“A mineração verde é uma narrativa; o extrativismo permanece o mesmo”. Entrevista com Lucio Cuenca

Foto: Daniel Beltrá/Greenpeace

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04 Julho 2026

Panamá com Cobre Panamá. Chile e Argentina com Pascua Lama. Guatemala com Escobal. Peru com Conga e Tía María. Em diversos países da América Latina, a mineração e seu impacto sobre a água e a terra têm desencadeado protestos massivos, crises políticas e conflitos sociais prolongados. Agora, a República Dominicana se junta a essa onda regional.

A entrevista é de Nathalia Romero, publicada por Ctxt, 02-06-2026.

Após anos de reclamações sobre a poluição e os problemas de saúde que afetavam os moradores de Cotuí devido às operações da Barrick Gold, a lembrança desse precedente alimentou uma nova onda de resistência social. Sob o lema "Água sim, ouro não", milhares de dominicanos conquistaram o que muitos consideravam improvável: o presidente Luis Abinader suspendeu o projeto de mineração Romero, promovido pela empresa canadense GoldQuest, em San Juan de la Maguana, conhecida como o "celeiro do sul", uma das províncias agrícolas mais importantes, onde a água sustenta grande parte da vida produtiva.

A decisão abriu um debate no país caribenho que afeta cada vez mais os territórios da América Latina: o conflito entre extrativismo, recursos naturais e legitimidade social.

Lucio Cuenca dedicou décadas ao estudo de conflitos socioambientais relacionados à mineração no Chile e em outros países da região. Engenheiro agrimensor e diretor do Observatório Latino-Americano de Conflitos Ambientais (OLCA), ele argumenta que o caso dominicano reflete a crescente erosão do discurso tradicional sobre mineração e o surgimento de novas formas de resistência territorial na América Latina.

Eis a entrevista.

Em sua opinião, qual o grau de representatividade do caso Romero na América Latina?

Na América Latina, existem países com uma história mais longa em operações de mineração, que acumularam experiência e impactos que agora estão no pano de fundo das preocupações expressas por outras comunidades.

Desde a década de 1990, houve uma expansão significativa da mineração na região, especialmente em áreas que historicamente não haviam experimentado muita atividade mineradora. Portanto, já existe conhecimento sobre os impactos ambientais, territoriais e sociais dessa atividade. As comunidades não entram em conflito sem motivo. Há razões para sua desconfiança, experiências acumuladas e motivos muito concretos para isso.

A GoldQuest argumentou que a mina Romero seria uma operação subterrânea moderna com baixo impacto ambiental. O que você acha desse argumento?

Existem aspectos essenciais da mineração que não podem ser alterados. Seja mineração a céu aberto ou subterrânea, ela ainda requer enormes quantidades de água e energia. E todo o material extraído da montanha precisa ser depositado em algum lugar.

A mineração subterrânea é frequentemente apresentada como uma forma de eliminar riscos, mas isso não é verdade. Uma coisa é ter a rocha confinada dentro da montanha, e outra bem diferente é triturá-la e deixá-la exposta ao ar livre. Isso leva a processos de contaminação, erosão e lixiviação que podem afetar a água e o solo.

Você acha que existe uma estratégia de "reposicionamento de marca" para a indústria de mineração?

Absolutamente. Após a enorme perda de legitimidade sofrida pela mineração na América Latina, especialmente depois dos conflitos da década de 2000, chegou-se a esta fase em que a mineração "se vestiu de verde".

Hoje em dia, ouvimos falar em mineração responsável, mineração sustentável, mas, na essência, as operações continuam as mesmas. O que mudou foi a narrativa. A chamada transição energética continua a servir as necessidades dos países industrializados do Norte Global, enquanto a América Latina continua a ser tratada como fornecedora de matérias-primas.

Qual o papel da água nesses conflitos?

Hoje, a água tornou-se uma das principais restrições às indústrias extrativas. É muito difícil imaginar a coexistência a longo prazo entre a mineração, que consome e polui enormes quantidades de água, e a agricultura, que também necessita de água de boa qualidade. Se a água estiver contaminada, os alimentos também estarão. Por isso, acredito que, mais cedo ou mais tarde, a mineração e a agricultura acabarão se tornando incompatíveis em muitas regiões.

Você menciona frequentemente o caso chileno como um alerta regional. Por quê?

