O Sínodo dos Bispos, em outubro, poderá ser um “programa imperdível”

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09 Setembro 2014

"O papa pediu aos jovens que tivessem tanto “asas quanto raízes”, aventurando-se em tentar novas coisas, mas jamais esquecendo de quem são e de onde vêm. Foi outra iniciativa inédita do papa: a viagem inaugural de um pontífice usando o bate-papo do Google Hangout", escreve John L. Allen Jr., jornalista e editor associado do jornal The Boston Globe, em artigo publicado pelo sítio Crux, 07-09-2014. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo.

Resumo

O próximo Sínodo dos Bispos sobre a família poderá ser o primeiro sínodo realmente importante nos últimos anos

Francisco investiu de grande importância este Sínodo e parece querer que o evento desempenhe um papel de decisão

• Por exemplo, os bispos poderiam aliviar a proibição aos sacramentos para os católicos que se divorciaram e casaram novamente sem obter uma anulação

• Outros assuntos que os bispos irão discutir incluem contracepção, casamento homoafetivo, coabitação e a prática da Igreja de conceder anulações.


Para aqueles de nós, que cobriram algum Sínodo dos Bispos no Vaticano durante os anos de João Paulo II e Bento XVI, sempre houve uma dinâmica um pouco surreal envolvendo os dias de encontro.

Um elenco de estrelas formado por bispos de todo o mundo se reuniam em Roma por um mês para debater algum assunto importante, normalmente empregando tempo e esforços consideráveis em seus discursos, muitos dos quais foram memoráveis. (O discurso intitulado “I have a dream” do falecido cardeal Carlo Maria Martini, no Sínodo, por exemplo, ainda se faz presente.) Grupos de trabalho revisavam as proposições finais, que por muito tempo foram consideradas segredos de Estado.

Os jornalistas se colocavam a descrever falhas do Sínodo, documentavam o desejo de compromisso e especulavam sobre o resultado final, às vezes dando a impressão de que estivessem cobrindo o Congresso de Viena.

Noutras palavras, todos agiam como se o Sínodo importasse. A verdade não dita, no entanto, era que todas as cartas estavam nas mãos do papa, e na maioria dos casos as grandes decisões já haviam sido tomadas.

Quando João Paulo II participava das sessões do Sínodo, sentava-se na fileira da frente e lia seu breviário, livro de rezas diárias dos padres. Alguns diziam que, na verdade, não se tratava de um breviário, mas as conclusões finais do Sínodo, que já tinham sido escritas.

Para falar a verdade, o Sínodo dos Bispos sempre foi uma janela fascinante para as realidades dos católicos ao redor do mundo, na medida em que os bispos da África, da Ásia ou do Oriente Médio tinham a oportunidade de explicar o quão diferente são os seus desafios e suas prioridades.

Nesse sentido, como o Pe. Tom Rosica disse certa vez, o sínodo é como fazer uma “ressonância magnética” da Igreja no mundo. A partir de minha própria experiência, noto uma diferença entre os bispos que já estiveram num sínodo e os que ainda não estiveram, pois os primeiros tendem a pensar de forma mais global.

Na verdade, também, tanto João Paulo II quanto Bento XVI levaram os sínodos a sério, querendo genuinamente ouvir o que os bispos tinham a dizer.

Mesmo assim, a impressão era sempre a mesma, pois todos sabiam que sínodo algum iria alguma vez mudar a doutrina ou a prática católicas, a menos que o papa quisesse isso – e neste caso ele não precisava realmente de um sínodo para assim fazer.

Tudo isso nos reporta para o Sínodo dos Bispos sobre a família – de 5 a 19 de outubro –, a primeira edição do sínodo na era Francisco. O evento se apresenta como o maior do Vaticano nos próximos meses, em parte porque, pela primeira vez na história recente, algo pode realmente acontecer.

A novidade é tanto substantiva quanto procedimental

No primeiro caso, pode-se dizer que, talvez, a questão mais candente que os bispos enfrentam é se os católicos que se divorciam e casam novamente sem a obtenção de uma anulação – declaração de um tribunal eclesiástico de que a união matrimonial anterior fora inválida – deveriam ter condições de participar na Comunhão e receber os outros sacramentos da Igreja.

