"Francisco viveu em um período muito fértil da Igreja e também bastante complicado, tempo dos movimentos pauperísticos, tempos de guerra contra estrangeiros e movimentos dentro da própria cristandade, tempos em que se entendia uma Teologia do Domínio com o papa concentrando o poder temporal e o poder religioso", escreve Enio Marcos de Oliveira, presbítero do clero de Leopoldina, doutor em Ciência da Religião pela UFJF com sanduíche no ISE-Veneza, IT com a temática de Francisco de Assis como um buscador do diálogo inter-religioso.
Nestes últimos dias uma palavra tem estado em evidência, Teologia do Domínio. Ao longo da história tivemos muitas teologias, várias formas de ver Deus, ou vários discursos a partir de uma visão sobre Deus. Atravessamos várias teologias ao longo dos séculos: a teologia da retribuição, a teologia de cada um dos quatro evangelhos, a teologia das cartas de Paulo, a teologia da esperança, a teologia da libertação, a teologia da prosperidade, tantas outras teologias e, na moda agora, a teologia do domínio.
Nesta semana em que comemoramos 800 anos do trânsito de São Francisco de Assis, quero falar da teologia da graça e da teologia da kenosis tão presentes na vida de do santo da Úmbria.
Francisco viveu em um período muito fértil da Igreja e também bastante complicado, tempo dos movimentos pauperísticos, tempos de guerra contra estrangeiros e movimentos dentro da própria cristandade, tempos em que se entendia uma Teologia do Domínio com o papa concentrando o poder temporal e o poder religioso.
Durante vida de Francisco a Igreja empenhou-se em algumas cruzadas, a saber, a 3ª cruzada 1189 quando ele ainda era criança, a 4ª cruzada que se dirigiu a Constantinopla 1202 e Francisco ainda era adolescente e a 5ª cruzada 1217 que teve lugar em Damieta, no Delta no Nilo, Egito da qual Francisco participou. Além destas cruzadas para fora aconteceu também a cruzada contra os albigenses 1209-1229.
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Francisco viveu também o período do IV Concílio de Latrão 1215 que teve entre outras definições a importância da guerra santa para defender o domínio da Igreja.
Mas, em meio a tudo isso, Francisco de Assis propunha uma outra teologia, uma outra forma de pensar o mundo a partir da experiência com Jesus Cristo. Francisco pensava a teologia da kenosis, da minoridade, do esvaziamento por amor a Deus. No final da sua vida ele escreveu seu testamento, após a experiência da 5ª Cruzada ele escreveu sobre a verdadeira alegria e o Natal em Grécio, sempre pontuando o esvaziamento e a graça de Deus.
No final de sua vida Francisco escreveu o seu Testamento onde deixou para a sua fraternidade uma espécie de autobiografia de fé. Entendo que a vida do jovem de Assis foi toda marcada por testamentos que foram deixados para que a sua fraternidade pudesse se reinventar a cada dia e a cada encontro, assim como ele mesmo o fez. O que se pretende aqui é trabalhar além do Testamento em si, dois momentos privilegiados no caminho do diálogo com o mundo e com os homens pontuando o “esvaziamento e a graça”.
O primeiro momento aborda o natal em Greccio, o desejo de transformar todo lugar em terra santa pode ser uma forma de desmistificar os argumentos dados para a criação e manutenção da guerra entre cristãos e muçulmanos, mas, além disso, é uma forma de dizer que todos os homens e todas as mulheres são sagrados aos olhos de Deus, assim sendo há uma mudança de perspectiva saindo da ideia do meu Deus único e se deslocando para a ideia do nosso Deus único.
No segundo momento deste artigo se trabalha a inspiração divina e a perfeita alegria, elementos essenciais na vida de Francisco que enfrentou muitos desafios dentro da sua própria comunidade, o que não é muito incomum, para os homens que experimentaram mergulhar no oceano da mística e, por isso mesmo, foram e são combustível no motor da história da humanidade.
Por fim, o Testamento em si mesmo. Uma leitura do que disse Francisco que nos permite compreender o homem universal, aberto a todos os homens, mergulhado na fraternidade, tomado pelo Santo Evangelho, buscando sempre a Minoridade e tudo por causa do Senhor e guiado por Ele que o fez compreender o chamado à submissão a toda humana criatura, uma compreensão sublime do discurso sobre Deus a partir da experiência da graça e do esvaziamento.
