16 Setembro 2026
Luiz Felipe Lacerda, secretário-executivo do Observatório Nacional de Justiça Socioambiental Luciano Mendes de Almeida (OLMA) e coordenador da Cátedra Laudato Si’ da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP), foi o conferencista do quarto encontro da série de debates online Emergências socioambientais na geopolítica dos conflitos, promovido pelo CEPAT e pelo OLMA. Na atividade, refletiu sobre as relações entre mercantilização da natureza, crise climática, democracia e corrupção socioambiental, dialogando também com resultados da pesquisa Impactos Socioambientais da Corrupção na América Latina, desenvolvida por uma rede de universidades e centros sociais vinculados à Companhia de Jesus.
Ao longo da conferência, Lacerda argumentou que a atual emergência socioambiental está ligada a um processo histórico de dessacralização da natureza e destacou que a corrupção socioambiental não se restringe ao desvio de recursos, mas envolve a captura do Estado, a flexibilização de legislações, a violação de direitos humanos e os conflitos que afetam os territórios e suas populações.
Na entrevista a seguir, ele aprofunda sua análise sobre as origens da crise socioambiental, os limites da transição energética, a justiça socioambiental, os direitos da natureza e os desafios para enfrentar a corrupção socioambiental na América Latina.
Eis a entrevista.
Como você compreende a origem da atual crise socioambiental?
Vivemos um processo de emergência socioambiental que, para nós, vai muito além de temas vinculados à economia ou ao desenvolvimento. Ele remete, antes de tudo, a uma dimensão estrutural da experiência humana, que é a espiritualidade. As consequências das emergências socioambientais que vivemos hoje têm como origem um processo de dessacralização da natureza.
A nossa sociedade eurocêntrica, construída por um positivismo científico e por uma lógica racional de produção e consumo, nos levou a construir uma relação de objetificação com a natureza. Tiramos dela o elemento sagrado e passamos a tratá-la como objeto e como recurso natural. A partir desse momento, desenvolvemos estratégias de organização da sociedade que transformam a natureza em objeto e em recurso para a produção e o consumo.
É por isso que hoje muitos espaços, inclusive acadêmicos, voltam a olhar para os saberes indígenas, quilombolas e das populações tradicionais. Existe uma busca por compreender como esses povos conseguiram preservar formas mais harmônicas de relação com a natureza e quais ensinamentos podem oferecer diante da crise atual.
Série de debates 'Emergências socioambientais na geopolítica dos conflitos', com o tema 'Mercantilização da Natureza e corrupção socioambiental'
O que a atual conjuntura climática revela sobre os limites desse modelo?
O cenário não é positivo. Vivemos um contexto no qual os compromissos globais assumidos para enfrentar o aquecimento global demonstram limites cada vez mais evidentes. Ao mesmo tempo, percebemos uma reorganização das matrizes de geração de energia. Estados Unidos, China e outras grandes potências avançam sobre territórios da América Latina e da África em busca de minerais críticos e terras raras considerados estratégicos para a transição energética.
Por isso precisamos perguntar se a transição energética que está sendo construída é realmente uma transição limpa e justa. O que vemos, muitas vezes, é a continuidade da exploração dos territórios e dos bens naturais sob novas justificativas. A lógica permanece a mesma, apenas mudam os recursos considerados estratégicos.
Qual é a relação entre essa dinâmica e a geopolítica contemporânea?
Nós vivemos aquilo que podemos chamar de geopolítica do antropoceno. A gente começa lá nos anos 1980 e 1990 com o Consenso de Washington. Depois avançamos para o sistema neoliberal e para o consenso das commodities. Mais recentemente, chegamos ao debate da descarbonização, da economia verde e da transição energética.
O problema é que essas mudanças não questionam a lógica do crescimento permanente, do consumo contínuo e da exploração da Terra. Hoje entendemos, a partir das denúncias dos movimentos sociais e das comunidades locais, que muitas dessas propostas se apresentam como falsas soluções climáticas. Elas permitem que o sistema continue funcionando da forma como está. Em muitos casos, trata-se apenas de um novo invólucro para manter a mesma estrutura de exploração.
Os impactos das mudanças climáticas são distribuídos de forma igualitária?
Não. Esse é um aspecto fundamental para compreender a justiça socioambiental. A crise climática não é igual para todos. Os impactos das mudanças climáticas não são distribuídos proporcionalmente entre os países nem entre os diferentes grupos sociais.
Os países do Norte Global possuem muito mais recursos econômicos, financeiros, tecnológicos e institucionais para responder aos desastres. Já o Sul Global concentra vulnerabilidades históricas e encontra muito mais dificuldades para lidar com esses impactos.
Da mesma forma, dentro dos países, determinadas populações vivem condições históricas de vulnerabilização. Povos indígenas, quilombolas, populações tradicionais, mulheres e pessoas negras enfrentam processos históricos de exclusão que ampliam seus riscos diante dos desastres climáticos. Essas populações não são mais vulneráveis porque não conseguem se adaptar ou porque possuiriam alguma característica própria. Elas são mais fragilizadas porque existe um processo histórico de vulnerabilização e exclusão dessas populações.
Como surgiu a sua reflexão sobre a relação entre corrupção e questão socioambiental?
Existe muita coisa produzida sobre corrupção e muita coisa produzida sobre meio ambiente. Contudo, muito pouca coisa produzida a respeito da correlação entre os dois elementos.
