Climate Change and Civic Engagement é um mapa contra o cinismo climático. Artigo de Henrique Cortez

Foto: Mike Newbry/Unplash

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03 Outubro 2026

Em “Climate Change and Civic Engagement”, o sociólogo Paul Almeida propõe que a luta contra a crise do clima só vencerá se for, antes de tudo, uma luta por justiça social.

O artigo é de Henrique Cortez, jornalista, ambientalista e editor do EcoDebate, publicado por EcoDebate, 01-10-2026.

Eis o artigo.

Terminei a leitura de “Climate Change and Civic Engagement: The Origins and Future of the Climate Justice Movement” com uma sensação que não sentia há tempos ao ler sobre clima. Não exatamente otimismo, mas uma clareza incômoda e, ao mesmo tempo, revigorante. Paul Almeida, professor de Sociologia e Sistemas Ambientais na Universidade da Califórnia, em Merced, não escreveu um livro para nos confortar. Escreveu um livro para nos tirar da paralisia.

A premissa é direta. O Acordo de Paris acendeu uma centelha de esperança, mas, mais de uma década depois, as emissões globais seguem subindo. Os efeitos das mudanças climáticas já não são projeção, são realidade cotidiana: preços de alimentos disparando, ondas de calor cada vez mais extremas, enchentes que arrasam cidades inteiras.

Climate Change and Civic Engagement: The Origins and Future of the Climate Justice Movement, de Paul Almeida. (University of California Press, 2026)

Ainda assim, a resposta dominante continua sendo a mesma de sempre, cúpulas tecnocráticas e soluções de mercado que, segundo Almeida, simplesmente não produziram mudança na escala que o problema exige. A avaliação do autor, retomada por publicações como a Stanford Social Innovation Review, é incisiva: só uma ampla aliança cívica, enraizada nos trabalhadores, é capaz de superar os limites de uma descarbonização pensada de cima para baixo, por elites tecnológicas.

O que Almeida faz ao longo das 262 páginas do livro é raro. Ele pega a teoria dos movimentos sociais, normalmente restrita aos corredores da academia, e a coloca para trabalhar no chão da realidade. O resultado é um retrato empírico e rigoroso de como nasceu o movimento climático, do que ele já conquistou e, principalmente, de quais caminhos ainda podem ser percorridos.

Três caminhos, uma escolha

Logo na introdução, Almeida organiza o campo de disputa em três grandes paradigmas: o negacionismo climático, a descarbonização e a transição justa. Confesso que, a princípio, essa divisão me pareceu um pouco esquemática. Mas logo entendi sua utilidade. O negacionismo, para o autor, não é apenas o discurso que nega a ciência. É também a postura, cada vez mais comum em governos ao redor do mundo, de admitir que o clima está mudando, mas insistir que isso não representa um problema real, chegando a tratar iniciativas como parques eólicos offshore como uma espécie de trapaça.

A descarbonização, por sua vez, é o caminho que busca reduzir emissões dentro da lógica de mercado: programas de comércio de carbono, substituição de veículos a combustão por elétricos, tecnologias de captura de carbono. Almeida não descarta essas ferramentas, mas é honesto quanto aos seus limites. Elas tendem a concentrar as decisões nas mãos de elites políticas e corporativas, deixando de fora justamente as comunidades que mais sofrem com a crise climática.

A transição justa é o terceiro caminho, e não é por acaso que ocupa o centro da argumentação do livro. Aqui, a palavra chave é aliança. Almeida defende que a única chance real de uma vitória duradoura está na construção de coalizões amplas entre trabalhadores, organizações de justiça ambiental, comunidades de base e universidades. Ele recupera uma lição que ouviu ainda na pós-graduação, de um dirigente de uma organização de justiça econômica e ambiental: para eliminar a produção de químicos perigosos, são os próprios trabalhadores que precisam estar à frente do problema, não apenas ambientalistas de fora.

Do global ao quintal

O que mais me conquistou neste livro foi sua estrutura em escala. Almeida não se limita ao discurso macro sobre cúpulas da ONU e acordos internacionais, embora trate desse terreno com competência no segundo capítulo, que reconstrói a trajetória do movimento climático global desde suas origens até 2019, apoiado em gráficos que contam uma história de mobilização crescente.

Ele desce de nível. Do global para o nacional. Dos Estados Unidos para a Califórnia. E da Califórnia para o Vale de San Joaquin, região onde fica a própria UC Merced, universidade em que leciona. É nesse capítulo final, dedicado a uma área agrícola marcada por desigualdades profundas, que o livro atinge sua maior força. Almeida apresenta dados de mais de quatro mil pesquisas representativas, conduzidas em parceria com o Centro de Trabalho e Comunidade da UC Merced e com estudantes universitários, ouvindo famílias sobre suas necessidades diante da crise climática.

O que essas pesquisas revelam é algo que muitos ativistas já intuíam, mas que raramente aparece documentado com esse rigor: a disposição das pessoas comuns para participar de planejamento climático, políticas de adaptação e empregos verdes depende, antes de tudo, de que suas necessidades básicas estejam atendidas. Custo de vida, moradia, conta de energia, emprego, reforma migratória. Não adianta convocar uma família trabalhadora para debater transição energética se ela está preocupada em conseguir pagar o aluguel no mês seguinte.

Essa constatação é, para mim, o coração do livro. Almeida argumenta que o movimento climático precisa ser, antes de qualquer coisa, um movimento de justiça social ampla. E, ao fazer isso, ele dialoga com uma tradição que remonta a Robert Bullard e aos estudos clássicos de justiça ambiental, atualizando-a com dados e ferramentas contemporâneas.

As universidades como âncoras

Um dos pontos mais instigantes do livro é a defesa que Almeida faz das universidades como polos regionais de ação climática. Ele fala de dentro de uma instituição que conhece bem: a UC Merced tem um corpo discente formado majoritariamente por jovens de comunidades atingidas por injustiças ambientais. Almeida sugere que universidades façam inventários de seus próprios ativos climáticos, mapeiem recursos disponíveis e se posicionem como centros de apoio às comunidades ao redor.

Para quem trabalha com pesquisa voltada à ação, como é o meu caso, essa proposta é um alento. Ela aponta um caminho concreto para que o conhecimento acadêmico não fique trancado em periódicos especializados, mas circule de fato e fortaleça as bases.

Porque recomendo

Climate Change and Civic Engagement é, acima de tudo, um livro que resiste ao cinismo. Em um momento em que o negacionismo avança em governos ao redor do mundo e a burocracia das cúpulas internacionais parece capturada por interesses que perpetuam o status quo, Almeida nos lembra que a história dos movimentos sociais é feita de avanços e recuos, mas também de conquistas reais, muitas vezes ausentes dos noticiários.

Ele não promete vitórias fáceis. Não romantiza a ação coletiva, mas oferece algo mais valioso: um mapa. Um mapa de onde estivemos, de onde estamos e de quais caminhos ainda são possíveis. Para estudantes, ativistas, formuladores de políticas públicas e qualquer pessoa que se recuse a aceitar que o futuro do planeta será decidido sem sua participação, esta leitura é indispensável.

Se você já se sentiu exausto diante da distância entre a urgência da crise climática e a lentidão das respostas institucionais, este livro pode funcionar como antídoto.

Não porque traga soluções mágicas, mas porque devolve o que mais precisamos agora: a convicção de que a ação cívica, organizada, ampla e persistente, é a ferramenta mais poderosa que temos.

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