Atualmente estes católicos e católicas estão impedidos de participar nos sacramentos, mas alguns bispos, incluindo um punhado de cardeais próximos ao papa, têm defendido uma mudança a esse respeito.

O Papa Francisco assinalou estar aberto para uma flexibilização da proibição, mas quer primeiro ouvir o que os bispos do mundo têm a falar. Consequentemente, há uma incerteza genuína sobre o que pode acontecer. (Isso é verdade, muito embora não haverá nenhuma decisão imediata tomada em outubro, visto que este sínodo servirá de preparação para um encontro ainda maior sobre o mesmo assunto no ano que vem.)

A questão envolvendo os católicos divorciados e recasados não será a única a ser debatida, pois há outras envolvendo os usos de métodos contraceptivos e a coabitação, além da prática da Igreja em conceder anulações. Por fim, está a questão de como dar apoio a casais em dificuldade e como expressar uma visão positiva da vida em casal.

Em termos de procedimentos, Francisco reformulou o processo normalmente feito buscando incentivar o compromisso e investir o sínodo de uma importância maior. O papa tem participado pessoalmente nas reuniões de um conselho de bispos de todo o mundo que trata das questões do sínodo, o que constitui um passo inédito.

Francisco parece querer que estes encontros se pareçam mais com os sínodos dos primeiros séculos do catolicismo, ou com os atuais sínodos presentes no cristianismo ortodoxo, onde há um papel de decisão. Francisco também quer que o sínodo tenha um perfil independente: não subserviente à burocracia vaticana, mas se reportando a ele e aos bispos do mundo.

Isso posto, pela primeira vez em muitos anos é possível cobrir um Sínodo dos Bispos sem se sentir obrigado a minimizar a sua importância. Desta vez, não tem desculpa: este evento realmente será um “programa imperdível”.

Começando amanhã, o Crux (novo site do The Boston Globe devotado à cobertura católica) dará início a uma “contagem regressiva para o Sínodo”, trazendo os assuntos e as personalidades que irão estar presentes nestes dias de encontro.

Vietnã e a crítica vaticana da direita

Em geral, o Vaticano é considerado uma instituição “conservadora”, portanto a pressuposição é que, também em geral, os seus críticos estejam do lado esquerdo. Causa surpresa a algumas pessoas descobrir que há muitas situações em que a maioria das queixas ferozes vem, de fato, da direita – e, ao longo dos anos, a política externa vem estando no topo dessa lista de reclamações.

A grande maioria dos diplomatas do Vaticano são europeus, em sua maior parte italianos, e tendem a ter os mesmos preconceitos que os demais diplomatas europeus possuem – suspeitam que os EUA sejam belicosos demais, em vez de negociar acordos, sendo hostis a qualquer coisa que cheire a unilateralismo. Portanto, são profundamente comprometidos com a ONU, considerando a prudência, a discrição e a paciência como o núcleo da prática diplomática.

Dito assim, é fácil enxergar por que a política externa vaticana acaba atraindo críticos.

Esta observação se faz relevante novamente esta semana à luz de um anúncio, feito na sexta-feira, de que a quinta reunião de um grupo de trabalho para as relações bilaterais entre o Vaticano e o governo do Vietnã acontecerá em Hanoi nos dias 10 e 11 de setembro.

O Vietnã, oficialmente um Estado marxista ateu, é um dos poucos países que não mantêm relações diplomáticas com o Vaticano. O grupo de trabalho que irá se reunir em setembro foi criado em 2009 para dar conta das questões formais, e fontes do Vaticano dizem, em off, que o grupo está perto de chegar a um acordo.

O Vaticano leva extremamente a sério as suas relações diplomáticas, vendo-as como uma oportunidade para agir em questões de interesse mundial. No entanto, os críticos – em sua maioria da direita política e eclesiástica – normalmente dizem que, na ânsia pela busca de acordos com alguns Estados, Roma acaba se silenciando sobre o comportamento ruim que eles demonstram, incluindo a perseguição a católicos em seus territórios.

Embora o Vietnã reconheça, ostensivamente, a liberdade religiosa, suas autoridades locais mantêm as atividades religiosas sob rígido controle, muitas vezes acusando líderes cristãos de estarem causando “distúrbios sociais” e “subversão”. Todo tipo de atividade religiosa está sujeito a vigilância, e os líderes religiosos são, quase que diariamente, levados a interrogatórios. Membros de minorias étnicas, onde muitos são cristãos, tais como os Hmong, são alvos frequentes de abusos e ataques armados.

