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30 Janeiro 2018

Setenta e três anos atrás, os sete mil prisioneiros restantes no campo de concentração de Auschwitz foram libertados pelo Exército Vermelho. Imediatamente antes de fugir os alemães explodiram as câmaras de gás e os crematórios ainda ativos. Conseguiram evacuar mais de 100 mil prisioneiros para dentro da Alemanha para continuar a alocá-los nos trabalhos forçados.

O artigo é de Piotr M.A. Cywinski, historiador polonês, publicado por La Repubblica, 27-01-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Os sobreviventes dedicaram suas vidas inteiras para testemunhar em nome das vítimas. Agora Primo Levi, Elie Wiesel, Wladyslaw Bartoszewski, Israel Gutman, Simone Weil, Imre Kertész e muitos outros não estão mais entre os vivos. Nós, da geração pós-guerra ficamos cada vez mais sozinhos com o fardo de sua experiência e seria difícil negar que ainda não somos capazes de lidar com isso adequadamente. Todo o mundo moderno vive cada vez mais como se a tragédia do Holocausto e dos campos de concentração não tivesse sido um grande ensinamento.

Em teoria, o mundo inteiro deveria ter mudado após a guerra. Em uma escala global foram instituídos órgãos de cooperação, tais como as Nações Unidas. Na Europa Ocidental desenvolveu-se consideravelmente o processo de unificação de estados, nações e sociedades, que é conhecido hoje como União Europeia. Foi ampliado o âmbito de crimes contra a humanidade reconhecidos e a ONU elaborou a definição do crime de genocídio. Hoje vemos que essas iniciativas pós-conflito, embora pareçam legítimas e bem ponderadas, não resistiram ao teste do tempo. Somos incapazes de uma resposta eficaz frente às novas manifestações do delírio genocida.

A fome e a morte frutos dos incessantes conflitos entre os diferentes grupos na África Central não são considerados prioridades pelos nossos governos. O comércio de armas e a exploração de uma mão-de-obra praticamente gratuita oneram as regiões mais pobres do mundo. A ONU deixou de garantir qualquer esperança.

A União Europeia é devorada por uma apatia interna. Ao mesmo tempo, as nossas democracias sofrem pelo crescimento do populismo, do egoísmo nacional e de novas formas extremas de incitação ao ódio.

Nós realmente mudamos tanto assim nas últimas duas ou três gerações?

Antes de nos reunir daqui a dois anos para comemorar o septuagésimo quinto aniversário da libertação de Auschwitz, seria melhor nos questionarmos sobre algumas coisas para evitar que tal dia se transforme em mais uma comemoração, com os clichês habituais associados a imagens familiares da arquitetura dos campos com a intenção de comover. O que está acontecendo ao nosso mundo? O que está acontecendo conosco? A memória não é mais um dever? Se for verdade que a esperança é a última que morre, em que deve ser fundada, se não na memória?

Devemos realmente culpar a nossa superficialidade no fortalecimento do bem à ausência de uma visão? A escassez de estadistas legítima o surgimento de vozes não devidamente amadurecidas para assumir as próprias responsabilidades? Os resultados das pesquisas de opinião e as mídias sociais são agora o que dita permanentemente as nossas escolhas?

Conseguimos realmente sufocar o nosso sentido de responsabilidade objetiva e tangível ficando sentados tranquilamente, atrás da porta da nossa "incapacidade de agir" mesmo diante das mais terríveis tragédias? Há espaço para a comemoração das vítimas em uma cultura que tenta viver sem a consciência da morte?

Considerando que a escola é evidentemente e absurdamente inadequada para os problemas modernos, porque não conseguimos dar-lhe um sentido diferente? É realmente justificada a relação entre o número de horas de matemática e aquelas dedicadas à ética; ao uso responsável das mídias; à educação cívica e ao conhecimento das ameaças internas à sociedade; à capacidade de organizar a oposição civil; às ferramentas para criar projetos de assistência? Realmente queremos construir o nosso futuro nos cálculos integrais? Porque a história que ensinamos se limita ao estudo em segurança do passado, apesar das correspondências com as circunstâncias atuais, sem estabelecer qualquer correlação clara com o mundo de hoje e um futuro cada vez mais incerto?

Nós não temos a intenção de responder pessoalmente a essas perguntas. E não importa o que está acontecendo no Congo, em Mianmar, na vizinhança ou no estádio perto da nossa casa. Isso não muda o fato de que nossos filhos - que são, supostamente, o futuro de tudo o que nos deveria importar - aprendem mais coisas sobre o sacrifício, sobre a dignidade, a responsabilidade, ou os ideais pelo novo filme de Star Wars do que pelos ensinamentos da escola. A apatia nos pegou não porque nos não identificamos grandes visões para o futuro, mas porque escondemos a imagem do nosso passado comum, compartilhado – até mesmo o mais recente. Essa apatia hoje - talvez pela primeira vez na história da humanidade - é tão profunda que, ao avaliar o desenvolvimento de eventos em tantos lugares, remotos e próximos a nós, achamos difícil diferenciar o que é ainda paz do que já se tornou guerra. Não há mais correspondência entre memória e responsabilidade. Toda a nossa civilização de hoje é, por sua própria vontade, privada de sua própria experiência. Queremos Auschwitz nos livros de história? Ou seria melhor movê-la para a hora de matemática?

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