25 Setembro 2026
"Falar de infância migrante no Brasil de hoje também é falar de democracia, políticas públicas e do tipo de sociedade que desejamos construir. Uma democracia não é medida somente pela existência de eleições ou instituições, mas também pela capacidade de fazer com que direitos alcancem aqueles que possuem menos poder para reivindicá-los", escreve Alan Matheus Gloss, licenciado em Filosofia pela Universidade Católica de Brasília (UCB), pesquisador nas áreas de teologia pastoral, mobilidade humana, migração e refúgio e candidato à Companhia de Jesus.
Eis o artigo.
Há crianças que aprendem cedo demais o significado de palavras que nenhuma infância deveria precisar conhecer. Fronteira. Documento. Abrigo. Refúgio. Reassentamento. Há aquelas que atravessam países segurando a mão dos pais e aquelas que chegam sem essa mão para segurar. Algumas carregam mochilas, outras, quase nada. Mudam a língua da escola, os amigos, a comida, as brincadeiras, a paisagem que enxergam pela janela. Muitas vezes, não foram elas que decidiram partir e talvez sequer compreendam inteiramente por que partiram. No entanto, sobre seus pequenos corpos recaem consequências de decisões tomadas muito longe delas: guerras, perseguições, pobreza, violência, desastres ambientais e escolhas econômicas, políticas e militares. A migração, quando alcança uma criança, nunca é apenas mudança de território. É também uma mudança no modo de habitar o mundo.
Foi para esses rostos que o Papa Leão XIV dirigiu o olhar em sua mensagem para o 112º Dia Mundial do Migrante e do Refugiado, celebrado em toda a Igreja no próximo domingo, 27 de setembro de 2026. O tema escolhido, “Mesmo uma só destas crianças” (cf. Mt 18,10), parece propositalmente pequeno diante da dimensão dos deslocamentos contemporâneos. O próprio Pontífice reconhece que milhões de crianças e adolescentes deixam todos os anos suas terras em razão de guerras, pobreza, violência, catástrofes ambientais e outras tragédias. Algumas perderam familiares e amigos, outras vivem longos períodos separadas de suas famílias, e há ainda aquelas expostas ao tráfico e à exploração, à violência sexual, ao recrutamento para conflitos armados, aos casamentos forçados e à morte nas rotas migratórias. Diante de uma realidade que poderia facilmente desaparecer sob o peso dos números, Leão XIV faz o movimento contrário: devolve-nos ao singular. Mesmo uma só. Porque “não se trata de números ou estatísticas”, cada criança possui dignidade infinita e precisa ser reconhecida antes mesmo de sua condição de migrante (LEÃO XIV, 2026).
Os números, entretanto, são necessários quando nos ajudam a perceber a dimensão daquilo que nossos olhos nem sempre alcançam. Crianças representam cerca de 40% das populações deslocadas à força no mundo, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR). No Brasil, sua presença também é expressiva: entre os reconhecimentos da condição de refugiado realizados por meio dos procedimentos simplificados do Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), aproximadamente 40% correspondem a crianças e adolescentes. Em 2024, o país registrou 68.159 novas solicitações de reconhecimento da condição de refugiado, um crescimento de 16,3% em relação ao ano anterior. Os pedidos revelam também a pluralidade dos deslocamentos que chegam ao Brasil: venezuelanos, cubanos, angolanos, indianos e vietnamitas estiveram entre as principais nacionalidades solicitantes naquele ano. Os dados ajudam a dimensionar o fenômeno, mas não podem ocupar o lugar dos rostos: toda estatística sobre migração infantil começa onde uma infância concreta foi obrigada a mudar de caminho. Entre aqueles que chegam estão infâncias latino-americanas e caribenhas, africanas, asiáticas e de outras regiões, cada qual trazendo línguas, memórias, culturas, religiões e histórias diferentes.
O próprio Leão XIV insiste que os menores estão entre as pessoas mais vulneráveis dos fluxos migratórios. A viagem pode significar exposição à violência, exploração e tráfico, separação familiar, insegurança alimentar, interrupção da escolarização e profundas marcas emocionais. Quando chegam ao destino, a travessia nem sempre terminou. Uma criança pode ter cruzado uma fronteira geográfica e continuar encontrando outras fronteiras, menos visíveis, dentro do país que a recebeu: a língua que ainda não domina, o preconceito, o racismo, a xenofobia, a pobreza, a dificuldade de acesso aos serviços públicos, o isolamento na escola e aquela fronteira talvez ainda mais dolorosa que separa quem é reconhecido como “um de nós” de quem continua sendo tratado como alguém que veio de fora.
