“Dois papas” penitentes: a tradição reencontra sua autoridade. Artigo de Andrea Grillo

Cena do filme 'Dois Papas'. | Foto: Reprodução/Netflix

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

07 Janeiro 2020

Quatro papas, dois reais e dois representados, nos oferecem um quadro mais completo e mais verdadeiro do desafio em campo hoje. Dois papas penitentes restituem à tradição a sua força. Com tanta simplicidade e com uma maravilhosa complexidade.

A opinião é de Andrea Grillo, teólogo italiano, professor do Pontifício Ateneu Santo Anselmo, em Roma, do Instituto Teológico Marchigiano, em Ancona, e do Instituto de Liturgia Pastoral da Abadia de Santa Justina, em Pádua, ao comentar o filme "Dois Papas" de Fernando Meirelles, em artigo publicado por Come Se Non, 02-01-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Segundo o teólogo, "o coração do filme está em uma dupla conversão: quem queria renunciar não renuncia, enquanto quem renuncia é quem era causa de renúncia. Tudo isso ocorre através de duas “confissões/narrações”, das quais a primeira – a de Bergoglio – é totalmente dita, representada e meditada –, enquanto a outra – a de Ratzinger – é apenas sugerida, aludida e, sobre o mais belo, é “silenciada”. Tudo isso faz com que o “fazer penitência” seja central no filme. O ministério de Francisco é interpretado quase como uma “penitência”, e a retirada do ministério de Bento, como uma penitência diferente".

"Conservar a diferença se torna, para ambos, - escreve Andrea Grillo - o fruto sofrido de uma mudança, de uma conversão, que não é traição. Mudar não é trair, mas é assegurar tradição. Esse é o coração do filme, que, como tal, torna-se um modo sereno e forte de comentar a história da Igreja dos últimos 10 anos".

Eis o artigo.

A ficção cinematográfica faz milagres. A tela do cinema pode nos devolver a trama viva da realidade de um modo ainda mais forte e imediato do que a realidade, mesmo quando observada do modo mais meticuloso. Assim, na estilização, na “forçação”, na invenção e na livre narração do texto cinematográfico, descobrimos o real em uma tessitura mais profunda e autêntica sua, quase revelado a si mesmo.

Isso ocorre raramente, como no caso do filme “Dois papas”, em que o trabalho do diretor e do roteirista, embora com alguns limites, consegue restituir a história eclesial, as figuras de dois papas e, sobretudo, a sua “relação” com uma força realmente rara.

Gostaria de analisar brevemente o longa-metragem, dividindo-o em diversas partes, como me parece que ele foi concebido pelos seus autores. À guisa de premissa, deve-se dizer que a apresentação das duas figuras papais é assimétrica: a vida do Papa Francisco é investigada em profundidade, em detalhes, enquanto a de Bento é sumariamente resumida em grandes momentos, mas nunca “retratada”, exceto no rosto expressivo de Anthony Hopkins. Isso fica claro desde as primeiras imagens que se movem a partir de uma “representação” de uma homilia do bispo Bergoglio para São Francisco.

A primeira parte (até 2012)

A primeira parte do filme, que chega até o “jantar solitário” do papa e do cardeal em Castel Gandolfo, lança as premissas de uma “diferença”, que é humana, eclesial, de estilo de vida, de visão eclesial. Aqui, os dois se colocam nos antípodas. E é fácil compreender como as razões cinematográficas, além dos lugares comuns, também levam os dois a uma contraposição estrutural. Que consiste, como pretexto, na apresentação da renúncia do cardeal Bergoglio e a sua recusa por parte do Papa Bento XVI.

A segunda parte (a relação pessoal)

A segunda passagem do filme ocorre à noite, após o “jantar solitário”, quando as duas “figuras eclesiais” entram em uma relação pessoal mais direta, tentam se descobrir “irmãos” e encontrar o modo de “conviver”. Alguns elementos autobiográficos, o futebol e a música se tornam a forma de uma melhor compreensão, até o boa noite. Algo muda, nasce uma nova possibilidade de escuta e de compreensão recíproca.

