23 Setembro 2026
“Os oceanos não são os mesmos de anos atrás. Eles mudaram, e muito. Por exemplo, as “zonas mortas oceânicas” – ou seja, áreas com pouco ou nenhum oxigênio – aumentaram em mais de 300%, passando de 150 locais em 2000 para mais de 500 em 2026”. A reflexão é de Robert Hunziker, publicada por CounterPunch.org e reproduzida por Voces del Mundo, 20-09-2026. A tradução é do Cepat.
Robert Hunziker, mestre em História Econômica pela Universidade DePaul (Chicago, EUA), é escritor freelancer e jornalista ambiental. Seus artigos foram traduzidos para diversos idiomas e publicados em mais de 50 jornais, revistas e sites em todo o mundo.
Eis o artigo.
Os oceanos não são os mesmos de anos atrás. Eles mudaram, e muito. Por exemplo, as “zonas mortas oceânicas” – ou seja, áreas com pouco ou nenhum oxigênio – aumentaram em mais de 300%, passando de 150 locais em 2000 para mais de 500 em 2026.
“A ciência é clara: as mudanças climáticas estão transformando os oceanos”. (Blue Whales Are Going Silent. Scientists Warn It’s a Cry for Help – As baleias-azuis estão ficando silenciosas. Os cientistas alertam que é um pedido de socorro, 25-08-2025, Earth.org)
De acordo com o Instituto Scripps de Oceanografia, os oceanos absorveram 90% do excesso de calor da Terra desde 1970, salvando a humanidade de si mesma. Sem os oceanos, essa quantidade de calor cozinharia a população viva. Scripps cita um estudo alarmante: “A energia térmica absorvida pelos 2 mil metros superiores do oceano entre 1955 e 2010 teria aquecido a atmosfera terrestre em 36°C, em vez dos atuais 1,5°C acima dos níveis pré-industriais”. Isso é letal!
“Os biólogos marinhos que acompanham as tendências atuais estão observando um paralelo assustador com o passado da Terra. Os estudos que analisaram o evento de extinção em massa do Permiano-Triássico (que dizimou 96% das espécies marinhas há 252 milhões de anos) confirmaram que o principal fator foi a intolerância metabólica ao aquecimento e à depleção de oxigênio nas águas – as mesmas condições que as mudanças climáticas causadas pelo homem estão impondo aos oceanos atualmente”. (Scientists Finally Solved the Mystery of Earth’s Greatest Mass Extinction – Os cientistas finalmente desvendaram o mistério da maior extinção em massa da Terra, ScienceDaily, 12-07-2026)
As baleias azuis pedem socorro
E quanto às baleias azuis que estão “pedindo socorro”, como menciona o Earth.org? Na verdade, existem projetos em andamento para ajudá-las. Além dos negacionistas climáticos de direita, como o governo federal dos EUA, o mundo – especialmente a China – está tão ocupado quanto as abelhas instalando freneticamente energia renovável para combater um sistema climático que está revidando contra aqueles que o causaram. Consequentemente, as emissões de CO₂ diminuíram, mas ainda estão aumentando, e cada fração delas aquece ainda mais o planeta.
As pessoas bem informadas que não têm medo de se manifestar acreditam que resta pouco tempo, talvez até de menos, para fazer algo construtivo, supondo que ainda não seja tarde demais. Alguns cientistas acreditam que já seja tarde demais. Mas, vamos lá, ninguém quer acreditar que é tarde demais ou admitir isso. Ainda assim, alguns acreditam. A única maneira segura de nos salvarmos é remover o CO₂ que já está no ar. Mas a tecnologia para fazer isso é pouco eficiente ou inadequada.
Entretanto, em consonância com o período Permiano-Triássico: “As ondas de calor marinhas estão se tornando mais frequentes, mais duradouras e mais intensas. Sua duração média triplicou desde a década de 1940, e alguns episódios causaram picos de temperatura oceânica de até 5°C, de acordo com um estudo de abril (Nota do editor: essa é a temperatura na qual a vida marinha não consegue sobreviver, o que levou à morte de 30 mil peixes na costa da Austrália). Esses eventos extremos se propagam por toda a cadeia alimentar, do plâncton aos predadores... Se as baleias, capazes de viajar milhares de quilômetros, continuam a ter dificuldades para encontrar alimento, é um sinal de uma perturbação em grande escala”, ibid.
Em relação às temperaturas da água em alto-mar durante a mortandade de peixes na Austrália em 2025, o ABC.net.au/news relata: “As temperaturas da superfície do mar estavam de 4 a 5 graus Celsius acima da média de longo prazo na biorregião da Costa Norte e de 2 a 3°C mais altas na biorregião de Gascoyne.”