O Brasil possui importantes instrumentos de proteção. A legislação migratória brasileira avançou ao reconhecer a migração sob a perspectiva dos direitos humanos e, nos últimos anos, políticas públicas buscaram fortalecer a integração de migrantes, refugiados e apátridas. Em abril de 2026,
por exemplo, foi lançado o Guia para Identificação, Atenção e Proteção de Crianças e Adolescentes de outros países no Brasil, elaborado pelo Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda), Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, ACNUR e UNICEF, a partir do procedimentos estabelecidos pela Resolução nº 232/2022 do Conanda. O documento procura orientar a rede brasileira especialmente diante das situações de crianças e adolescentes desacompanhados, separados de suas famílias ou indocumentados. Trata-se de um avanço necessário, porque documentação, acesso à escola, saúde, assistência social, proteção contra a violência e reunificação familiar não podem depender da nacionalidade de uma criança. Mas nenhuma lei consegue, sozinha, ensinar uma sociedade a acolher.
Por isso, falar de infância migrante no Brasil de hoje também é falar de democracia, políticas públicas e do tipo de sociedade que desejamos construir. Uma democracia não é medida somente pela existência de eleições ou instituições, mas também pela capacidade de fazer com que direitos alcancem aqueles que possuem menos poder para reivindicá-los. Uma criança migrante não deveria precisar demonstrar que merece educação, saúde, proteção ou dignidade. Esses direitos não são concessões de governos nem favores oferecidos pela população local, pertencem à própria condição humana. A Política Nacional de Migrações reconhece a integração e a participação social como responsabilidades públicas. Transformar esse reconhecimento em realidade cotidiana exige orçamento, profissionais preparados, escolas capazes de acolher diferenças linguísticas e culturais, serviços de saúde e assistência social acessíveis e, sobretudo, decisões políticas que não convertam vulnerabilidade em instrumento de disputa.
Em tempos nos quais a migração volta a aparecer, em diferentes lugares do mundo, associada ao medo, à ameaça e à construção de inimigos, proteger a infância exige também cuidar da linguagem pública. Crianças escutam aquilo que os adultos dizem sobre suas famílias. Percebem quando sua origem se transforma em motivo de desconfiança, quando seu sotaque provoca risos, quando o nome que carregam parece difícil demais para que alguém se disponha a aprendê-lo. É possível estar matriculado numa escola e continuar do lado de fora, possuir documentos e ainda não pertencer, ter formalmente os mesmos direitos e perceber, todos os dias, que alguns precisam lutar muito mais para que esses direitos sejam reconhecidos. A integração, portanto, não termina quando se entrega um documento ou se abre uma vaga escolar. Ela começa quando uma pessoa consegue imaginar que também pode construir futuro naquele lugar.
Há experiências brasileiras que apontam caminhos possíveis. A Rede Internacional Infâncias Protagonistas: Migração, Arte e Educação, criada em 2022 e sediada na Universidade de Brasília (UnB), reúne pesquisadores, professores, estudantes, crianças, famílias migrantes e refugiadas, organizações da sociedade civil e outros atores, com presença em quinze estados brasileiros e também em outros países. Seu trabalho procura desenvolver caminhos para a integração e o acolhimento efetivo e afetivo de crianças e jovens migrantes e refugiados nas escolas, mas possui um diferencial particularmente importante: reconhecer as próprias crianças como protagonistas dos processos que dizem respeito às suas vidas.
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Por meio da arte, das narrativas, de jogos teatrais, brincadeiras, músicas, contação de histórias e processos de escuta, a experiência da Rede recorda algo elementar e, ao mesmo tempo, frequentemente esquecido: crianças migrantes e refugiadas não são apenas pessoas sobre as quais precisamos falar. Elas têm algo a dizer. Podem narrar suas travessias, seus medos e alegrias, falar sobre a escola que encontraram, sobre os amigos que fizeram, sobre aquilo de que sentem saudade e sobre o país no qual agora procuram construir pertencimento. Cuidar não significa somente proteger. Cuidar também significa escutar. E uma sociedade que deseja formular políticas para a infância precisa reconhecer que nenhuma criança é somente destinatária das decisões dos adultos.
Essa passagem da proteção ao protagonismo talvez seja especialmente importante para a Igreja no Brasil neste momento. A Campanha da Fraternidade de 2027 terá como tema “Fraternidade e o cuidado das crianças” e como lema a palavra de Jesus: “Quem recebe uma criança em meu nome, a mim recebe” (Mt 18,5). A proximidade com a mensagem de Leão XIV é providencial. Enquanto o Papa pede que não deixemos desaparecer “mesmo uma só destas crianças” (cf. Mt 18,10), a Campanha da Fraternidade recordará às nossas comunidades que receber uma criança toca o próprio mistério do encontro com Cristo. Mas talvez seja necessário permitir que essa Palavra também faça perguntas às nossas estruturas pastorais: Quantas famílias migrantes e refugiadas participam de nossas paróquias? Quantas crianças migrantes e refugiadas estão em nossas turmas de catequese, nos grupos de jovens, entre os coroinhas e acólitos, nas pastorais, movimentos e comunidades? Sabemos seus nomes? Conhecemos suas histórias? Sabemos de onde vieram, que língua falam em casa, quais dificuldades encontraram para chegar até aqui? E, se essas crianças vivem em nossas cidades e bairros, estudam nas escolas próximas às nossas igrejas, mas não estão presentes em nossas comunidades, talvez seja necessário fazer uma pergunta ainda mais incômoda: por que não estão? A pergunta não é retórica.