Porque o Chile mostra aonde esses modelos extrativistas podem levar.

Em Antofagasta, onde se concentra grande parte da atividade mineradora chilena, a população atualmente consome água dessalinizada, enquanto as empresas continuam a utilizar água doce proveniente da Cordilheira dos Andes.

Isso significa que as comunidades acabam dependendo de infraestrutura artificial para ter acesso à água, enquanto a utilização desse recurso natural para mineração é priorizada. E o custo econômico é, em última instância, arcado pela população.

Em San Juan de la Maguana, a empresa chegou a falar em usar água da chuva como fonte de abastecimento. Será que esse tipo de argumento faz sentido?

Isso fragmenta artificialmente o ciclo da água. A água da chuva é apresentada como se fosse separada do restante do sistema hídrico, quando na realidade faz parte do mesmo ciclo: chuva, rios, aquíferos e águas subterrâneas estão todos interligados. A captação de água da chuva também afeta o sistema hídrico do qual as comunidades dependem. Dizer às pessoas que isso não tem impacto é quase um insulto à inteligência coletiva.

Por que você acha que o discurso do “progresso da mineração” perdeu legitimidade em muitas comunidades latino-americanas?

Porque muitas pessoas começaram a perceber que as promessas nem sempre se traduzem em bem-estar real. Existe toda uma mitologia em torno da mineração como motor automático do desenvolvimento. Mas, ao analisar as regiões mineradoras, encontramos altos níveis de poluição, problemas de saúde e benefícios sociais muito mais limitados do que o prometido. No Chile, por exemplo, a mineração representa cerca de 50% das exportações, mas gera apenas 1% do emprego direto. E grande parte do trabalho indireto é precário.

Ele também questionou a distribuição da riqueza mineral.

É verdade. Muitas vezes, os vastos lucros da mineração acabam fora de nossos países. As empresas operam em paraísos fiscais, utilizam mecanismos financeiros complexos e reduzem artificialmente os lucros que declaram localmente. Isso enfraquece gravemente a capacidade de fiscalização dos Estados latino-americanos.

Você considera esses conflitos mais políticos do que técnicos?

Sem dúvida. Essas Discussões apresentadas como técnicas ou ambientais expressam, na verdade, disputas mais profundas sobre soberania, território e desenvolvimento. O poder corporativo que essas empresas exercem em nossos países é enorme e mina seriamente a tomada de decisões democráticas.

A suspensão do projeto Romero também abriu um debate sobre segurança jurídica e potencial arbitragem internacional. Como você interpreta isso?

Muitos países da América Latina assinaram acordos de livre comércio ou tratados de proteção de investimentos que acabam limitando sua soberania. Quando um governo tenta interromper um projeto extrativista, pode enfrentar processos judiciais internacionais em tribunais de arbitragem. Por isso, acredito que seja um bom sinal quando um líder toma medidas mesmo sabendo que pode enfrentar repercussões legais.

Você acredita que a suspensão de Romero realmente significa o fim do conflito?

Não necessariamente. O depósito ainda está lá. Já vimos isso muitas vezes na América Latina. Governos mudam, empresas mudam, ou novos projetos surgem com nomes diferentes. O caso Pascua Lama, da Barrick Gold, é um bom exemplo. Foi um conflito que durou quase vinte anos. O projeto acabou sendo encerrado, mas a empresa continua tentando retornar à área.

O que o caso dominicano revela sobre a situação atual na América Latina?

Fiquei impressionado com o nível de apoio público que esse conflito angariou. Muitas vezes, as empresas conseguem manter esses debates restritos ao âmbito local, mas na República Dominicana, a questão se tornou um debate nacional. Isso demonstra uma consciência social muito mais ampla em relação à água, à terra e ao futuro das comunidades.

Após décadas observando conflitos de mineração na região, qual a sua opinião sobre o caso Romero?

Acho que muitas pessoas já perceberam que arriscar água e terra em troca de promessas de desenvolvimento nem sempre vale a pena. Elas também entenderam que por trás de muitas empresas de mineração existe uma estrutura política e financeira internacional muito poderosa. No caso canadense, por exemplo, o apoio estatal às empresas de mineração é enorme. É por isso que esses conflitos não são mais apenas locais. São discussões globais sobre soberania, recursos naturais e democracia.

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