A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Jesus Cristo segundo Evangelho de Lucas 14,1.7-14 que corresponde ao 22° Domingo do Tempo Comum, ciclo C do Ano Litúrgico. O comentário é elaborado por Ana Maria Casarotti, Missionária de Cristo Ressuscitado.
Aconteceu que, num dia de sábado, Jesus foi comer na casa de um dos chefes dos fariseus. E eles o observavam. Jesus notou como os convidados escolhiam os primeiros lugares. Então contou-lhes uma parábola: "Quando tu fores convidado para uma festa de casamento, não ocupes o primeiro lugar. Pode ser que tenha sido convidado alguém mais importante do que tu, e o dono da casa, que convidou os dois, venha te dizer: 'Dá o lugar a ele'. Então tu ficarás envergonhado e irás ocupar o último lugar. Mas, quando tu fores convidado, vai sentar-te no último lugar. Assim, quando chegar quem te convidou, te dirá: 'Amigo, vem mais para cima'. E isto vai ser uma honra para ti diante de todos os convidados. Porque quem se eleva, será humilhado e quem se humilha, será elevado". E disse também a quem o tinha convidado: "Quando tu deres um almoço ou um jantar, não convides teus amigos, nem teus irmãos, nem teus parentes, nem teus vizinhos ricos. Pois estes poderiam também convidar-te e isto já seria a tua recompensa. Pelo contrário, quando deres uma festa, convida os pobres, os aleijados, os coxos, os cegos. Então tu serás feliz! Porque eles não te podem retribuir. Tu receberás a recompensa na ressurreição dos justos".
O texto deste domingo nos relata um momento da vida de Jesus que é um almoço compartilhado na casa de um dos chefes dos fariseus.
Em primeiro lugar, destacamos a total abertura de Jesus, que vai almoçar na casa de um fariseu, apesar de discordar de muitas das atitudes desse grupo.
Lembremos que os fariseus são um grupo heterogêneo de sacerdotes e leigos, onde há pessoas influentes e pessoas humildes, com diferentes níveis culturais, mas que têm em comum a valorização da Lei, seja escrita ou oral. Lembremos que os fariseus são um grupo heterogêneo de sacerdotes e leigos, onde há pessoas influentes e pessoas humildes, com diferentes níveis culturais, mas que têm em comum a valorização da Lei, seja ela escrita ou transmitida oralmente. Eles buscam a santidade no cumprimento estrito das normas de pureza, no pagamento do dízimo e em viver de acordo com todas as prescrições da Lei. Sua atitude de estrita observância da Lei os levou a colocar esse cumprimento acima de tudo, até mesmo da pessoa. No texto do evangelho, destacamos que Jesus não recusa o convite para almoçar na casa do chefe dos fariseus, embora ele não compartilhe muitas de suas atitudes e formas de conceber a pessoa e sua relação com Deus. Jesus senta-se à mesa com todos e, possivelmente, isso também gera problemas ou murmúrios entre aqueles que estavam com ele ou entre outros fariseus, ou talvez também entre aqueles que sofreram com as atitudes de alguns fariseus.
E eles o observavam. Jesus notou como os convidados escolhiam os primeiros lugares.
O texto relata duas atitudes semelhantes, mas muito diferentes: os fariseus observam e Jesus “percebe”, porque está atento às atitudes das pessoas. Os fariseus observam Jesus para ver o que ele faz, como age, o que diz. É sábado e eles o observam como uma espécie de controle, talvez com malícia, para verificar se ele cumpre todas as normas de pureza ritual. Antes de nossa narrativa, há a cura de um hidrópico que foi colocado diante de Jesus. O texto relata o diálogo de Jesus com os fariseus, ele pergunta: “é possível curar no sábado ou não?” Ninguém ousa dar uma resposta: “eles ficaram em silêncio”. Podemos imaginar uma certa tensão no ambiente porque, ao curá-lo no sábado, fica claro que toda pessoa está acima do cumprimento da Lei. Então Jesus lhes diz: “suponhamos que um de vocês tenha um filho ou um boi que caia em um poço, não o tiraria imediatamente no sábado? ” A resposta é novamente o silêncio: “Não podiam responder-lhe”.