Por exemplo, em dezembro de 2011 irrompeu uma campanha para prender jovens cristãos no norte do Vietnã. Um jovem católico chamado Pierre Nguyen Dinh Cuong foi levado na véspera de Natal, sendo mais um de, pelo menos, 16 cristãos que desapareceram durante este período.

Fontes locais disseram que muitas das vítimas levadas eram participantes ativas no “Centro João Paulo II”, que se posiciona claramente contra as violações dos direitos humanos e a repressão de dissidentes políticos.

Em julho de 2012, uma capela missionária em Con Cuong, área rural da província de Nghe Na, foi fechada pelas autoridades após ataques feitos a fiéis por gangues armadas. Dezenas de fiéis católicos ficaram machucados.

No dia 1º de julho de 2012, bandidos e policiais à paisana tentaram impedir que o Pe. Nguyen Dinh Thuc entrasse na capela para rezar uma missa, espancando-o quando tentou se desvencilhar. Uma das pessoas que ali se encontravam e que veio socorrer o padre, Maria Thi Than Ngho, sofreu uma fratura craniana e foi hospitalizada, enquanto outros foram presos. Na mesma ocasião, os agentes derrubaram uma estátua da Virgem Maria e agrediram verbalmente a congregação.

O sacerdote que foi alvo do ataque jurou não desistir. Na época, Nguyen falou que morrer pela fé “seria realmente uma bênção para mim”.

Obviamente, o cálculo do Vaticano é que estabelecer relações diplomáticas irá, com o passar do tempo, lhe dar condições de promover reformas para que católicos tais como o Pe. Nguyen não precisem se sacrificar.

De forma igualmente óbvia, as pessoas indignadas com abusos deste tipo, que tendem a se encontrar na direita política e cultural, vão insistir que o Vaticano deveria soltar a voz, mesmo sob o preço de atrasar todo e qualquer acordo. A mesma crítica é, frequentemente, feita ao Vaticano com relação à China e outros lugares onde a Igreja está sob riscos.

Independentemente do que se pensa sobre este debate, tudo isso ilustra o erro que é pensar que apenas os liberais têm motivos para criticar a Santa Sé. A verdade é que nem sempre é assim, e nunca foi.

Vozes cristãs do Oriente Médio

Nesta semana, o site Crux publicou uma entrevista em três partes feita com o cardeal Timothy Dolan, de Nova York, ex-presidente da Conferência dos Bispos dos EUA e que é considerado uma importante força da Igreja para os próximos anos ainda, visto que está com apenas 64 anos.

Entre outras coisas, falamos sobre o grupo ISIS e sobre a questão mais ampla de perseguição aos cristãos. Dolan deu a entender que o Papa Francisco deveria usar a sua autoridade moral para pedir aos líderes moderados muçulmanos que falassem em defesa da liberdade religiosa. Ele também pediu aos católicos americanos para se envolverem na defesa de outros fiéis ao redor do mundo, mexendo com aquilo que chamou de “falta de atenção” por parte da maioria dos americanos sobre questões internacionais.

Nesse sentido, uma das vozes a que os americanos poderiam dar atenção com mais cuidado pertence a Fouad Twal, jordaniano que serve como o patriarca latino de Jerusalém e que preside uma assembleia de bispos católicos na região.

Nos últimos tempos Twal vem desempenhando um papel importante e independente no drama que se desenvolve no Oriente Médio, um papel que desafia todos os tipos de sabedoria convencional. Ele rompeu com a oposição usual da Igreja ao uso da força armada para endossar os ataques contra o ISIS pelos Estados Unidos no Iraque, e o fez até mesmo de forma mais incisiva do que o Papa Francisco. Mas com certeza Twal não representa nada para a política externa americana.

Numa entrevista publicada sexta-feira ao Avvenire, jornal da conferência dos bispos italianos, Twal essencialmente culpou os Estados Unidos e outras potências estrangeiras por, em primeiro lugar, criarem o ISIS.

“Num esforço para derrubar o regime de Assad na Síria, a comunidade internacional apoiou estes grupos extremistas”, falou.

