.

Nós do Centro de Pesquisas Pew não formulamos recomendações para os atores. Mas mesmo à luz de nossas últimas pesquisas, esse é um dado que os líderes judeus e muçulmanos precisam conhecer.

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