Um olhar carregado de amor ou Amor no olhar

Foto: Cathopic

08 Outubro 2021

 

“Jesus, olhou para ele com amor e disse: ‘só uma coisa te falta...’” (Mc 10,21).

 

A reflexão bíblica é elaborada por Adroaldo Palaoro, padre jesuíta, comentando o Evangelho do 28º Domingo do Tempo Comum, ciclo B do Ano Litúrgico, que corresponde ao texto de Marcos 10,17-30.

 

Eis o texto.

 

A itinerância de Jesus é um contínuo convite a sair de nossos espaços atrofiados para encontrar a Deus nos outros, e entrar em sintonia com o coração d’Ele. Deus nos espera “fora do acampamento” (EE 33,7), ou seja, fora do nosso controle, de nossos lugares seguros e confortáveis, dos espaços que escondem sua presença e onde estão presentes o medo, a desconfiança... “Fora do acampamento” Deus nos des-vela quem somos, quem são os outros e quê missão quer nos confiar. “Fora do acampamento” estão os diferentes com seus questionamentos e interpelações, com suas alegrias e medos, seus desejos e sonhos...

 

Foi na estrada, “quando Jesus saiu a caminhar”, que um homem rico chega correndo e se ajoelha diante dele. Jesus se detém, acolhe a pergunta que lhe é feita e inicia uma conversação, abrindo, assim, um espaço de confiança para que o “apressado” partilhasse suas inquietações, a pergunta pelo sentido de sua vida. O homem correu ao encontro de Jesus de maneira inesperada; e Jesus não inventou desculpas para esquivar-se dizendo: “tenho que ir a outro lugar”, “todos me esperam”, “estou cansado”, “volte amanhã”... Com este simples gesto de se deter e não passar ao largo, Jesus mostra sua acessibilidade e comunica ao homem rico que se interessa por ele, que não é insensível à sua busca, que assume sua realidade.

 

Embora a pergunta do homem rico esteja muito centrada nele mesmo – “que devo fazer para ganhar a vida eterna? – Jesus percebe que há uma busca inicial, um desejo incipiente, e abre para ele um caminho que, a partir do reconhecimento de todo o bem que há nele, adentra-o em novas veredas. Assim deixa transparecer o seu olhar: “olhou-o com amor”.

 

O homem conhece bem a Torá e viveu segundo seus preceitos. Jesus não diminui o valor de sua experiência, mas vai mais fundo, convencido de que tudo o que acontece está grávido de sinais da presença d’Aquele que sempre busca o ser humano. Encontra os pontos de apoio nos quais o homem pode se apoiar para dar um salto de crescimento no amor. Viver os mandamentos não é o suficiente, mas é um bom ponto de partida, através do qual Jesus irá conduzindo-o para dentro, ajudando-o a conectar-se consigo mesmo, a escutar o chamado de vida que pulsa em seu coração e “dar à luz” o sonho de Deus nele.

 

O que faz a grande diferença no relato deste domingo é a maneira de olhar. E o olhar de Jesus é um elemento essencial nos relatos de encontros com as pessoas nas estradas da vida; através de seu olhar inspirador, Jesus as mobiliza, desperta nelas seus melhores recursos, vincula-as a um projeto de serviço, abre para elas um futuro esperançador e transforma radicalmente a existência delas.

 

O encontro com o homem rico é também um chamado, um convite ao discipulado, mas que não será acolhido. Neste encontro, Jesus “fixou nele seu olhar e movido pelo amor a ele”, o convidou a segui-lo. O olhar intenso de Jesus se expressa nos dois verbos principais, “amou” e “disse”. Não é um olhar qualquer, mas um olhar atravessado pelo amor e estreitamente vinculado a um projeto de futuro.

 

Jesus fixa seus olhos e, portanto, sua atenção neste homem concreto, o toma em consideração, pensa nele. Não é um olhar de passagem, mas um olhar sustentado, capaz de penetrar até o profundo, discernidor. Mostra para o homem uma solicitude singular que indica uma “preferência-eleição” por ele.

 

 

No encontro com o homem rico, o intenso olhar de Jesus tem tal qualidade que Ele captou toda a realidade do outro desde o primeiro momento. Ao fixar seu olhar no interior daquele homem, Jesus lhe propõe deixar seu modo habitual de viver, e o convida a adentrar-se em outra maneira original de viver, que irá aumentando ao ritmo do amor recebido e oferecido.

