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01 Junho 2020

A vida dos cristãos e cristãs foi um tanto abalada pelo confinamento. Com a retomada das celebrações dominicais, os fiéis mudaram?

A reportagem é de Christophe Henning e Céline Hoyeau, publicada em La Croix, 29-05-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

“Ninguém sabe o que vai acontecer e o que realmente está acontecendo. Que graça pode responder à provação? Eu gostaria de chamá-la de graça do possível: o evento nos sintoniza com Aquele a quem ‘nada é impossível’ e que ‘faz novas todas as coisas’. Esse texto da filósofa Marguerite Léna, que remonta a 2003, ressoa de um modo particular hoje.

O evento do confinamento não veio talvez para abalar os hábitos dos cristãos? Como essa experiência influenciará a sua vida de fiéis? Newsletters, redes telefônicas, transmissões por vídeo, grupos de partilha online da Palavra, gestos concretos solidários... O confinamento deu origem a uma rica criatividade.

Simples parêntese ou verdadeira transformação? Ainda é cedo para dizer, mas uma coisa é certa: a reclusão ligada à pandemia foi uma oportunidade para muitos cristãos fazerem um balanço da sua fé, se interrogarem sobre a sua relação com Deus, com a Igreja, com a eucaristia.

“Uma experiência humana e particular inédita e muito forte, um retorno a si mesmo, pessoal e comunidade, que leva a um trabalho em profundidade”, resume o bispo de Limoges, Dom Pierre-Antoine Bozo.

O que mais chamou a atenção foram as missas transmitidas pela televisão ou ao vivo nas redes sociais: elas atraíram um público considerável, incluindo pessoas que não frequentavam a Igreja e que de repente sentiram a necessidade de uma prática religiosa.

Elas vão cruzar os limiares das igrejas agora? E, inversamente, outros que apreciaram a missa em casa, deixarão de frequentar a paróquia?

De todos os modos, muitos fiéis tiveram a sensação de reencontrar o modo de vida dos primeiros cristãos, passando de um rito formal a algo mais íntimo, com a grande redescoberta das liturgias domésticas.

Raphaël Cornu-Thénard, fundador do movimento de evangelização Anuncio, não recorreu às telas durante o confinamento, mas viveu liturgias em família. “Nós nos reunimos em torno da palavra de Deus e fizemos um longo momento de oração silenciosa no momento da comunhão”, diz ele. “Meus filhos se envolveram, suas reflexões foram iluminadoras para mim. A ideia não é de abrir mão do padre, mas sim de redescobrir uma forma de Igreja em que os leigos se evangelizam mutuamente em pequenas comunidades.”

Em vez de acompanhar uma missa televisionada, a Ir. Geneviève Comeau e as religiosas da sua comunidade inventaram uma Vigília Pascal itinerante dentro da sua casa. “Acendemos um círio no pátio, depois percorremos todos os locais com uma leitura do Antigo Testamento, acompanhando-a com um gesto – como comer bolos de mel em uma leitura de Isaías 55, por exemplo – até a epístola de São Paulo e a proclamação do Evangelho, sobre o qual eu fiz um comentário.”

Não é fácil, depois de uma experiência tão forte, reencontrar as celebrações eucarísticas em que o padre faz tudo, e os fiéis permanecem passivos. A religiosa aspira a fazer com que a criatividade do confinamento se torne parte da vida da Igreja do “depois”. E, em particular, que leigos preparados tenham a possibilidade de fazer a homilia ou pelo menos um comentário sobre o Evangelho. Essas liturgias domésticas são “o lugar em que o sacerdócio dos batizados pode se expressar com toda a sua grandeza”, afirma o Pe. Gilles Drouin, diretor do Instituto Superior de Liturgia do Institut Catholique de Paris: “Além da missa, fonte e ápice da liturgia, existem outras formas, como a Liturgia das Horas, a oração, a leitura da palavra de Deus, a meditação dos Salmos que oferecem as palavras para narrar o coração do ser humano”.

Mas, para muitos o confinamento foi uma provação. Myriam, 39 anos, mãe de dois filhos de 7 e 9 anos, admite que a oração familiar vivida na Semana Santa não continuou: “Precisamos da vida paroquial para manter os nossos compromissos. Sozinhos em casa, é fácil desistir cedo...”.

São muitos aqueles que esperam reencontrar a comunidade e a vida de antes na paróquia. Começando pelos padres que sofreram ao celebrar sozinhos na frente de brancos vazios. “A ausência de celebração nos fez redescobrir a importância quase sacramental da comunidade. Precisamos fazer ‘corpo’ para celebrar a eucaristia”, analisa o Pe. Gilles Drouin.

“O confinamento nos revelou que não estávamos preparados. Estamos imersos em uma cultura muito centrada no clérigo”, enfatiza Raphaël-Cornu-Thénard, fundador do Anuncio. “O padre é insubstituível como ministro dos sacramentos e pastor da comunidade, mas é preciso desenvolver uma cultura na qual os leigos se responsabilizam mais. Não para se preparar para um novo confinamento, mas para (re)adquirir bons hábitos de vida espiritual.”

Muitas iniciativas “colocavam o padre no centro, por exemplo, as missas transmitidas. Esse é o fruto de um clericalismo que não consegue se livrar de si mesmo”, deplora o Pe. Claude Lichtert, pároco em Bruxelas. Encarregado pela formação nas dioceses, no entanto, ele ouviu coirmãos felizes em viver “um tipo diferente de cotidiano”.