Estes elementos apresentados mostram o eixo condutor da vida de Francisco, são testamentos e testemunhas de uma história permeada de encontros e por uma capacidade de deixar-se moldar e se converter a partir do outro, clareando um pouco tais ideias:
No Testamento Francisco apresenta a sua história feita de muitos encontros tais como leprosos, irmãos, papa; homens na pregação da paz. Todos os encontros foram pontuados por mudanças e orientados, segundo ele, pela revelação divina.
O encontro com o sultão, assim como os outros encontros na vida de Francisco, alargou os horizontes do jovem de Assis, chegando ao ponto de querer transformar a pequena Greccio em Belém, em consonância com o discurso da senhora pobreza: “O mundo é o nosso claustro”, os homens são os nossos irmãos e toda a terra é santa. O que pode parecer apenas uma cena plástica para as igrejas nas festas de natal de nossos dias, foi para Francisco um ponto central, uma forma silenciosa de gritar contra as motivações da guerra. Fica claro a valorização da identidade marcada pela encarnação do verbo, ao mesmo tempo fica também claro a abertura dialogal para com o outro, pois o mundo é lugar também do outro, seja ele cristão ou sarraceno, o mundo não é o lugar do domínio, mas da fraternidade.
Mas a vida é marcada também por desencontros , por isso uma leitura da perfeita alegria, quando Francisco aponta os desencantos da sua história, mas sempre se voltando para aquele que o conduziu entre os leprosos, que lhe deu irmãos, que o mandou anunciar a paz, mas que, sobretudo, o mandou viver segundo a forma do Santo Evangelho, que, a nosso ver, o leva ao sentimento de Minoridade, raiz de toda a sua abertura para o outro.
Há um filme produzido pela TV Italiana RAI chamado Chiara e Francesco no qual há uma cena em que Frei Francisco e Frei Iluminado estão voltando do Egito e passam por Greccio, ao chegar próximo à cidade, Francisco pergunta ao seu irmão: Que lugar é esse? Iluminado fica triste pensando na gravidade da enfermidade ocular de seu pai espiritual, mas responde: Aqui é Greccio. Francisco sorri e diz: não, aqui não é Greccio, aqui é Belém, veja!
O que chama a atenção nesta cena do filme é o fato de uma história romanceada produzida nos anos 2000 falar desta visão de Francisco que nos apresenta a universalidade espiritual do pobre de Assis, pois para o autor do filme a cena se dá exatamente no retorno de Francisco à Itália após o encontro com o sultão, o filme ainda sugere que Francisco tenha ido ao Egito por sugestão de um amigo de juventude que presenciou com desespero os saques de Constantinopla e aponta um encontro muito fraterno entre Francisco e Malek-al-Kamil.
Na verdade, no ano de 1223, como nos relatam as primeiras fontes biográficas, Francisco quis celebrar o Natal na vila de Greccio; este evento está inserido em um contexto muito claro de Minoridade e de abertura, pois transformar toda a terra em lugar onde Jesus nasceu é dizer que toda a terra é santa, e todos os homens são santificados pela encarnação de Jesus e que o evangelho não propõe a domínio de um irmão sobre outro irmão.
O natal em Greccio nasce do encontro com o outro contra o qual a Igreja da cristandade estava em guerra e é resultado de uma nova compreensão de Terra santa apresentada por Francisco, em consonância com a carta aos governadores dos povos e aos custódios nas quais Francisco pede aos homens que em toda terra e sempre que se recordarem do Senhor possam prestar reverência e respeito.
Se toda a terra é santa, não deverá mais haver espaço para a guerra, mas para a fraternidade, para a convivência fraterna e espiritual como as propostas apresentadas no projeto missionário do capítulo XVI da RnB, assim todos os homens estarão preparados pela penitência e pela fraternidade para a chegada do Reino.
Francisco ao celebrar em Greccio como fruto do seu encontro com o sultão, como desejo de uma fraternidade universal quebra mais uma muralha que separava e ainda separa os homens: a muralha das fronteiras.
