A encíclica de Kirill sobre os 100 anos do Patriarcado. Unir os cristãos na Rússia e no mundo

Patriarca Kirill e Papa Francisco | Foto: Jesuítas Brasil

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05 Setembro 2017

Dois séculos depois de sua supressão por Pedro, o Grande, o Patriarcado voltou à vida em 1917. A recuperação da reforma da Igreja. As redes sociais para a leitura da Bíblia. Superar as divisões, mesmo com os católicos. O ex-embaixador na Santa Sé: garantir espaço vital para os cristãos.

A reportagem é de Vladimir Rozanskij, publicada por AsiaNews, 31-08-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

Nos últimos dias, foi divulgada na Rússia uma carta encíclica do Patriarca de Moscou Kirill (Gundjaev), por ocasião do centenário do Concílio de Moscou de 1917-1918. O Concílio restaurou o Patriarcado russo dois séculos depois de sua abolição por obra de Pedro, o Grande. Deve-se notar que a restauração aconteceu durante os atribulados dias da revolução.

O primaz da ortodoxia russa ressalta que os eventos daquele Concílio "não foram totalmente compreendidas, apesar de já ter-se passado um século. Muitas das ideias que foram expressas na época seriam úteis e necessárias ainda hoje". Os estudos sobre o Concílio foram retomados nos últimos anos, e está sendo elaborada uma importante edição científica dos documentos aprovados naquela ocasião. Também serão repropostos muitos materiais sobre a longa preparação pré-conciliar, formulados naquela década muito agitada e produtiva da cultura e da ortodoxia russa que é lembrada com o título de "século de prata".

Em sua carta, o patriarca explica que a atual estrutura do Patriarcado foi reformada recorrendo justamente à memória da fase conciliar da época, quando se formou um organismo chamado Presença Pré-conciliar, uma especial "congregação do Sínodo". A atual Cúria Patriarcal de Moscou foi renomeada alguns anos atrás como Presença Inter-conciliar, para reviver o espírito de comunhão na vida eclesiástica.

De acordo com Kirill, hoje podem ser retomadas as questões que ficaram em suspenso na época, por causa da revolução e da sucessiva guerra civil que levou à instauração do regime soviético. Trata-se, por exemplo, da gestão horizontal ou "conciliar" (em russo sobornoe) da paróquia por parte do clero e dos leigos, da reforma litúrgica e do idioma das celebrações, da unificação dos estatutos monásticas, da relação entre o clero "branco" (uxorado) e clero monástico, e muitas outras questões ligadas à pastoral, à catequese, ao ensino de teologia e da cultura bíblica.

Difundir a Bíblia nas redes sociais

Por causa da difusão da Bíblia, por exemplo, foi lançada uma grande iniciativa do Departamento Missionário da Diocese da província de Moscou, chamada A Bíblia em um ano. O objetivo é fornecer uma ajuda para a leitura e o estudo da Bíblia, usando as ferramentas de comunicação disponíveis hoje. De 1º de setembro de 2017 a 31 de agosto de 2018 será possível inscrever-se em um dos "grupos temáticos" abertos no Facebook, Telegram ou na rede social russa VKontakte, onde são divulgadas diariamente as informações necessárias para ler e discutir trechos escolhidos da Bíblia em seminários on-line.

Além de reavivar a memória do Concílio, o Patriarca Kirill está realizando outros gestos simbólicos para educar os fiéis à redescoberta do espírito "conciliar" da Ortodoxia russa. Visitando a região de Smolensk, em 30 de agosto, ele consagrou uma nova igreja em honra ao mártir palestino São Jorge "o vitorioso". No dia seguinte, o patriarca abençoou com grande participação e destaque um monumento a um príncipe da antiga Rus’de Kiev, Vladimir Monomakh, que justamente em Smolensk, em 1147, dirigiu-se aos outros príncipes russos com uma famosa 'Advertência', em que convidava as pessoas a superar as divisões internas para evitar a destruição pelos povos invasores que estavam acossando as fronteiras do jovem estado eslavo-oriental. Suas palavras foram ignoradas, até a antiga Rus' ser apagada pelas hordas de Gengis Khan.

Além disso, nos últimos dias de agosto, foi realizado em Moscou o III Fórum Cristão Internacional sobre o tema da defesa dos cristãos perseguidos no Oriente Médio. O Fórum contou com mais de 200 delegados de Rússia, Oriente Médio e Europa, incluindo delegados católicos e protestantes. O grupo avaliou o desenvolvimento de programas de apoio humanitário para cristãos expostos a violência e "genocídio" nas zonas de guerra do terrorismo islâmico, e também as perspectivas teóricas de uma política antiglobalista em torno da qual unir todo o mundo cristão, graças justamente à iniciativa dos ortodoxos russos.

Após o encontro com o card. Parolin

Como foi visto na visita a Moscou do Cardeal Parolin, também a intensificação dos contatos com o Vaticano, destina-se a promover a união universal cristã contra as ameaças do mundo moderno. Foi recordado em uma entrevista para a revista russa Argumenty i Fakty pelo ex-embaixador russo junto da Santa Sé, Vyacheslav Kostikov, que "a tendência contemporânea do fenômeno religioso leva ao prevalecimento do Islã sobre o cristianismo". Kostikov mencionou as políticas agressivas da Turquia nos apelos aos turcos residentes na Alemanha e na Europa, que correm o risco de desestabilizar o continente defendendo uma progressiva islamização da sociedade europeia. Por isso, conclui o diplomata, "sob as atuais condições, o foco das relações entre católicos e ortodoxos, e em especial entre Moscou e o Vaticano, mais que sobre as diferenças de opinião deve abordar o problema da defesa do espaço comum do cristianismo".

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