Como aquele pároco do Hainaut belga que, entre os dias 1º e 17 de abril, rezou por três horas em cada um de seus 17 campanários. “Nunca rezei tanto”, confidencia. “Como padres, custamos a encontrar espaço para a oração no nosso trabalho pastoral: essa missão itinerante nos permitiu dedicar tempo ao essencial”.

“E se simplesmente nos fizéssemos a pergunta: ‘Do que estamos dispostos a abrir mão?’”, pergunta Claude Lichtert provocativamente. “A ressurreição nos leva ao inédito: não estamos aqui para ouvir o que já ouvimos.”

“As crises não inventam mundos novos”, observa Natalia Trouiller, autora e jornalista. “Revelam o pior e o melhor dos mundos existentes.”

Pequenas Igrejas domésticas, um choque de solidariedade, a capacidade de trabalhar em conjunto surgiu a partir do confinamento... “Existem expectativas em relação à Igreja. Ela sabe suscitar santos em tempos de crise”, diz Natalia. “Como o bom samaritano, somos chamados a um heroísmo diário, a alimentar quem tem fome, a visitar os idosos nas casas de repouso: é o sacerdócio universal dos batizados!”

Gilles Drouin confirma: “No ‘depois’ deveremos voltar ao nosso acompanhamento dos falecidos e das suas famílias: houve muitos dramas, e não conseguimos estar suficientemente presentes”.

Além da vida da Igreja, esse sobressalto repentino, brutal, mundial é também “a oportunidade para refletir sobre o futuro do planeta e da humanidade, um pouco como o filho pródigo que volta para si mesmo... Os fiéis eles têm um papel a desempenhar para encontrar caminhos para a retomada”, diz William Clapier, autor imerso na espiritualidade carmelita.

Na sua mensagem para o novo ano de 2020, Dom Pascal Wintzer, arcebispo de Poitiers, já insistia: “Se pensamos que as mudanças são absolutamente necessárias, devemos estar cientes de que elas não virão sozinhas, de forma natural e espontânea. Muitos as rejeitam e as rejeitarão. Não é hora de ficar mornos, mas de aceitar os riscos”.

As paróquias e as dioceses terão que organizar momentos de releitura, para ouvir o que cada um viveu. “Do que sentimentos falta, o que aprendemos, o que desejamos”, especifica a Ir. Geneviève Comeau.

A Diocese de Limoges já iniciou uma consulta, enviando um questionário a todas as paróquias, a ser devolvido até meados de junho, como observa Dom Bozo: “A experiência do confinamento pode suscitar novidades. Devemos captar o seu eco para refletir sobre o que pode ser continuado, revisto ou criado”.

“Como não temos a imaginação de Deus, quando pensamos no futuro, pensamos nele como se fosse o passado”, observava Christian de Chergé, monge de Tibhirine. “Quando você está em um túnel, não vê nada, mas é absurdo querer que a paisagem na saída do túnel seja a mesma que na entrada. Deixemos que o Espírito faça o seu trabalho.”

Experiências

Mais criatividade litúrgica

Anne Waeles, 31 anos, doutoranda em Filosofia, de Paris

“Esse confinamento foi uma riqueza para mim, no plano espiritual. Além da minha oração pessoal, mais regular, vivi momentos fortes com outras pessoas. Durante a Semana Santa, imaginamos uma liturgia que nos parecia fazer sentido em relação ao que os textos nos convidam a viver: o espírito de serviço e a comunidade, na Quinta-Feira Santa; os sofrimentos do mundo, na Sexta-Feira Santa... Enquanto eu me entedio e deploro a passividade da assembleia nas missas, tive a impressão de uma verdadeira continuidade entre a minha oração pessoal e o modo como celebrávamos, como pequena comunidade. Voltarei à missa, mas tentando favorecer uma nova criatividade litúrgica na minha paróquia.”

“Fazer corpo” graças à missa

Thibault Dillies, 21 anos, estudante da classe preparatória, de Bondue

“Temos que redescobrir a missa. Não podemos ficar sozinho, como durante o confinamento. Eu acho que é possível ‘fazer corpo’ graças à massa. Senti uma falta de não poder acessar os sacramentos, uma certa tristeza e uma forma de afastamento da religião. Custava a me recolher durante as missas nas redes sociais. Por isso, parei de acompanhá-las, exceto na Páscoa. Tentei remediar isso rezando e lendo o Evangelho do domingo, mas não é a mesma coisa. Não pude ir à celebração do domingo passado. Fico feliz em ir no domingo de Pentecostes e reencontrar os cantos e a comunidade. Nos próximos meses, muitas pessoas precisarão do apoio espiritual de um padre ou de outros fiéis.”

Dar mais confiança aos leigos

Albéric e Amélie de Menou, 46 e 41 anos, três filhos, de Pontoise

“O confinamento tem sido difícil, porque a nossa vocação como cristãos é de estar em contato com os outros. Albéric não podia mais ir ao encontro dos idosos na casa de repouso. O serviço paroquial estava interrompido. Mas isso nos levou a ser muito criativos e a nos reapropriar daquilo que nos limitávamos a ‘consumir’. Na Quinta-feira Santa, por hábito, nos contentaríamos em ir à igreja e nos deixar guiar. Em vez disso, vivemos o lava-pés em família. As crianças vão se lembrar desse momento muito bonito. A primeira comunhão que voltaremos a viver será particularmente importante e intensa. Mas gostaríamos realmente que fosse dada uma maior confiança aos leigos. E que eles pudessem manter pequenas igrejas domésticas às quais fosse confiada a eucaristia.”

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