O maior argumento da Igreja para as cruzadas era a retomada da terra que Jesus havia comprado com o seu sangue e a vingança contra os ultrajes feitos aos lugares onde ele viveu e morreu para redimir os homens e mulheres. As ações de Francisco, diante dos fatos que o cercavam, podem nos apontar, de alguma forma, o seu pensamento, mesmo que ele não tenha sido relatado por aqueles que escreveram inicialmente a vida e as ações do pobrezinho. Ainda que alguns queiram colocá-lo como capelão de guerra. Alguns dos escritos e algumas ações mostram claramente a abertura de coração de um homem marcado pela fraternidade da sua Ordem, pela Minoridade da sua vida e pela escolha do Evangelho como norma para viver.
Os elementos apresentados por Celano na narração nos deixam pistas de como Francisco entendia o seu viver o Evangelho e como esta opção se opunha de certa forma ao motivo da guerra, uma vez que a vida segundo o Santo Evangelho tornava santo todos os lugares e não mais apenas a “Terra Santa”, Greccio se transformava em Belém e a graça da encarnação deveria ser partilhada com todos os homens de todos os lugares.
A instituição do presépio em Greccio é um modo de fazer entrar em todas as casas e em todos os corações os lugares santos, superando em certo sentido a necessidade de peregrinação até a terra Santa. “Greccio se tornou uma nova Belém” [...] se poderia dizer que nos encontramos diante de um episódio em certo sentido igual àquele do assim dito perdão de Assis, pedido por Francisco ao papa Honório: “uma indulgência sem óbolos” para todos aqueles que fossem à Porziuncola, “porque eu quero mandar todos ao paraíso”. (Radi, 2006: 8 – tradução nossa).
Muito mais do que uma cena artística, o evento Greccio manifesta o entendimento de Francisco no que diz respeito aos homens e das relações entre eles e Deus, uma geografia claramente diversa daquela apresentada pela Igreja, ainda que Francisco não dissesse qualquer palavra de reprovação aos atos da guerra, as suas ações manifestavam um homem em busca dos homens.
A Minoridade de Francisco é uma decorrência clara do seu seguimento do Evangelho, a pobreza do presépio retratada por ele com o respeito e a reverência pela encarnação do verbo que se fez pobre para estar com todos os homens, no entender do pobrezinho, um caminho oportuno para por fim aos litígios que separavam cristãos e sarracenos.“Quero celebrar a memória daquele menino que nasceu em Belém (cf. Mt 2,1-2) e ver de algum modo com os olhos corporais os apuros e necessidades da infância dele, como foi inclinado estando presentes o boi e o burro, foi colocado sobre o feno”.
Transformar Greccio em Belém era no entender de Francisco, como nos narra Celano uma forma sublime de viver a vontade de Jesus e seguir os passos dele na pobreza de uma noite fria, celebrar o Deus feito carne entre os homens e para os homens.
A mais sublime vontade, o principal desejo e supremo propósito dele era observar em tudo e por tudo o santo Evangelho, seguir perfeitamente a doutrina e imitar e seguir os passos de nosso Senhor Jesus Cristo com toda a vigilância. Com todo o empenho, com todo o desejo da mente e com todo o fervor do coração. Recordava-se em assídua meditação das palavras e com penetrante consideração rememorava as obras dele. Principalmente a humildade da encarnação e a caridade da paixão de tal modo ocupavam a sua memória que mal queria pensar outra coisa. Deve se por isso, recordar e cultivar em reverente memória o que ele fez no dia do Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo no terceiro ano antes do dia da sua gloriosa morte, na aldeia que se chama Greccio. (1 Celano XXX-84, FFC, 2004: 254-255).
O natal sendo para os cristãos uma ação de Deus que quer se comunicar com os homens, “A palavra de Deus se fez carne e veio habitar entre nós” (Jo 1,14), é compreendido por Francisco como a comunicação com todos os homens e, não apenas com um grupo específico, no caso dos cristãos latinos. Celebrar a encarnação em uma comunidade simples e chamá-la de Belém nos mostra um homem capaz de um diálogo com todas as criaturas e que entende que a guerra não é o caminho para os homens, mas a paz. A terra é de todos os homens e todos os homens são da terra no entender do pobrezinho, bem em consonância com a resposta dada anos antes ao bispo de Assis: “Senhor, se tivermos qualquer propriedade, ser-nos-ão necessárias armas para a nossa proteção”.
