Sabedoria: “os exploradores terão vida efêmera”

Leon Tolstoi

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

17 Mai 2018

"Que as decisões de vocês do poder judiciário sejam instrumentos para de fato se respeitar a dignidade humana, a função social da propriedade, os direitos sociais e contribuir para a superação das desigualdades sociais e a superação da miséria", escreve frei Gilvander Moreira, padre da Ordem dos carmelitas, professor de “Direitos Humanos e Movimentos Populares” em curso de pós-graduação do IDH, em Belo Horizonte (MG),  e assessor da Comissão Pastoral da Terra – CPT -, do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos – CEBI -, do Serviço de Animação Bíblica - SAB - e da Via Campesina em Minas Gerais.

Eis o artigo.

Na Bíblia, no livro de Sabedoria, que é teologia política, em Sab 1,16 - 2,20, em gênero literário poético, o sábio desnuda o estilo de vida dos injustos e exploradores que são, de fato, mortais, pois serão varridos da história - por nada acrescentarem de bom à história da humanidade. Com ironia fina, o autor demonstra a estupidez das ações e crenças dos injustos e opressores, que “serão como se nunca tivessem existido e terão vida efêmera” (Sab 2,2.5). Eles vivem no hedonismo e gozando a vida à custa do sangue de muitos (Cf. Sab 2,6), em festas luxuosas e orgias (Cf. Sab 2, 7.9). Vivem rindo à toa, como já denunciava Raul Seixas na música Ouro de tolo: “... você aí parado com a boca aberta cheia de dentes, esperando a morte chegar...”

Essa crítica do livro da Sabedoria cabe perfeitamente para quem vive integrado dentro do sistema do capital, reproduzindo a lógica e os falsos valores do capitalismo. Referimo-nos a quem vive e age pensando que o sentido da vida está em se tornar rico, acumular riqueza, ser egocêntrico, cuidar só de si e no máximo de sua família nuclear e encarar os outros como estranhos e potenciais inimigos a serem abatidos na desenfreada lógica de competição onde apenas uma minoria permanece como classe dominante, sempre superexplorando a classe trabalhadora e a classe camponesa.

Não acreditando em vida após a morte, os opressores alardeiam: “Vamos oprimir o pobre inocente e não vamos poupar as viúvas, nem respeitar os cabelos brancos do ancião. A nossa força será regra da justiça, porque o fraco é claramente coisa inútil” (Sab 2,10-11). Os injustos e exploradores “armam ciladas para o justo” (Sab 2,12a), porque esses os incomodam e se opõem às práticas opressoras daqueles (Cf. Sb 2,12a). Fiel guardião da sabedoria dos “nossos pais e mães”, “o justo reprova as transgressões que cometemos contra a Lei, e nos acusa de faltas contra a educação que recebemos” (Sab 2,12b). Faltas contra a Lei são repudiadas pela pessoa justa, mas que Lei? Não as centenas de leis do judaísmo enrijecido e ritualista e nem as 5 mil leis do Estado Brasileiro. O que vale é a fina flor da Lei, que é o Decálogo da Bíblia - Dez Palavras - que se tornou a Constituição dos povos de Deus na Bíblia e tem como núcleo a 5ª palavra que prescreve: “Não matarás!” ou, dito de forma positiva: Faça viver! Nessa esteira, o livro da Sabedoria busca animar o povo para resgatar a Lei fundamental: os princípios que geram vida e liberdade para todos e para tudo. No Brasil de hoje, o sábio do livro da Sabedoria diria: Juízes, julguem os processos conforme os princípios da constituição de 1988. Que as decisões de vocês do poder judiciário sejam instrumentos para de fato se respeitar a dignidade humana, a função social da propriedade, os direitos sociais e contribuir para a superação das desigualdades sociais e a superação da miséria.

Se estivesse vivo em nosso meio, em uma sociedade capitalista de superexploração como a nossa, certamente o sábio do livro da Sabedoria excomungaria e execraria todas as leis e lógicas capitalistas. Essas, ao aprisionar a terra em propriedade privada capitalista e ao expropriar o ser humano de toda e qualquer propriedade, exceto sua força de trabalho, o sacrifica no altar do ídolo capital, acumulando mais-valia em progressão geométrica e gerando exploração também em progressão geométrica. Por outro lado, o mesmo autor, em nosso meio hoje, confirmaria todas as lutas por direitos sociais e contra todas as discriminações e opressões.

“O justo declara ter o conhecimento de Deus” (Sab 2,13), afirma o sábio do livro da Sabedoria. Essa profecia em forma de sabedoria é importantíssima, pois mostra que na comunidade/sociedade há oprimidos que não têm cabeça de opressor, que não acreditam na ideologia dominante veiculada pelos opressores. O que a classe opressora entende como conhecimento não passa de ideologia dominante que justifica seus privilégios e o “espírito” do capitalismo para reproduzir cotidianamente as relações sociais de exploração. Ao compreender que tem o conhecimento de Deus, conhecimento emancipador, o justo está se reconhecendo como oprimido e negando a ideologia dominante, o que é, segundo Paulo Freire, o primeiro passo para que os oprimidos empreendam, em comunhão e na luta coletiva, processos emancipatórios.

Em contexto sócio-histórico de idolatria, de exploração da dignidade humana, de discriminação e criminalização das culturas diferentes, o autor da Sabedoria desmantela a crença dos injustos de que após a morte será o fim de todos e afirma que os justos são felizes porque têm Deus por pai e viverão para sempre. Assim, “proclama feliz o destino dos justos que se alegram de ter Deus como pai” (Sab 2,15b).

“A maldade dos injustos os deixa cegos” (Sab 2,21), constata o sábio da Sabedoria. Isso mesmo. A grande maioria dos exploradores pode não ter consciência de que são opressores e injustos, pois estão enleados nas teias da ideologia dominante - ideias da classe dominante - trombeteando aos quatro ventos que a riqueza e os privilégios deles são frutos de trabalho honesto. Mentira, pois na realidade, em uma sociedade capitalista só existem duas formas de se tornar muito rico: por herança ou roubando de forma disfarçada e sutil, pisoteando a ética e a dignidade humana, além de devastar todo o meio ambiente. A pessoa capitalista também se torna opressora, como Ulisses amarrado no mastro do navio, conforme o canto XII da Odisseia de Homero: saboreia a sedução do canto das sereias, mas, amarrado no mastro, não pode paralisar a engrenagem que o sustenta. Quanto mais o capitalista acumula riquezas, tanto mais é impelido a acumular, gerando necessariamente miséria crescente para a classe trabalhadora e para o campesinato.

Enfim, o livro da Sabedoria anima a perseverança das pessoas justas sustentando que “os exploradores terão vida efêmera”.

Belo Horizonte, MG, 16-05-2018.

Obs.: Os vídeos, abaixo, ilustram o texto, acima.

1) Ocupação Vitória, em Belo Horizonte, MG: Mírian, criança e visão crítica. Que beleza! 17/08/2014.

2) Adolescente da Ocupação Vitória, em Belo Horizonte, MG, dá aula para professores da PUC/MINAS. 15/08/2014.

3) Ocupação Rosa Leão, em Belo Horizonte, MG: Josias, analfabeto/cientista inventor de disjuntor anti-incêndio. 08/02/2014.

Leia mais