‘Dois Papas’ é melhor do que o novo livro dos ‘três papas’

Cena do filme 'Dois Papas'. | Foto: Reprodução

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24 Janeiro 2020

"O ensaio de Sarah é perturbador. Nele, o cardeal curial ataca as sugestões do Sínodo dos Bispos sobre a evangelização. Desacredita um sacerdócio de homens casados e pontualmente descarta as sugestões mais interessantes dadas para o ministério feminino", escreve Phyllis Zagano, em artigo publicado por National Catholic Reporter, 23-01-2020. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Phyllis Zagano é pesquisadora na Universidade Hofstra, em Hempstead, no estado de Nova York. Entre seus livros, destacam-se: Mujeres Diaconos: Pasaso, Presente, Futuro e “Mulheres diáconos: Passado, presente, futuro. 

Eis o artigo. 

O filme é melhor do que o livro.

Dois Papas, do Netflix, é uma análise fictícia das personalidades díspares do Papa Francisco e de seu antecessor imediato, o Bispo Emérito de Roma.

Agora existe um livro “dos três papas” que tenta pôr o Papa Emérito Bento XVI e o Cardeal Robert Sarah contra Francisco.

Das profundezas dos nossos corações [em tradução livre], apresentado e escrito por Bento e Sarah, inclui um ensaio moderado de Bento e uma polêmica de Sarah. Estes textos contam com observações introdutórias e conclusivas supostamente escritas por ambos, mas mais provavelmente por Nicolas Diat, editor da casa editorial francesa Fayard.

Por quê?

Diat, ligado de várias maneiras à coorte anti-Francisco, que inclui a princesa Gloria von Thurn und Taxis, o cardeal alemão Gerhard Müller e o cardeal americano Raymond Burke, colaborou com Sarah no passado para produzir livros atraentes aos olhos daqueles que se opõem completamente a tudo que Francisco fez ou talvez possa fazer. Sem dúvida, Sarah é o candidato de Diat ao papado.

Isso é uma vergonha e uma farsa.

O ensaio de 35 páginas escrito por Bento XVI, que melhor seria se fosse atribuído a Joseph Ratzinger, é uma reflexão densa sobre a sua dedicação pessoal ao sacerdócio celibatário. A seu próprio modo, é um texto adorável. Bento afirma que o sacerdócio é incompatível com o matrimônio na medida em que é um meio para escapar ao narcisismo: “Entrar para o clero significa renunciar uma vida autocentrada e aceitar Deus somente como o suporte e a garantia da nossa vida”. Mas, diferentemente de Sarah, Bento não nega os ensinamentos do Concílio Vaticano II: a continência (o celibato) “não é exigida pela própria natureza do sacerdócio” (Presbyterorum Ordinus, 1965).

No entanto, a erudição de Bento desaparece quando chegamos às páginas de Sarah que apresentam a verdadeira razão do livro. O sínodo para a Amazônia pediu as ordenações de homens casados e disse algumas coisas a respeito das mulheres no ministério, horror dos horrores, mencionando inclusive mulheres diáconas.

Assim, Sarah e Cia. parecem ter manipulado um Bento XVI preso a uma cadeira de rodas para que ficasse de pé contra Francisco. Não é justo. Bento é um teólogo honesto, não um polemista. Manipulá-lo no sentido de cooperar com a ala anti-Francisco ultrapassa o escandaloso. É abuso de idosos.

O ensaio de Sarah é perturbador. Nele, o cardeal curial ataca as sugestões do Sínodo dos Bispos sobre a evangelização. Desacredita um sacerdócio de homens casados e pontualmente descarta as sugestões mais interessantes dadas para o ministério feminino: a instalação delas como leitoras e acólitas e suas ordenações como diáconas.

Sarah apresenta esta mais recente ficção como fato, dizendo que a Ordinatio Sacerdotalis (1994) relativa às mulheres ordenadas ao sacerdócio inclui a proibição de e mulheres diáconas. Ele escreve: “Os debates em torno do celibato naturalmente levantam dúvidas sobre a possibilidade de as mulheres serem ordenadas sacerdotes ou diáconas. Esta questão, não obstante, foi resolvida definitivamente por São João Paulo II”. Que questão? Diáconas não são sacerdotes.

E mais: Sarah parece apontar nos outros aquilo que ele claramente pratica: “Hoje, campanhas midiáticas astutamente orquestradas pedem um diaconato feminino”. A apresentação limitada que ele faz da tradição secular de mulheres diáconas contraria a história documentada. Ele nega que as mulheres diáconas foram ordenadas, que elas trabalhavam nas liturgias e que o ministério delas se estendia para além da unção de mulheres no batismo. Em resumo, o cardeal recita a litania da desinformação – da qual a extrema-direita tanto se orgulha –, tudo cuidadosamente negado por estudos acadêmicos amplos.

Infelizmente, Sarah ganhará seguidores. O cardeal escritor aparece ao lado do papa emérito erudito na capa da obra – aparentemente, a editora Ignatius Press manterá a coautoria expressamente negada em sua edição de língua inglesa –, rebaixando, assim, Bento ao mesmo tempo elevando Sarah. Várias forças conservadoras já enviaram grandes encomendas dos livros de Sarah para a África e, sem dúvida, esta obra de hoje está a caminho também.

Duas coisas: primeiro, em 1997 Ratzinger escreveu, com muita competência, que o celibato não é um dogma; segundo, Ratzinger, como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e, depois, como papa, teve a oportunidade de legislar contra a restauração da antiga tradição de mulheres ordenadas ao diaconato. De 1982 a 2013, ele não fez nenhuma dessas coisas. Precisamos prestar atenção aos fatos.

 

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