Jesus também está atento e “notou como os convidados escolhiam os primeiros lugares”.
Ele olha, observa, mas não com malícia, e sim para iluminar a partir da vida, para transformar atitudes em um ensinamento. A proclamação do Reino, a comunicação da boa nova, é feita por meio de parábolas, relatos, frases, que estão fundamentadas na vida cotidiana das pessoas, camponeses, agricultores, artesãos, pastores, cozinheiras, donas de casa, grupos familiares, amigos, chefes e empregados.
A cena nos descreve Jesus observando como as pessoas tentam ocupar os primeiros lugares. Atualmente, em uma festa, os lugares já estão designados e talvez a única preocupação seja saber se conhecemos alguém daquela mesa. Mas, na época de Jesus, nos primeiros lugares era servida uma comida melhor e, a partir daí, entende-se essa busca quase desesperada por ocupar esses lugares. Junto com a honra e a fama que isso implicava, está sem dúvida esta realidade: comer bem! Hoje em dia, esses primeiros lugares poderiam ser traduzidos como “tentar fazer contatos” para obter algum benefício: seja trabalho, possíveis viagens, etc.
Destacamos assim dois ensinamentos de Jesus: um sobre a humildade sincera, que se traduz em ocupar os últimos lugares, “porque quem se eleva será humilhado e quem se humilha será elevado”; e, por outro lado, abrir a mesa a todas as pessoas, não apenas aos amigos ou conhecidos, mas a todos! Jesus volta mais uma vez o seu olhar para os “últimos”, aqueles que ficam para trás, os que estão na ultima posição, e convida-nos a colocar-nos ao seu lado, a estar ali, de verdade, sem fingimentos. Como disse São Paulo na carta aos Filipenses: “Não façais nada por ambição ou vaidade, mas com humildade considerai os outros superiores a vós mesmos” (Flp 2,2). Somos chamados a viver e sentir como Jesus, que se fez humilde e sempre ocupou o último lugar!
“Quando deres uma festa, convida os pobres, os aleijados, os coxos, os cegos. Então tu serás feliz!”
Recordamos as palavras do Papa Francisco na JMJ em Lisboa: "Na Igreja cabem todos, todos, todos". É “Um barco aberto a todos. Sem filtros. Com as portas e rampas sempre abertas. Para entrar nele não se pede a ninguém cartão nem credenciais nem ficha de serviço nem méritos acumulados. É para todos, sem distinções de qualquer espécie. Porque a Igreja do Nazareno não é nem pode ser uma alfândega. Na Igreja de Jesus não há sócios. E, claro, não há parceiros preferenciais. Ninguém pode, portanto, passar pela vida de crente distribuindo cartões de mais ou menos (melhores ou piores) crentes. (Cf. O grito inclusivo do Papa: “Todos, todos, todos”.)
Pedimos ao Senhor que nos conceda viver como Ele. Suas palavras estão fundamentadas em suas atitudes, ele fala de um reino para todos e o prega com sua vida e suas obras.
Estar entre os últimos não é uma estratégia social, nem política, e muito menos religiosa. É viver e sentir no estilo de Jesus.
Oração
Um pobre assim, um Deus assim
Pobre daquele que descobriu
a dor do mundo
como dor de Deus,
a injustiça dos povos
como rejeição de Deus,
a exclusão dos fracos
como batalha contra Deus!
Já tem a cruz assegurada!
Feliz o que descobriu
no protesto do pobre
a ruptura do sepulcro,
na comunidade marginal
o porvir de Jesus,
nos últimos que nos acolhem
o regaço materno de Deus!
Já começou a ressuscitar!
Pobre do que se encontrou
com um pobre assim,
com um Deus assim!
Feliz dele!
Benjamin González Buelta
Salmos para sentir e saborear internamente as coisas