Asfixia
Para cada aumento de 1°C na temperatura da água, há uma redução de 2% no oxigênio dissolvido. Um aumento de 5°C é devastador porque o metabolismo de animais marinhos de sangue frio acelera com o aumento da temperatura, o que significa que eles precisam de mais oxigênio para sobreviver justamente quando ele está menos disponível. Isso leva à formação de zonas mortas hipóxicas. De acordo com a ONU, “as zonas hipóxicas (ou mortas), onde os níveis de oxigênio são tão baixos que a maioria da vida marinha não consegue sobreviver, cobrem atualmente 4,5 milhões de km²”, uma área equivalente ao tamanho do Sudeste Asiático.
As baleias-cinzentas estão morrendo de fome
“Houve um ‘declínio total e um colapso reprodutivo’”, diz Steven Swartz, codiretor e cientista sênior do Gray Whale Research in Mexico Program (Programa de Pesquisa de Baleias-cinzentas no México). As carcaças de baleias que agora aparecem na costa oeste oferecem pistas sobre o porquê: muitas estavam emaciadas, a ponto de um cientista as descrever como “um saco de ossos”. (Gray Whales are Washing um Dead on the Coast. The Reason is Alarming – As baleias-cinzentas estão aparecendo mortas na costa oeste. O motivo é alarmante, Scientific American, 9-09-2026.)
Este ano, 187 baleias-cinzentas foram encontradas mortas na costa oeste, do México ao Alasca. Até muito recentemente, a baleia-cinzenta era um exemplo de recuperação, com sua população se recuperando da beira da extinção. Em 2016, o número de baleias chegou a 27 mil, mas em 2025 esse número havia despencado para 13 mil. Esses gigantes podem atingir 15 metros de comprimento e pesar 41 mil quilos, o equivalente a meia dúzia de elefantes.
A população de baleias-cinzentas está sujeita a aumentos e diminuições que seguem um padrão rítmico ao longo de décadas: em certos momentos, chega a quase 30 mil indivíduos, para depois cair para 13 mil e, em seguida, subir novamente para 18 mil; no entanto, de acordo com cientistas marinhos, a tendência de queda é preocupantemente acentuada. Após anos de estudo das carcaças, está cada vez mais claro que a mudança climática, ao alterar o meio ambiente, é a grande responsável por tudo isso.
Aparentemente, as mudanças climáticas erráticas assumiram o controle das espécies do planeta, decidindo se elas vivem ou morrem.
Por exemplo, a dieta da baleia-cinzenta depende do gelo marinho do Ártico e das algas que crescem sob ele. À medida que as algas morrem e afundam no fundo do mar, os crustáceos se alimentam delas e crescem, fornecendo, em última análise, alimento abundante para as baleias-cinzentas. Mas as mudanças climáticas derreteram o gelo marinho do Ártico muito mais cedo do que o normal e a uma velocidade sem precedentes, perturbando a cadeia alimentar das baleias-cinzentas.
Um estudo publicado no ICES Journal of Marine Science em novembro de 2025, intitulado What Gray Whales are Telling us About Ecosystem Change in the Pacific Arctic (O que as baleias-cinzentas nos dizem sobre as mudanças no ecossistema do Ártico Pacífico), de J. D. Stewart et al., examinou décadas de mortes de baleias-cinzentas e a biomassa de crustáceos do Ártico e descobriu que a saúde tanto das baleias-cinzentas quanto dos crustáceos flutua em perfeita sincronia.
Sem chance de recuperação
A situação se deteriorou; é completamente diferente dos anos anteriores, com seus altos e baixos, de acordo com Joshua Stewart, coautor do mencionado estudo e professor adjunto do Instituto de Mamíferos Marinhos da Universidade Estadual do Oregon: “Não estamos vendo nenhum sinal de que a população esteja se recuperando tão rapidamente quanto antes. Essencialmente, o ecossistema não consegue mais sustentar tantas baleias-cinzentas como antes. Consequentemente, as baleias estão morrendo de fome”, diz Stewart.
Além disso, e ainda pior, os nascimentos estão sendo severamente afetados. Estima-se que 85 filhotes nasceram em 2025, em comparação com 1.600 em 2014. “O desafio aqui é que a alavanca que precisamos acionar é a de desacelerar ou reverter as mudanças climáticas”, diz Stewart. “É algo que sabemos que precisamos fazer, mas ainda não estamos fazendo”.
Crise na base da cadeia alimentar (de importância singular)
“No abraço gélido da Antártida, uma tragédia invisível se desenrola, e apenas algumas vozes ousam reconhecer sua realidade arrepiante. No centro desse desastre iminente está uma criatura minúscula, mas vital: o krill antártico. Esses crustáceos semelhantes a camarões não são apenas um banquete para baleias, focas, pinguins e aves marinhas; eles são a peça-chave de toda a cadeia alimentar antártica, a própria essência da vida que nutre os maiores animais do nosso planeta. No entanto, nuvens escuras se acumulam sobre o Oceano Antártico à medida que os arrastões industriais avançam com ganância voraz, deixando o mar vazio. Eles capturam centenas de milhares de toneladas de krill a cada ano, transformando essas criaturas vitais em ração para salmão de cultivo e suplementos para o consumo humano”. (Operation “Krill Wars”, Fundação Capitão Paul Watson.)