O presépio na sua gloriosa nudez significava a reafirmação da pobreza e da humildade das origens [...] o presépio resumia em si a mensagem evangélica, tornava-se para Francisco um substituto significativo e popular da mesma ideia da cruzada que por muito tempo havia adormecido na Igreja o autêntico ensinamento de Jesus. Queria dizer a todos os homens que, para venerar os lugares santos, não era necessário reconquistá-los com as armas, porque poderiam possuir e venerar na alma. Posse, adoração e oração, se tornam de tal modo destituídas de lugar, como um patrimônio presente em todo canto e em todo o tempo: os lugares santos saiam da geografia do mundo para transferir-se para aquela do espírito. (Radi, 2006: 69 - tradução nossa).
Neste aspecto se pode afirmar que Francisco entendia o Evangelho como o esvaziamento de Deus, a graça dada, a fonte para o diálogo, a encarnação em todo tempo e em todos os corações é elemento primordial para entender toda a humanidade como uma grande fraternidade seguindo os passos de Jesus que escolheu ser o Menor entre os homens.
Quando chegou o tempo do Natal Francisco parece ter encontrado um modo de convidar os homens para celebrar o nascimento de Jesus como um evento para todas as pessoas e para todas as regiões do mundo.
O encontro com o sultão Malek-al-Kamil às margens do Nilo deixaram marcas profundas no coração daquele homem que um dia sonhara ser cavaleiro, receber honras, lutar em busca de fortunas. No vilarejo de Greccio entre os pobres, despojado de todos os faustos e pompas, de toda presunção, ele celebra o vigor da sua fé como um autêntico buscador do diálogo que percebeu ainda mais a sua beleza quando se encontrou com o outro.
Neste aspecto a celebração do Natal ao transformar Greccio em Belém é um testemunho vivo para os seus frades, de maneira especial para aqueles que, por inspiração divina, desejarem viver entre os sarracenos e infiéis, pois assim, poderão, seguindo o exemplo de Francisco, se sentir em casa e entre irmãos no grande claustro que é o mundo.
No natal de 1223 é em Greccio, sob o convite do nobre Giovanni Velita, senhor do local, ou seja, senhor da pobre localidade, e com ele organiza a sagrada representação da natividade, com uma cabana, um boi, um asno, uma manjedoura com um menino, a imagem do menino Jesus de Belém e, diante da pobre gente de Greccio e de tantos (também Menores) vindos a assistir aquele espetáculo sagrado insólito, prega ainda sobre a importância do exemplo de Jesus, aquele que os papas amam exaltar como “Rei dos reis” para sustentar instrumentalmente a própria presunção e supremacia [...] que escolhe nascer em uma manjedoura, pobre entre os pobres (Marconi, 2008: 102 – tradução nossa).
A celebração do natal se torna um testamento em consonância com vários outros na vida do pobrezinho, todos marcados pelo seu sentimento de Minoridade e de busca assídua de viver segundo a forma do santo Evangelho, tais como o encontro com o leproso, evento pontual no processo de sua conversão, o encontro pacífico com o sultão Malek-al-Kamil e outros tantos encontros; assim, a celebração do natal vem coroar o seu entendimento da lógica de Deus que segue um caminho diferente daquele escolhido pelos homens e consequentemente pelos senhores da Igreja.
“A comovente celebração do natal em Greccio. Onde resulta claramente: Deus segue uma lógica diversa daquela dos homens, o seu amor renuncia a força e o domínio e se consuma no pequeno e no invisível ” restaurando a sacralidade de todos os lugares e de todos os homens.