Foi dessa constatação que nasceu a pesquisa sobre impactos socioambientais da corrupção na América Latina, desenvolvida por uma rede de universidades e centros sociais da Companhia de Jesus. Nosso objetivo foi compreender de que maneira os processos de corrupção afetam os territórios, os ecossistemas e as populações vulnerabilizadas.
Ao investigar essa relação, percebemos que a corrupção não pode ser entendida apenas como desvio de dinheiro. Ela está profundamente ligada às formas pelas quais interesses econômicos influenciam políticas públicas, flexibilizam legislações e capturam instituições.
O que caracteriza a corrupção socioambiental?
A corrupção socioambiental supera a concepção de que estamos falando apenas de algo social e ambiental ou apenas de algo econômico e financeiro. Ela envolve território, modo de vida, produção, Estado, democracia e políticas públicas. Entre os processos que a caracterizam estão a captura do Estado, a manipulação de licenças ambientais, a flexibilização das legislações, a apropriação do público pelo privado, a exclusão das comunidades dos processos decisórios e a violação de direitos humanos.
Qual é o papel do Estado nesse contexto?
A pergunta central é: que tipo de Estado queremos construir? Um Estado forte não é um Estado autoritário. A força do Estado está na sua capacidade de atuar a partir de uma racionalidade pública e não de uma racionalidade privada. A lógica corporativa visa o lucro. A lógica pública visa o bem da maioria. Uma empresa não tem o compromisso de garantir direitos universais. O Estado tem. O perigo é quando a racionalidade econômica corporativa entra para dentro do Estado e ele começa a funcionar apenas a partir da lógica do lucro.
Um Estado forte é aquele que distribui bem os recursos, cuida dos mais vulneráveis e atua a partir de uma racionalidade pública e não de uma racionalidade privada. Já o Estado autoritário é um Estado fraco, porque depende da imposição e da exclusão da sociedade dos processos democráticos.
Como os conflitos socioambientais estão relacionados à corrupção socioambiental?
A exploração promove a corrupção. Essa exploração corrupta chega aos territórios. Isso gera conflitos. As pessoas, ao defenderem seus territórios, passam a ser ameaçadas, a sofrer perseguições e a vivenciar diferentes formas de violência.
A América Latina continua sendo uma das regiões mais perigosas do mundo para defensores socioambientais. Essas violências não atingem qualquer pessoa de forma aleatória. Elas possuem rosto, gênero e cor. Os grupos mais afetados são povos indígenas, comunidades quilombolas, mulheres e populações negras que lutam pela defesa dos seus territórios e modos de vida.
Em contraposição a essas dinâmicas de exploração e corrupção, surge o conceito de justiça socioambiental. Como podemos compreendê-lo?
Para nós, a justiça está embasada em três pilares: estabelecer relações justas com os outros, estabelecer relações justas consigo mesmo e estabelecer relações justas com a natureza. Esse é o universo que construímos no conceito de justiça socioambiental. Ela parte da superação da separação entre o social e o ambiental. Não existem duas crises distintas, uma social e outra ambiental. Estamos falando de um mesmo fenômeno com diferentes facetas.
Ao mesmo tempo, o conceito de justiça socioambiental nos ajuda a perceber que as grandes injustiças da América Latina têm raízes históricas. Entre elas, destaco o machismo e o patriarcado, o racismo e a xenofobia, e a concentração de terra e renda. Qualquer projeto de transformação precisa enfrentar essas estruturas. Se não tensionamos essas estruturas, acabamos produzindo respostas paliativas.
Qual é a contribuição dos direitos da natureza para esse debate?
Os direitos da natureza representam um avanço em relação ao direito ambiental tradicional. Durante muito tempo, o direito ambiental tratou a natureza como objeto de proteção e recurso disponível ao ser humano. A natureza não é objeto. A natureza é viva, é senciente e é sujeito de direitos.
Os direitos da natureza propõem uma mudança de paradigma. Eles reconhecem a natureza como sujeito de direitos e não apenas como objeto. Essa perspectiva surge de maneira muito forte na América Latina, especialmente a partir das experiências constitucionais do Equador e da Bolívia, impulsionadas pela participação dos povos indígenas.
Trata-se de uma contribuição importante do Sul Global para o debate ambiental contemporâneo, porque rompe com a visão estritamente antropocêntrica que orientou grande parte das políticas ambientais modernas.
Quais caminhos você considera fundamentais para enfrentar a corrupção socioambiental?
O enfrentamento da corrupção socioambiental passa pela superação das estruturas históricas de injustiça que organizam nossas sociedades. Não existe solução isolada para esse problema. Precisamos fortalecer a cultura do cuidado, a justiça socioambiental, a economia para a vida e a defesa dos territórios.
Também é fundamental avançar no reconhecimento dos direitos da natureza e fortalecer os instrumentos de justiça socioambiental para enfrentar os conflitos, os desastres ambientais e os impactos das mudanças climáticas, como o Acordo de Escazú, por exemplo.
Acredito que o enfrentamento da crise socioambiental exige mais do que soluções técnicas ou econômicas. Trata-se de reconstruir nossa relação com a natureza, fortalecer a democracia e colocar a dignidade da vida no centro das decisões políticas e econômicas.
A corrupção socioambiental nos mostra que não há separação entre a defesa dos territórios, dos direitos humanos e dos ecossistemas. Diante desse desafio, precisamos cultivar uma cultura do cuidado, da participação e da justiça socioambiental, reconhecendo que tudo está interligado e que o futuro comum depende da nossa capacidade de proteger a vida em todas as suas formas.
Disponibilizamos abaixo a íntegra da exposição e do debate.
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