Sobre “Os Dois Papas”: um novo ano para reformar a Igreja

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07 Janeiro 2020

"O filme 'Dois Papas' não me deixa com o saber alegre de duas pessoas que terminam compartilhando a cotidianidade da música ou do futebol, mas sim com a pergunta profunda de quando daremos esse passo institucional de conversão profunda", escreve Consuelo Vélez, teóloga colombiana, em artigo publicado por Religión Digital, 29-12-2019. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Eis o artigo.

Termina o ano de 2019 e começa 2020. Isso não significa que as coisas mudem magicamente, porém o ambiente festivo que se vive, ajuda com que o tempo tome outro sentido e se tenha a sensação de poder começar coisas novas. Muitas são as realidades que, talvez, quiséssemos fazer melhor o próximo ano a nível pessoal. Sempre há tanto para crescer, mudar, renovar, estrear. Oxalá o façamos. Também a nível social veremos como segue a indignação vivida em tantas partes do continente nos meses passados. Foi impossível manter as demandas em meio às festividades. Porém, logo tudo voltará ao ritmo normal e o social seguirá gritando por uma mudança. Oxalá saibamos acompanhá-lo, exigi-lo, construí-lo.

Agora bem, a partir da nossa fé, um novo ano começa para seguir promovendo e “esperando” a tão anunciada reforma eclesial promovida pelo papa Francisco. Sabemos que desde o início do seu pontificado constituiu um grupo de cardeais para que o ajudassem nesta e que vem enfrentar diferentes realidades com o escândalo (e dor) da pedofilia, a necessidade de transparência nas finanças do Vaticano, a reestruturação da cúria romana, etc. Ademais, com a expressão “sinodalidade” quis promover tal reforma, buscando fazer mais efetiva a corresponsabilidade no governo da igreja e que haja mais participação de todos os estamentos eclesiais. Neste ponto, o laicato e, particularmente, as mulheres, os/as indígenas, os/as afro, etc. tem ainda um longo caminho a percorrer, tanto no sentir-se mais corresponsáveis, porém, por parte do clero, em promover sua indispensável participação em todos os processos eclesiais.

Agora bem, ainda quase toda a pretendida reforma está em boas intenções sem que se veja uma mudança efetiva na parte estrutural. E aqui é onde o filme dos “Dois Papas” serve de referência, não para comentá-lo como filme (sobre o qual já foram feitos muitos comentários bons e precisos), mas sim como a realidade eclesial que, em grande parte se reflete ali, porém ficando reduzida no filme, a duas pessoas que conseguem dialogar e se aproximar em suas distintas posturas – o qual causa uma grata sensação nos espectadores – porém que não afronta os problemas reais e urgentes que precisam ser solucionados na Igreja e não mostra de que maneira ou por onde seguir caminhando.

Pessoalmente creio que os dois modelos eclesiais que o filme apresenta não são simplesmente um “pluralismo” que há de ser aceito, mas sim um desafio imenso por solucionar. O desejo de uma igreja “pobre e para os pobres” com o qual Francisco começou seu pontificado não é simplesmente um desejo pessoal seu, mas sim recordar a intencionalidade de João XXIII ao convocar o Concílio Vaticano II e a recepção criativa e em fidelidade que as conferências de Medellín e Puebla fizeram deste em solo latino-americano. Esse acontecimento conciliar supôs um movimento forte de conversão, um novo paradigma teológico e eclesial, um olhar às origens e reorientar o rumo que o passar dos séculos e as circunstâncias históricas foram desviando por tantas causas que muitas vezes foi quase impossível de evitar. Porém, cumpriu-se como o próprio Jesus viveu em sua encarnação histórica, que os profetas são perseguidos e mortos. O Vaticano II, e sua recepção, em diferentes formas criativas, foi perseguido, caluniado, afogado, desprestigiado até o ponto de fazer que muito cressem, com sinceridade, que o Vaticano II havia exagerado e até se equivocado e, por isso, era necessário voltar à “segurança” da doutrina “pré-vaticana”.

No entanto, como o Espírito não cessa de soprar (Jo 3, 8), Francisco pôs de novo, em primeira linha, a urgência de uma conversão ao Evangelho, ao verdadeiramente eclesial, à realidade humana golpeada por tantas situações particulares. Uma conversão à misericórdia, à encarnação, à defesa dos mais pobres e excluídos de cada tempo presente, sem deixar de lado a criação – a Casa Comum –, hoje também avassalada e em perigo de uma destruição que afeta a todos nós.

Para mim, portanto, o filme “Dois Papas” não me deixa com o saber alegre de duas pessoas que terminam compartilhando a cotidianidade da música ou do futebol, mas sim com a pergunta profunda de quando daremos esse passo institucional de conversão profunda (e digo “institucional” porque a nível “pessoal” a história está cheia de fidelidades e de mártires, especialmente, em nosso continente).

Não! Eu não aspiro ao pluralismo de dois modelos eclesiais que parecem poder conviver, mas sim ao pluralismo de diferentes realidades – culturais, religiosas, sociais, ecológicas, genéricas, etc. – porém todas assumidas pelos valores do Evangelho formando essa comunidade de irmãos e irmãs onde os pastores têm cheiro de ovelha e ninguém passa necessidade porque se compartilha a fé e, claro, os bens.

O filme “Dois Papas” entretém, como tantos outros filmes (ainda que aqueles que não estão tão metidos nos assuntos eclesiais não entendam algumas coisas e até lhes pareça pesado o excessivo diálogo), porém o compromisso cristão vai mais além do entretenimento: não deixa de vigiar, como as virgens prudentes esperando que chegue o noivo e as velas estejam acesas (Mt 25, 1-13). Uma Igreja pobre para os pobres não é o desejo de um Papa, mas sim uma exigência do Evangelho que a prodigalidade e o poder da estrutura eclesial em tantas instâncias não permitem realizar. Porém um ano novo convida a um novo começo e, no caso eclesial, a seguir empurrando uma verdadeira reforma ou conversão eclesial, onde os pobres estão no centro e a libertação que traz a boa nova do Reino faz-se realidade.

 

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