E aproximou-se o dia da alegria, chegou o tempo (cf. Tb 13,10; Ct 2,12) da exultação. Os irmãos foram chamados de muitos lugares; homens e mulheres daquela terra, com ânimos exultantes, preparam, segundo suas possibilidades, velas e tochas para iluminar a noite que com o astro cintilante iluminou todos os dias e os anos (e os lugares e os homens). Veio finalmente o santo de Deus e, encontrando tudo preparado, viu e alegrou-se (cf. Jo 8,56). E, de fato, prepara-se o presépio, traz-se o feno, são conduzidos o boi e o burro. Ali se honra a simplicidade, se exalta a pobreza, se elogia a humildade; e de Greccio se fez como que uma nova Belém. Ilumina-se a noite como dia (cf. Sl 138,12) e torna-se deliciosa para os homens e animais. As pessoas chegam ao novo mistério e alegram-se com as novas alegrias. O bosque faz ressoar as vozes, e as rochas respondem aos que se rejubilam. Os irmãos cantam, rendendo os devidos louvores ao Senhor, e toda a noite dança de júbilo. (1 Celano XXX-85, FFC, 2004: 255-256 – grifos nossos).
Francisco é um homem que chama os homens à oração, a contemplar o mistério da total gratuidade de Deus que se doa no Filho feito pobre, humilde e sofredor para levar a todos os homens a redenção e convidando-os a uma nova perspectiva contrapondo-se à lógica da posse e do poder que havia conduzido à queda original e que ainda conduzia os homens á guerra e ao ódio entre irmãos.
Transformar Greccio em Belém é uma forma de dizer que o meu Deus único dos cristãos é dado a todos os homens e por isso, não é mais o meu Deus único, mas o nosso Deus único e santo que não conhece fronteiras, mas se revela na banalidade de todas as coisas. O “Meu Deus e tudo ” tantas vezes repetido nas orações de Francisco mostra um homem vivendo envolto em Deus e por causa de Deus submisso a todos e irmão de todos.
Toda a vida de Francisco de Assis foi marcada, segundo ele mesmo disse, pela inspiração divina, o desejo de viver uma vida de acordo com a forma do Santo Evangelho, em fraternidade e com o sentimento de Minoridade fizeram com que o pobrezinho pudesse buscar sempre um via de vencer a si mesmo, uma espécie de grande Jihad como caminho de encontro com todas as criaturas e, ao mesmo tempo, pudesse deixar aos seus frades orientações para a vida em fraternidade.
Além do Testamento Francisco ainda deixou o itinerário para a alegria verdadeira. O que vai se tornando claro é que o viver segundo o Evangelho é uma grande descoberta para Francisco que se permite ir ao encontro do outro e ao mesmo tempo vencer a si mesmo, nesta ótica o encontro com o sultão não parece ser muito diferente daquele com o leproso; o que antes causava asco se transformava em oportunidade de se encontrar com Deus.
A Perfeita alegria mostra que, no entender do jovem de Assis, não são os triunfos da Ordem que crescia assustadoramente chegando aos reis e rainhas, ao clero e tantos lugares que demonstram que eles são seguidores de Cristo, mas o aceitar a lógica da cruz. No entender de Francisco não eram os discursos e nem os milagres de Jesus que manifestavam a salvação dos homens, mas a sua entrega total e definitiva na cruz.
É importante reafirmar o conceito de letizia em latim que porta um sentimento interno de liberdade, uma liberdade marcadamente pontuada na vida de Francisco desde o momento em que se encontra com o leproso, ou seja, o encontro com o outro é possível porque o pobrezinho se sente livre diante de todas as coisas, sejam elas glórias ou infortúnios. O outro será para ele sempre uma possibilidade de encontrar Deus mesmo.
O episódio nos chega com algumas versões dentro dos escritos do primeiro século após Francisco e nos aponta a posição do pobrezinho diante dos fatos ao seu redor, como a guerra que assolava seu tempo, as crises na Igreja e na ordem fundada por ele, a busca do poder. E, diante de tais fatos ele se apresenta como um homem que queria viver segundo a forma do Santo Evangelho, pois, para ele só vivendo o Santo Evangelho seria possível alcançar a Perfeita alegria.
