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Caminhos de evangelização

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23 Abril 2021

 

"Este livro do teólogo José Antônio Pagola está destinado a fazer enorme bem para paróquias e comunidades ajudando-as a pôr em marcha de modo humilde, mas responsável, um processo de renovação. A sabedoria bíblica e cristã do autor, a fineza de suas análises e valiosas indicações pastorais tornam essa obra indispensável para se perceber como é possível na esteira das propostas do Papa Francisco promover uma nova etapa de evangelização", escreve Eliseu Wisniewski, presbítero da Congregação da Missão (padres vicentinos) Província do Sul, mestre e doutorando em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR).

 

Eis o artigo.

 

A obra Caminhos de evangelização (Vozes, 2020, 216 p.), de autoria do teólogo espanhol José Antônio Pagola faz parte de um projeto para dinamizar as paróquias e as comunidades cristãs, respondendo ao chamado do Papa Francisco, que nos convida a promover uma nova etapa evangelizadora.

Pagola estruturou este trabalho em duas partes. Na primeira parte: Atitudes para evangelizar hoje (p. 13-97), expõe cinco atitudes ou linhas de ação fundamentais para evangelizar nos tempos atuais. Na segunda parte – Ir às periferias existenciais (p. 99-206), ouvindo o chamado do Papa Francisco para “irmos às periferias existenciais”, indica cinco áreas específicas de ação evangelizadora.

A primeira parte é composta de cinco (05) capítulos:

1) Sugerir a pergunta a respeito de Deus (p. 15-27), o autor não pretende descrever a crise religiosa pela qual estamos passando, em meio a uma sociedade maciçamente secularizada mas, quer ajudar os evangelizadores para que neste tempo de niilismo e ausência de Deus, não esqueçamos que, no horizonte do nosso ato evangelizador, deve estar presente uma tarefa humilde, mas urgente: fazer a pergunta sobre Deus. Não vivemos tempos de propor certezas dogmáticas, e sim de acompanhar os homens e mulheres de hoje a se questionarem com sinceridade sobre o sentido de suas vidas. Pagola faz notar que não são poucos os que, sem saber estão à procura de Deus precisam encontrar um novo sentido para sua vida (p. 15-22), uma fonte para agir de maneira responsável e uma última esperança para enfrentar o mistério da vida e da morte (p. 22-27).

2) Encorajados pelo espírito evangelizador de Jesus (p. 28-46), propõe algumas reflexões e sugestões para reavivar o espírito evangelizador de Jesus em nós. Vivemos tempos em que precisamos aprender a evangelizar como testemunhas de Jesus Cristo, encorajados por seu espírito e sua paixão pelo projeto do Reino de Deus. Jesus Cristo é o ponto de partida de nossa ação evangelizadora (p. 28-31). Isso obriga-nos a promover uma mudança decisiva na nossa ação evangelizadora (p. 31-34). Somente desta forma será possível evangelizar como Jesus se espalharmos a Boa-Nova de Deus (p. 34-39). O autor conclui este capítulo lembrando que só é possível evangelizar com base em Jesus se colaborarmos com Ele na abertura de caminhos para o Reino de Deus: não separando Deus de seu projeto de reino; vendo a evangelização em Deus como uma força de transformação; evangelizar defendendo e curando a vida, colocando a compaixão no centro das comunidades de Jesus, acolhendo, escutando e acompanhando (p. 39-46).

3) Agir com base na misericórdia de Deus (p. 47-69), mostra que Jesus recebe e vive a realidade de Deus como mistério incompreensível de misericórdia (p. 48-51). Em seguida, Pagola expõe como a misericórdia do Pai aparece encarnada na vida de Jesus, radicalmente voltada para aqueles que mais necessitam de compaixão, na sua entrega prioritária aos sofredores e na sua acolhida incondicional aos pecadores mais desprezados (p. 51-59). Por isso, se faz necessário, ouvirmos a grande herança de Jesus: “Sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso” (p. 59-60). O autor termina as reflexões deste capítulo aprofundando a dinâmica da misericórdia e, apresenta algumas sugestões para caminharmos em direção a uma Igreja samaritana e trabalharmos por uma cultura mais fundamentada na misericórdia: o olhar compassivo, a proximidade daqueles que sofrem, o compromisso com os gestos (p. 60-69).

4) Despertar a esperança em nosso coração (p. 70-89), traçando um perfil da esperança (p. 71-73), ao autor, sugere aos seguidores de Jesus maneiras de acolher, ouvir e acompanhar as pessoas que são dominadas pela tristeza, pela angústia, pelo medo, pela solidão, pela humilhação, pelo desamparo ou insegurança, sem forças para continuar esperando por algo e alguém (p. 73-77). Pagola salienta que não podemos continuar anunciando a “esperança no céu” ignorando aqueles que estão perdendo até mesmo a “esperança na terra”. Daí a tarefa de recuperar a esperança, a atenção para as atitudes geradoras de esperança e a transmissão de sinais de esperança (p. 77-89).

5) A oração evangelizadora (p. 90-97), neste capítulo o autor descreve a oração como uma experiência-chave para despertar, encorajar e enriquecer a nossa ação evangelizadora. A oração é a experiência decisiva para alimentar nosso trabalho apaixonado pelo Reino de Deus. Para isso, exige-se a experiência da bondade de Deus, o amor ao homem e à mulher de hoje, a aproximação dos descrentes, o serviço aos pobres, a audácia para evangelizar, a aceitação da cruz, e a comunicação da esperança (p. 90-97).