 

O olhar nasce e se nutre do amor. E Jesus olha sempre com olhos claros e limpos, com olhos de ternura e de acolhida. O homem rico encontrou graça aos olhos de Jesus, ou seja, reconheceu-se como filho amado do Pai. Não é necessário que este filho seja a máxima expressão de beleza, bondade ou inteligência, para descobrir a “marca do amor” impressa em seu ser, aquela que lhe revela imagem e semelhança de Deus, aquela que lhe confirma ser o filho chamado à plenitude.

 

O relato de Marcos realça a qualidade do olhar de Jesus: olhos que comunicam proximidade, que se inclinam e abaixam para amar; olhos que transmitem doçura e amor, capazes de aquecer, cuidar e alentar a vida; olhos que abrem um espaço de humanização e reconhecimento. Olhos que se nutriram infinitas vezes nas entranhas misericordiosas de Deus: “O Pai me ama” (Jo 10,17).

 

Contudo, no relato do Evangelho, assistimos ao bloqueio do desejo daquele que primeiramente se ajoelhou aos pés de Jesus chamando-lhe “Bom Mestre”. Ele parecia ter tanta sede sincera de encontro com Jesus e vinha cumprindo os mandamentos desde a sua juventude. Contudo, na hora decisiva, ele preferiu a segurança e a proteção dos seus bens e não a aventura aberta de um viver na confiança, com a disponibilidade que uma tal relação espera de todos nós.

 

Ao confrontar-se com a proposta ousada de Jesus, o homem rico vai embora entristecido e desolado. É incapaz de confiar em Deus da forma como Jesus lhe sugere. Aproximou-se de Jesus com alegria, mas as riquezas “afogaram as palavras”. Queria de verdade dar resposta ao desejo que levava dentro, “ganhar a vida eterna”, mas, para isso Jesus lhe convidou a dar um salto. O homem, no entanto, frente à ousadia da proposta que Jesus lhe faz, decide não se lançar. Sua decisão lhe impossibilita alcançar o que tanto deseja; preferiu as seguranças que já tinha. Está preso ao seu estilo de vida, aposta por ser prudente e não correr o risco do desconhecido. O medo de perder, a insegurança que experimenta, o levam a agarrar-se, com todas as suas forças, às suas riquezas. Salta em primeiro plano sua "insaciável cobiça”, fruto de sua angústia, seu medo e sua insegurança.

 

Pode soar chocante ouvir de Jesus que “um rico dificilmente entrará no Reino dos Céus”. Ele que foi sempre tão misericordioso, teria preconceito contra os ricos? Por que, então, fecha-lhes as portas do Reino?

 

Rico, no pensar de Jesus, é aquele que, incapaz de compartilhar, transforma os bens deste mundo em autênticos ídolos e fecha seu coração para Deus e para os irmãos; é aquele que ama suas propriedades sobre todas as coisas, e, para protegê-las e fazê-las multiplicar, não hesita em lançar mão de qualquer artifício, mesmo injusto, desonesto, ilegal. A penúria do irmão necessitado não chega a sensibilizá-lo. Só pensa em si mesmo, em suas necessidades e em seus prazeres. Por conseguinte, não existe espaço para a graça atuar em seu coração. Nesta situação, torna-se impossível Deus chegar a ser, de algum modo, senhor de sua vida. Nele, o Reino de Deus não pode acontecer. Seu coração está bloqueado.

 

 

 

Não é Deus quem fecha as portas do Céu para o rico. É este quem se recusa a entrar na dinâmica Reino e revestir-se do modo de ser e viver de Jesus. Os apelos de Deus tornam-se inúteis e ineficazes.

 

Embora Jesus desejasse que o rico abrisse mão de seu projeto de vida egoísta e acolhesse o Reino, ele persiste em sua idolatria. O amor de Deus não chega a tocá-lo. É por esta razão que “é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus!”

 

Para meditar na oração:

 

 

 

Dois caminhos se abrem diante de nós, os mesmos daquele homem rico: apegar-nos ao que temos e somos ou entregar a Ele a bússola e o mapa de nossa vida; continuar na insegurança ou confiar que as perdas podem ser ocasião de ganhos, mesmo que não cheguemos a entender nem por que nem como.
Quem sabe, preferimos investir nas ações do “eu” e seus poderios, que prometem falsos benefícios, mas, com o passar dos anos, essas ações se desvalorizaram e descobrimos que suas promessas eram falsas.

 

- “Estamos abertos às surpresas de Deus? Ou nos fechamos, com medo, à novidade do Espírito Santo? Estamos decididos a percorrer os caminhos novos que a novidade de Deus nos apresenta ou nos entrincheiramos em estruturas caducas, que perderam a capacidade de resposta”? (Papa Francisco)

 

 

 

Leia mais