“A autêntica resposta religiosa ao fratricídio é a busca do irmão. Vamos cuidar juntos da memória comum dos irmãos e das irmãs que sofreram violência, ajudemo-nos com palavras e gestos concretos para combater o ódio que quer dividir a família humana! Os crentes não podem combatê-la com a violência das armas, que só gera mais violência, em uma espiral de retaliações e vinganças sem fim”, escreve o Papa Francisco, em artigo publicado por Repubblica, 12-09-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.
Dirijo uma cordial saudação aos Participantes do G20 Interfaith Forum, que este ano se realiza em Bolonha. Guardo vívida a memória da minha passagem pela cidade, caracterizada, entre outras coisas, pela antiga Universidade, “que sempre a tornou aberta, educando os cidadãos do mundo e lembrando que a identidade a que se pertence é aquela da casa comum, da universitas" (Encontro com os estudantes e o mundo acadêmico, 1 de outubro de 2017). É bom que vocês tenham se reunido precisamente com o objetivo de superar os particularismos e compartilhar ideias e esperanças: juntos, autoridades religiosas, líderes políticos e representantes do mundo da cultura, vocês estão dialogando para promover o acesso aos direitos fundamentais, sobretudo à liberdade religiosa, e a cultivar fermentos de unidade e de reconciliação onde a guerra e os ódios semearam morte e mentiras.
Nisto, o papel das religiões é realmente essencial. Gostaria de reiterar que, se queremos preservar a fraternidade na Terra, ‘não podemos perder de vista o Céu’. No entanto, devemos ajudar a limpar o horizonte do sagrado das nuvens obscuras da violência e do fundamentalismo, fortalecendo-nos na convicção de que ‘o Além de Deus nos remete ao outro do irmão’ (Discurso por ocasião do Encontro Interreligioso, Ur, 6 de março de 2021). Sim, a verdadeira religiosidade consiste em adorar a Deus e amar o próximo. E nós, crentes, não podemos nos eximir destas escolhas religiosas essenciais: mais do que demonstrar algo, somos chamados a mostrar a presença paternal do Deus do céu através da nossa harmonia na terra.
A pregação incendiária daqueles que, em nome de um falso deus, incitam o ódio, está se espalhando de forma muitas vezes descontrolada. O que podemos fazer diante de tudo isso? - Papa Francisco
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Hoje, porém, isso infelizmente parece um sonho distante. No âmbito religioso parece estar em andamento mais uma deletéria ‘mudança climática’: às alterações nocivas que afetam a saúde da Terra, nossa casa comum, há outras que ‘ameaçam o Céu’. É como se a ‘temperatura’ da religiosidade estivesse aumentando. Basta pensar no recrudescimento da violência que explora o sagrado: nos últimos 40 anos houve quase 3.000 atentados e cerca de 5.000 assassinatos em vários locais de culto, naqueles espaços que deveriam ser protegidos como oásis de sacralidade e de fraternidade.
Muito facilmente, além disso, aqueles que blasfemam o santo nome de Deus perseguindo seus irmãos encontram financiamento. Mais ainda, a pregação incendiária daqueles que, em nome de um falso deus, incitam o ódio, está se espalhando de forma muitas vezes descontrolada. O que podemos fazer diante de tudo isso?
Como responsáveis religiosos, creio que primeiramente seja necessário servir a verdade e declarar sem medo e fingimentos o mal quando é mal, mesmo e sobretudo quando é cometido por aqueles que professam seguir o nosso próprio credo. Devemos também nos ajudar, todos juntos, a combater o analfabetismo religioso que permeia todas as culturas: é uma ignorância generalizada, que reduz a experiência de fé a dimensões rudimentares do humano e seduz almas vulneráveis a aderir a slogans fundamentalistas. Mas não basta combater: é preciso sobretudo educar, promovendo um desenvolvimento justo, solidário e integral que aumente as oportunidades de escolarização e educação, porque onde reinam incontestados a pobreza e a ignorância, a violência fundamentalista se enraíza com mais facilidade.
A autêntica resposta religiosa ao fratricídio é a busca do irmão - Papa Francisco
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Certamente deve ser encorajada a proposta de instituir uma memória comum daqueles que foram mortos em todo lugar de oração. Na Bíblia, em resposta ao ódio de Caim, que acreditava em Deus e ainda assim matou seu irmão, fazendo a voz de seu sangue subir da terra, veio do Céu a pergunta: ‘Onde está seu irmão?’ (Gênesis 4,9).
A autêntica resposta religiosa ao fratricídio é a busca do irmão.
Vamos cuidar juntos da memória comum dos irmãos e das irmãs que sofreram violência, ajudemo-nos com palavras e gestos concretos para combater o ódio que quer dividir a família humana!
Os crentes não podem combatê-la com a violência das armas, que só gera mais violência, em uma espiral de retaliações e vinganças sem fim. Por outro lado, é profícuo o que vocês querem afirmar nestes dias: "Não nos mataremos, nos ajudaremos, nos perdoaremos". São empenhos que exigem condições não fáceis - não há desarmamento sem coragem, não há ajuda sem gratuidade, não há perdão sem verdade - mas que constituem o único caminho possível para a paz. Sim, porque o caminho para a paz não se encontra nas armas, mas sim na justiça. E nós, líderes religiosos, somos os primeiros a ter que defender tais processos, testemunhando que a capacidade de combater o mal não está nas proclamações, mas em oração; não na vingança, mas a harmonia; não nos atalhos ditados pelo uso da força, mas na força paciente e construtiva da solidariedade.
Deus não é o Deus da guerra, mas da paz - Papa Francisco
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Porque só isso é verdadeiramente digno do homem. E porque Deus não é o Deus da guerra, mas da paz.
Paz, uma palavra-chave no atual cenário internacional. Uma palavra diante da qual ‘não podemos ser indiferentes ou neutros’. Repito: ‘Não neutros, mas alinhados pela paz!
Por isso invocamos o ius pacis, como direito de todos a resolver os conflitos sem violência. É por isso que repetimos: nunca mais a guerra, nunca mais uns contra os outros, nunca mais sem os outros! Que venham à tona os interesses e as tramas muitas vezes obscuros, daqueles que fabricam violência, alimentam a corrida armamentista e pisoteando a paz com os negócios’ (Encontro, cit.). Paz: um ‘quarto p’ que deve ser agregado a pessoas, a planeta e prosperidade, na esperança de que a agenda do próximo G20 o leve conta em uma perspectiva que seja a mais ampla e compartilhada possível, pois só juntos se podem enfrentar os problemas que, na interconexão atual, já não dizem mais respeito a alguém, mas a todos.
Não é mais o momento de alianças de uns contra os outros, mas da busca comum de soluções para os problemas de todos. Os jovens e a história nos julgarão sobre isso - Papa Francisco
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Também estou pensando no clima e nas migrações.
Realmente, não é mais o momento de alianças de uns contra os outros, mas da busca comum de soluções para os problemas de todos. Os jovens e a história nos julgarão sobre isso. E vocês, caros amigos do G20 Interfaith Forum, estão se reunindo para isso. Por isso, agradeço e encorajo-vos de coração, acompanhando-vos com as minhas orações e invocando a bênção do Altíssimo sobre cada um de vós.