O mesmo [frei Leonardo] contou na mesma ocasião que, um dia o bem aventurado Francisco, em Santa Maria, chamou frei Leão e disse: “frei Leão, escreve”. E este respondeu: “já estou pronto”. “escreve - disse – o que é a perfeita alegria. Vem um mensageiro e diz que todos os mestres de Paris entraram na ordem. Escreve que isto não é a verdadeira alegria. Igualmente que entraram na ordem todos os prelados ultramontanos, arcebispos e bispos, o rei da França e o rei da Inglaterra: escreve que isto não é a verdadeira alegria. Do mesmo modo, que os meus irmãos foram para o meio dos infiéis e os converteram todos à fé, e, além disso, que eu tenho tanta graça de Deus que curo os enfermos e faço muitos milagres: digo-te que em tudo isto não está a perfeita alegria. Mas o que é a verdadeira alegria? Volto de Perugia e chego aqui na calada da noite; e é tempo de inverno, cheio de lama e tão frio que gotas de água se congelam nas extremidades da túnica e [me] batem sempre nas pernas, e o sangue jorra de tais feridas. E totalmente na lama, no frio e no gelo, chego á porta e, depois de eu ter batido e chamado por muito tempo, vem um irmão e pergunta: quem és? Eu respondo: Frei Francisco. E ele diz: vai-te embora! Não é hora descente de ficar andando; não entrarás. E, como insisto, de novo ele responde: vai-te embora! Tu és simples e idiota. De maneira alguma serás acolhido junto a nós, somos tantos e tais que não precisamos de ti. E eu novamente me colocar de pé diante da porta e digo: por amor de Deus, acolhei-me por esta noite. E ele responde: não o farei. Vai ao lugar dos crucíferos e pede lá. Digo-te se eu tiver paciência e não ficar perturbado, nisto está a verdadeira alegria e a verdadeira virtude e a salvação da alma. (A verdadeira e Perfeita Alegria, FFC, 2004: 194).
A verdadeira alegria se manifesta como uma configuração da própria vida, à vida do Cristo que se faz Menor e submisso a todos por amor ao Pai. Somente na cruz é possível ser encontrada a Perfeita alegria. Para Francisco a comunhão de destino com Cristo, o laço fiel na dor e na cruz é o verdadeiro motivo da alegria , e com esta alegria ele pode tocar os corações dos cristãos, dos hereges, dos muçulmanos, dos reis e dos papas, mas em especial o seu próprio coração, uma vez que para ele a Perfeita alegria está em não se perturbar com nada que lhe é exterior, nem glórias e nem dores, mas a comunhão com a cruz de Cristo.
Todos os eventos ao redor do pobrezinho despertam nele o sentimento de intimidade com Cristo, e mais do que o esvaziamento de Jesus, o ensinamento a frei Leão apresenta a kenosis do próprio Francisco que não encontra na glória de ser cavaleiro (sonho originário), nem nas conquistas de terras (ele havia abandonado tudo na praça de Assis), nem na conversão dos homens (um suposto pretexto para ir ao encontro do sultão) nem na paz entre os homens (ainda outro pretexto para o encontro com o sultão), mas a perfeita alegria é a capacidade de se esvaziar de tudo e por isso deixar Deus ser tudo e no tudo de Deus haverá espaço para todos os homens. A estas conclusões Francisco só poderia chegar depois de tantos encontros e desencontros no itinerário de sua vida.
Na cruz de Cristo Francisco busca a mansidão e a paz interior, e a encontrando não se faz mais necessário a guerra e nem a expansão de territórios, porque o viver agora é Cristo (Fl 1,21) e o seu Evangelho.
Ao longo da história podemos acompanhar muitas falas sobre Deus, cada uma parte de um ponto, um lugar onde se encontra o seu autor. Algumas foram confrontadas por outras e, com certeza, nenhuma delas abarca a verdade absoluta, Deus será sempre um mistério.
Contudo, toda teologia é uma antropologia no sentido que só é possível o falar de Deus a partir da experiência do humano, assim, a teologia de Francisco de Assis brotando da sua visão de homem integrado com o outro, com a natureza e consigo mesmo nos aponta pra a graça e o esvaziamento (kenosis), uma teologia sempre afinada com a visão do evangelho e do homem integrado Jesus Cristo que sendo Deus se esvaziou e se fez humano e sendo humano se fez obediente até a morte (Fl 2).
A teologia de Francisco continua plena e atual e ainda um contraponto à teologia do domínio assim como foi no século XIII continua a ser nos dias atuais.
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