A terceira parte (a mútua confissão)

Bruscamente, entra-se no momento mais alto do filme, que começa com a transferência dos dois para o Vaticano, de helicóptero, e que chega ao seu ápice com o encontro de manhã cedo na Capela Sistina, na qual ocorre o diálogo decisivo. Naquele lugar, não só Bergoglio insiste na sua renúncia, mas Ratzinger também manifesta, sub secreto, a intenção de apresentar a sua! A inversão é espetacularmente de grande efeito.

Os papéis se invertem: quem insistia na renúncia (própria) nega ao outro a possibilidade da sua. Assim, para ambos, o caminho da “abertura” passa por uma “confissão”: de inadequação e de pecado, de medo e de desespero. A partir dessa passagem tocante, emergirá, para um, a possibilidade de estar à altura do papado, para o outro, a oportunidade de renunciar ao ministério. E a longa cena na Capela Sistina termina, surpreendentemente, com uma “pizza em fatias” consumida como café da manhã por Bergoglio e Ratzinger na “sala das lágrimas”, com a oração antes da refeição que adia comicamente a satisfação da fome.

A conclusão (a diferença que salva)

A despedida entre os dois, repleta de presságios daquilo que será em poucos meses, ocorre com alguns passos de “tango” entre os dois: o futuro Francisco e o quase renunciante Bento se saúdam com um abraço dançado. Belo e tocante justamente na sua implausibilidade. O desdobramento posterior, com a passagem de 2012 para 2013, é óbvio e atende às premissas do filme. Mas é surpreendente descobrir que os dois papas retratados na tela se tornam uma possibilidade hermenêutica dos dois papas reais. E, assim, com quatro papas, o julgamento histórico pode se tornar mais ponderado e mais lúcido.

Direção, edição e roteiro são de alta qualidade. As palavras que são ouvidas, depuradas de alguns exageros, nunca são banais, seja na comicidade, seja no drama. Porque o pequeno milagre do filme consiste no tom “leve e intenso” que consegue garantir sempre, mesmo quando toca as passagens biográficas ou eclesiais mais duras e difíceis.

A penitência paralela e recíproca

O coração do filme está em uma dupla conversão: quem queria renunciar não renuncia, enquanto quem renuncia é quem era causa de renúncia. Tudo isso ocorre através de duas “confissões/narrações”, das quais a primeira – a de Bergoglio – é totalmente dita, representada e meditada –, enquanto a outra – a de Ratzinger – é apenas sugerida, aludida e, sobre o mais belo, é “silenciada”. Tudo isso faz com que o “fazer penitência” seja central no filme. O ministério de Francisco é interpretado quase como uma “penitência”, e a retirada do ministério de Bento, como uma penitência diferente.

Conservar a diferença se torna, para ambos, o fruto sofrido de uma mudança, de uma conversão, que não é traição. Mudar não é trair, mas é assegurar tradição. Esse é o coração do filme, que, como tal, torna-se um modo sereno e forte de comentar a história da Igreja dos últimos 10 anos.

O tempo reversível do filme

A liberdade cronológica com a qual o filme se desenvolve é mais uma pérola. Assemelha-se ao modo de contar de García Márquez: o tempo flui livremente, para a frente e para trás. Memória e profecia se entrelaçam, como os olhares dos dois protagonistas. Desse modo, os fatos do passado em flashback, as crises do presente e as possibilidades do futuro tomam forma e se perfilam para o olhar e para o coração: às vezes de forma ampla, às vezes de forma instantânea, essas misturas de imagens e de olhares talvez sejam a coisa mais irrenunciável do filme. Junto com a trilha sonora, em que as escolhas musicais são sempre certeiras, fortes e leves, sérias e sorridentes ao mesmo tempo.

A fácil conclusão futebolística – com a final da Copa do Mundo assistida a dois pelos papas – não é simplesmente um final feliz. É a figura conclusiva de uma passagem eclesial muito delicada e ainda em curso. É a possibilidade de entender a Reforma da Igreja como um caminho efetivamente aberto e assumido, por ambos os papas, na continuidade de uma dupla renúncia que põe em movimento um processo virtuoso. No qual, graças também a esse filme, é possível se situar hoje com uma visão mais ampla e mais clarividente. E com uma determinação ainda mais forte e mais radical.

Quatro papas, dois reais e dois representados, nos oferecem um quadro mais completo e mais verdadeiro do desafio em campo hoje. Dois papas penitentes restituem à tradição a sua força. Com tanta simplicidade e com uma maravilhosa complexidade.

 

Leia mais