A segunda parte também está composta por cinco (05) capítulos:

6) Acolher e ouvir os afastados (p. 101-119), a pretensão do autor neste capítulo não é descrever os motivos pelos quais a sociedade tem se mostrado cada vez mais indiferente pela Igreja, em analisar as várias formas de descrença, suas raízes e consequências, mas estudar o fenômeno dos “que voltam”, buscando reencontrar sua fé de uma forma nova: um fato ainda modesto que precisa ser questionado e pode nos ensinar muito sobre a ação evangelizadora da Igreja em meio à atual crise religiosa. Pagola esclarece caminhos e sugere possíveis respostas: quem são os que se afastaram/as diferentes gerações de afastados? Por que se afastaram? Do que se afastaram? Por que alguns voltam? O que procuram? (p. 102-114). Termina esse capítulo elencando algumas conclusões que ajudam a definir uma resposta adequada: a necessidade de uma atenção específica; acompanhamento em sua busca espiritual; reconstruir o relacionamento com a Igreja (p.115-118). Sugere, por isso, o autor, uma iniciativa pastoral concreta: os grupos de buscadores (p. 118-119).

7) O compromisso cristão com os pobres (p. 120-141), em primeiro lugar, o autor, busca dar uma ideia clara o suficiente sobre como a pobreza está ocorrendo na sociedade atual-, somente assim podemos tomar consciência da dolorosa situação dos pobres que vivem junto a nós (p. 121-1216). Em segundo lugar, Pagola recorda algumas afirmações básicas da fé cristã com respeito aos pobres e necessitados: crer em Deus significa trabalhar pelos pobres; o pobre é a memória viva de Jesus (p. 126-129). Em seguida aponta algumas atitudes que devem ser tomadas – como lembrança do posicionamento diante deles (p. 129-131). Este capítulo é finalizado com a indicação que podem nos ajudar a concretizar nosso compromisso nos moldes de um voluntariado social com inspiração cristã: conscientização; decisão inspirada no seguimento de Jesus; a entrega do tempo livre; trabalho em equipe; continuidade na prestação dos serviços/caráter permanente; serviço gratuito; vida solidária e formação adequada (p. 136-141).

8) Introduzir o Evangelho na prisão (p. 142-169), inicialmente Pagola apresenta neste capítulo uma visão simples (não em nível sociológico), que nos permita entender melhor a realidade da prisão e o perfil das pessoas que estão presas penitenciárias (p. 143-145). Num segundo momento, o autor, aponta alguns fatos que estão na origem da maioria dos problemas observados nas prisões (p. 145-146). Em seguida, recorda-se brevemente a concepção cristã de reconciliação, resumida por Paulo em 2Cor 5,18-20: “Deus estava em Cristo reconciliado consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões”. Toda reflexão cristã sobre a reconciliação deve ter como ponto de partida essas palavras paulinas (p. 146-154). Com base nisso, Pagola sugere desenvolver a Pastoral Carcerária como uma ação de acolhida que convide o preso a se reconciliar com Deus, uma pastoral de acompanhamento que o ajude a ser reconciliar consigo mesmo, uma pastoral de conscientização social (p. 154-161). Conclui expondo os principais objetivos da ação evangelizadora a serviço dos presos: sensibilização da sociedade, ajuda ao preso e defesa de seus direitos, atenção à família do preso, assistência após a soltura (p. 161-169).

9) Levar a Boa-nova aos enfermos psíquicos (p. 170-188), o autor propõe inicialmente a atuação de Jesus com os “possuídos por espíritos malignos” de seu tempo (relato do enfermo de Gerasa- Mc 5,1-20; Mt 8,2-28; Lc 8,22-69), como modelo que pode inspirar a atuação evangelizadora no mundo dos enfermos psíquicos de hoje (p. 171-177) . Em seguida sugere algumas linhas básicas de ação: abordagem curadora e realista dos enfermos psíquicos; recepção marcada pela “benção de Deus”; defesa da pessoa e dos direitos do enfermo psíquico; colaboração para sua integração social; atenção religiosa personalizada; apoio às famílias dos enfermos (p. 177-188).

10) Por uma sociedade livre de homofobia, um desafio para os cristãos (p. 189-206), neste capítulo dividido em duas partes – Pagola - primeiramente apresenta alguns pontos fundamentais, tratando do princípio–misericórdia, que inspirou e motivou toda a ação profética de Jesus e deixou como herança para seus seguidores e toda a humanidade: “Sede misericordioso como vosso Pai é misericordioso” . No segundo momento, o autor, mostra como o princípio-misericórdia pode nos ajudar a dar passos concretos e direção de uma sociedade livre da homofobia, em que a comunidade homossexual possa viver de maneira mais digna, justa e feliz em meio a uma maioria heterossexual: promovendo os ensinamentos da Igreja sobre a homossexualidade, incluindo um olhar mais humano e justo da experiência homossexual nos seguidores de Jesus, promovendo uma acolhida evangélica inspirada em Jesus nas paróquias e comunidade cristãs (p. 189-206).

Perspectivas de futuro...

Este livro está destinado a fazer enorme bem para paróquias e comunidades ajudando-as a pôr em marcha de modo humilde, mas responsável, um processo de renovação. A sabedoria bíblica e cristã do autor, a fineza de suas análises e valiosas indicações pastorais tornam essa obra indispensável para se perceber como é possível na esteira das propostas do Papa Francisco promover uma nova etapa de evangelização. Esse é o momento de nos mobilizarmos, unir esforços e impulsionar a conversão pastoral a Jesus e a seu Evangelho.

 

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