“A comunidade internacional, e os EUA em particular, deram um presente a estes extremistas”, acrescentou, “inclusive com lunáticos da Europa que encontraram refúgio na Síria para combater um regime que os americanos não gostavam, que os israelenses não gostavam e que a comunidade internacional não gostava”.

E qual o resultado disso, segundo Twal?

“O regime ainda está de pé, e o número de mortos continua a aumentar. É uma política cega”, disse.

Caso estes líderes queiram promover uma mudança positiva no Oriente Médio, insiste Twal, as potências ocidentais “precisam intervir de forma lógica, e não apenas quando os seus interesses estejam são ameaçados”.

Twal também reclamou, dizendo que, ao fazerem suas escolhas nas políticas externas, os principais centros do poder mundial não escutam as vozes dos cristãos da base.

“São políticas que ignoram os gritos dos pastores”, falou. “A nossa presença aqui, ou a nossa ausência, parece fazer muito pouca diferença para a comunidade internacional”.

Pode-se discutir o diagnóstico feito por Twal, que, de uma forma ou de outra, é um juízo político e não de fé.

No entanto, ele é um exemplo do tipo de perspectiva com a qual os católicos americanos deveriam, provavelmente, ir se acostumando, especialmente numa igreja em que os 70 milhões de católicos neste país representam somente 6% da população católica mundial, e na qual vozes não ocidentais irão dar o tom cada vez mais.

Um tipo de reforma não tão atraente

Se a vida for aquilo que acontece enquanto fazemos planos, talvez as reformas sejam aquilo que acontece enquanto estamos prestando atenção numa outra coisa.

Em termos de interesse público, o grande acontecimento do Vaticano nesta semana foi o bate-papo do Papa Francisco junto a alunos de ensino médio de cinco escolas ao redor do mundo: da Austrália, Israel, Turquia, África do Sul e El Salvador.

O papa pediu aos jovens que tivessem tanto “asas quanto raízes”, aventurando-se em tentar novas coisas, mas jamais esquecendo de quem são e de onde vêm. Foi outra iniciativa inédita do papa: a viagem inaugural de um pontífice usando o bate-papo do Google Hangout.

Por outro lado, a quinta-feira trouxe também um outro evento importante: a terceira reunião do novo Conselho para a Economia do papa, um organismo criado em fevereiro para supervisionar o processo de reforma financeira. A reunião atraiu pouco interesse midiático, em grande parte porque o Vaticano nos disse quase nada sobre o que aconteceu.

Havia três assuntos na agenda:

• O documento jurídico oficial do Vaticano estabelecendo os poderes do conselho, bem como um documento semelhante para a nova Secretaria para da Economia, criada pelo papa para administrar o dinheiro da cidade-Estado, e para o novo cargo de auditor geral.

• Os detalhes para a transferência de uma parcela da Administração do Patrimônio da Sé Apostólica – APSA, tradicionalmente um dos principais centros financeiros do Vaticano, para a nova secretaria chefiada pelo cardeal australiano George Pell.

• Os planos para a implementação de orçamentos anuais em todos os departamentos do Vaticano.

O que o Vaticano não disse é que cada uma dessas coisas, caso realmente funcionem, vão resultar numa revolução.

O novo auditor geral está envolto por cheques e balanços financeiros, reportando-se diretamente ao papa com poderes de revisar o trabalho da Secretaria e de outros departamentos. Com efeito, ele é uma resposta à pergunta: “Quem irá guardar os guardiões?”

A transferência da autoridade de APSA para a Secretaria para a Economia ratifica o quão rápido Pell se consolidou no controle de todos os centros financeiros do Vaticano, e deixa claro que, daqui em diante, o sucesso ou fracasso das reformas papais estão sob sua responsabilidade.

Exigir que todos os departamentos do Vaticano tenham um orçamento anual explícito, com responsabilização pelos excessos nos gastos, é uma grande novidade. No passado, quando perguntávamos às autoridades vaticanas sobre qual eram os orçamentos com os quais trabalhavam, eles simplesmente davam de ombros.

Eliminar esta indiferença pode não ser uma grande notícia, mas é o tipo de coisa a partir da qual as reformas são feitas.

Ainda é muito cedo para dizer se esta operação de limpeza terá sucesso, porém não há dúvida que vale a pena acompanhar.