Bispos europeus: ''Escutemos a voz do sofrimento, da raiva, da condenação''

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18 Setembro 2018

Pôr-se à escuta “daqueles que sofreram abusos e maus-tratos dentro da comunidade da Igreja”, da “voz daqueles que nós, pastores, desapontamos por não termos conseguido protegê-los dos lobos no nosso meio”. Só quando “essa voz for realmente ouvida dentro da família da Igreja, nós também começaremos a conhecer esse sofrimento, tentando tomar um pouco do seu fardo e carregando agora o peso da nossa vergonha e da nossa dor”. Essa foi a homilia proferida na manhã desse sábado, 15, pelo cardeal Vincent Nichols, primaz da Igreja da Inglaterra.

A reportagem é de M. Chiara Biagioni, publicada por Servizio Informazione Religiosa (SIR), 15-09-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

“Recordemos de todos aqueles que, nas nossas comunidades e nas nossas sociedades, gritam de dor, na raiva e na frustração. A lista é longa. Sua consternação, intensa.” Os bispos europeus rezam pelas vítimas de abuso. Eles fizeram isso durante a missa celebrada na manhã desse sábado, 15 de setembro, na capela do Seminário de Poznán, no âmbito da Assembleia Plenária dos presidentes das Conferências Episcopais da Europa (CCEE). Foi o cardeal Vincent Nichols, arcebispo de Westminster e primaz da Igreja da Inglaterra, que proferiu a homilia.

São repassados os acontecimentos que abalaram a Igreja e a opinião pública nos últimos meses. A viagem do Papa Francisco à Irlanda e a “voz enfurecida dos sobreviventes de abuso”. As notícias da Pensilvânia, que acrescentaram “desânimo e críticas, assim como o desenrolar dos fatos em torno do cardeal McCarrick”.

“Foi perturbador, para dizer o mínimo”, confessa Nichols. Depois, recordando o grande testemunho deixado pelo Papa Francisco em terra irlandesa, o cardeal Nichols convidou os presidentes de todas as Conferências Episcopais europeias a se porem à escuta das vítimas: “É a voz do sofrimento, da raiva, da condenação. É a voz daqueles que sofreram abusos e maus-tratos dentro da comunidade da Igreja, a voz daqueles que nós, pastores, desapontamos por não termos conseguido protegê-los dos lobos em nosso meio”.

Só quando “essa voz for realmente ouvida dentro da família da Igreja, nós também começaremos a conhecer esse sofrimento, tentando tomar um pouco do seu fardo e carregando agora o peso da nossa vergonha e da nossa dor”.

“Um sinal muito forte.” “Um fato único.” Com essas palavras, os bispos europeus acolheram a iniciativa do Santo Padre Francisco de convocar os presidentes de todas as Conferências Episcopais do mundo para uma reunião no Vaticano, em fevereiro de 2019, sobre o tema “A prevenção dos abusos”.

Para Dom Charles Scicluna, presidente da Conferência Episcopal Maltesa, é “uma resposta às expectativas das pessoas para que, dos documentos e das palavras, passe-se aos fatos. As pessoas – disse – precisam entender que não bastam as belas palavras e as promessas, mas um sim compromisso abrangente que diga respeito a todos e envolva toda a Igreja e todos na Igreja”.

“Esse chamado, esse convite diz algo fundamental: a questão da prevenção dos abusos e da proteção dos menores compromete toda a Igreja e compromete a todos na Igreja.”

Scicluna lembra o que a Santa Sé fez nos últimos anos para combater essa terrível chaga em seu interior: as diretrizes preparadas pelas Conferências Episcopais de todo o mundo e, ainda em 1992, a exortação pós-sinodal Pastores dabo vobis sobre a formação dos futuros sacerdotes.

“Mas não se deve ter apenas documentos”, reitera o arcebispo. “É preciso sensibilizar toda a comunidade, porque esse triste fenômeno não é resolvido apenas pela hierarquia”, mas “é um compromisso que deve envolver a todos”.

É um convite a “tomar decisões” e a “ser solidário com aqueles que são provados”.

Dom Georges Pontier, arcebispo de Marselha e presidente da Conferência Episcopal Francesa, também falou da iniciativa do Papa Francisco.

“Não é uma operação de fachada para decorar a imagem da Igreja. Mas sim um convite que quer nos levar de volta ao Evangelho, à conversão pessoal e à assunção das responsabilidades que nos cabem.”

“A Igreja – reafirma o prelado francês – deve ir ainda mais a fundo na tomada de consciência dos abusos. Como escreveu na Carta ao Povo de Deus, o papa não fala apenas de abusos sexuais, mas também dos abusos de poder, dos abusos sobre a consciência das pessoas. Portanto, não existe só a questão da pedofilia, mas também a questão do clericalismo. É, portanto, um convite a reconhecer desvios que existem dentro da nossa Igreja.”

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