Leão XIV afirma explicitamente que, na vida eclesial, “mesmo uma só destas crianças” deve levar o acolhimento a deixar de ser um conceito abstrato para tornar-se “uma prática pastoral constante”. O Papa adverte que essa responsabilidade não pode ser simplesmente delegada às instituições especializadas em migração. Toda comunidade cristã é chamada a aproximar-se das histórias concretas dessas crianças e a reconhecer refugiados e migrantes como membros de pleno direito da família eclesial, superando a lógica do mero assistencialismo (LEÃO XIV, 2026).
Talvez aí esteja uma provocação importante para a Igreja que se prepara para viver a Campanha da Fraternidade de 2027. Não basta falar das crianças; será preciso perguntar quais crianças conseguimos enxergar. Uma comunidade pode organizar campanhas de arrecadação, distribuir alimentos e roupas e, ainda assim, nunca ter convidado uma família migrante a sentar-se à mesa onde são tomadas as decisões pastorais. Pode ajudar uma criança com material escolar e nunca perguntar se ela gostaria de participar da catequese. Pode oferecer assistência e ainda continuar tratando quem chega como visitante permanente. O Evangelho aponta para algo mais profundo: não apenas ajudar quem chegou, mas permitir que quem chegou também possa dizer “esta é a minha comunidade”.
É significativo que o Papa conclua sua mensagem recordando outra criança migrante. Jesus, Maria e José conheceram a violência de Herodes e o exílio no Egito (cf. Mt 2,13-15). A Sagrada Família conheceu a experiência de deixar a própria terra para preservar a vida. Essa memória não permite transformar a migração em ideia distante da experiência cristã. No centro da nossa fé existe também a memória de uma criança ameaçada, protegida por sua família e levada para outra terra.
Talvez seja por isso que Jesus tenha colocado uma criança no meio dos discípulos (cf. Mt 18,1-5). Não para romantizar a infância, mas para deslocar o nosso olhar. Quem normalmente permanece nas margens é colocado no centro. Quem possui menos poder torna-se critério para avaliar nossas relações. E é precisamente aí que a mensagem deste 112º Dia Mundial do Migrante e do Refugiado encontra a Campanha da Fraternidade que se aproxima: não desprezar, acolher, proteger e escutar.
Diante das grandes crises migratórias do nosso tempo, poderíamos imaginar que nossa responsabilidade começa diante dos milhões. O Evangelho escolhe outra medida. Mesmo uma só destas crianças. Uma criança que consiga voltar a brincar sem medo, estudar sem ser humilhada, falar sua língua sem sentir-se envergonhada, guardar a memória do lugar de onde veio sem precisar esconder suas raízes e, ao mesmo tempo, sentir que pode criar novas raízes onde chegou. Uma criança que encontre na escola, na cidade e também na comunidade cristã pessoas capazes de chamá-la pelo nome.
Quando isso acontecer, perceberemos um dos sinais mais concretos de que a fraternidade deixou de ser apenas uma palavra e começou a tomar a forma do Reino entre nós. E talvez seja assim também que se reconheça uma Igreja que compreendeu o Evangelho: quando nenhuma criança precisa deixar do lado de fora de nossas portas uma parte de si para poder entrar.
Referências
ACNUR – AGÊNCIA DA ONU PARA REFUGIADOS. Lançado o guia para proteção de crianças e adolescentes refugiadas e migrantes no Brasil. Brasília, 15 abr. 2026.
BRASIL. Decreto nº 12.G57, de 7 de outubro de 2025. Institui a Política Nacional de Migrações, Refúgio e Apatridia. Brasília, DF, 2025.
CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL – CNBB. Campanha da Fraternidade 2027: Fraternidade e o cuidado das crianças. Brasília: CNBB, 2026.
CONSELHO NACIONAL DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE – CONANDA; MINISTÉRIO DOS DIREITOS HUMANOS E DA CIDADANIA; ACNUR – AGÊNCIA DA ONU PARA REFUGIADOS; UNICEF. Guia para Identificação, Atenção e Proteção de Crianças e Adolescentes de outros países no Brasil. Brasília, 2026.
LEÃO XIV. Mensagem por ocasião do 112º Dia Mundial do Migrante e do Refugiado: “Mesmo uma só destas crianças”. Vaticano, 11 ago. 2026.
REDE INTERNACIONAL INFÂNCIAS PROTAGONISTAS. Migração, Arte e Educação. Brasília: Universidade de Brasília, [s.d.].
SILVA, Gustavo Junger da; CAVALCANTI, Leonardo; OLIVEIRA, Antônio Tadeu Ribeiro de (org.). Refúgio em Números. 10. ed. Brasília: OBMigra; Ministério da Justiça e Segurança Pública, 2025.
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