(Ver também: Defensor do krill preso por Moscou)
KRON4 News, San Francisco, 10-09-2026: “A costa da Califórnia está enfrentando duas graves emergências ambientais simultaneamente: os leões-marinhos morrem devido às toxinas produzidas pela proliferação de algas, e aves marinhas passam fome por falta de peixes, segundo equipes de resgate de fauna marinha”.
Santa Cruz – Native Animal Rescue (NAR): Estamos testemunhando “um alarmante aumento de araus-comuns fracos e emaciados sendo encontrados nas praias”, ibid. Os araus-comuns são aves marinhas pelágicas de mar aberto. São mergulhadores excepcionais. O fato de aves exaustas e debilitadas estarem sendo encontradas na costa significa que suas presas se tornaram menos acessíveis. Estão morrendo de fome.
World Weather Attribution.org: “As temperaturas da superfície do mar (TSM) extremamente altas e ondas de calor marinhas têm consequências devastadoras para os ecossistemas marinhos, desencadeando eventos de mortalidade em massa de espécies formadoras de habitat, como corais, esponjas e macroalgas. A perda dessas espécies-chave afeta a estrutura e a função de todo o ecossistema. Os eventos de mortalidade em massa causados pelo calor extremo podem, portanto, desencadear eventos de mortalidade em massa em níveis tróficos inferiores da cadeia alimentar, impactando invertebrados, peixes, aves marinhas e mamíferos marinhos”. É o que parece estar acontecendo.
De acordo com o Los Angeles Times de 03-10-2025: os mamíferos marinhos estão morrendo em números recordes ao longo da costa da Califórnia.
De acordo com a Australian Marine Conservation Society: “A mortandade em massa de peixes ao longo da costa de Pilbara, na Austrália Ocidental, desencadeada por uma onda de calor marinha, demonstra o quão reais e devastadores podem ser os efeitos das mudanças climáticas. Mais de 30 mil peixes foram encontrados mortos na praia de Gnoorea… É óbvio que lançar ainda mais projetos de petróleo e gás é o cúmulo da irresponsabilidade quando estamos testemunhando mortandades em massa de peixes, branqueamento de corais e impactos em cascata nas comunidades costeiras”.
No Sudeste Asiático, um estudo detalhado publicado em meados de 2026 revelou uma tendência de longo prazo de aumento na mortalidade de baleias e golfinhos em águas tailandesas, especialmente na parte superior do Golfo da Tailândia. A pesquisa relacionou essas mortes a mudanças ambientais extremas.
Fazenda de peixes húngara afetada pelo calor
No verão passado, centenas de toneladas de peixes morreram em uma das maiores fazendas de peixes da Hungria. O proprietário disse à Euronews que, devido à recente onda de calor extremo na Europa, as águas rasas aqueceram rapidamente, levando à morte de entre 300 e 350 toneladas de peixes.
Onda de calor destrói fazenda de peixes coreana
De acordo com o Tech Times, de 10-08-2026: “Uma onda de calor marinha em Pohang, Coreia do Sul, provocou a morte de 810 mil peixes de cultivo em 27 instalações de aquicultura – três vezes o número relatado anteriormente – e as medidas que o governo coreano implementou para estancar a sangria não conseguem fazer a única coisa que realmente salvaria os peixes restantes: baixar a temperatura da água”.
No entanto, a civilização tem dependido da aquicultura para complementar, senão substituir, a enorme perda de vida marinha nos oceanos, “como revela um estudo de 2026 publicado na Nature Ecology & Evolution, que mostra que as populações de peixes podem diminuir em até 19,8% em um único ano devido ao aquecimento crônico, enquanto as águas do mundo estão se tornando rapidamente pobres em oxigênio” (Scripps Institution of Oceanography).
A vingança
De acordo com a Forbes (“o instrumento capitalista”), 09-07-2026, Why A Record-Hot Ocean Is Supercharging The El Niño Effect (Por que um oceano com temperatura recorde está potencializando o efeito El Niño): “O mar tem pago silenciosamente nossas dívidas. Agora está exigindo o que lhe é devido. Durante décadas, o oceano absorveu o calor que não podíamos ver e não pediu nada em troca. Isso nunca foi um presente. Foi um alívio”.
“O calor recorde registrado no oceano neste verão está esgotando essa janela de oportunidade. Isso se manifesta na forma de um fenômeno El Niño cada vez mais intenso, chuvas de outono mais torrenciais e secas mais severas, recifes branqueados, peixes deslocados e um calor recorde que provavelmente será superado no próximo ano, e não neste. Não podemos resfriar o oceano ignorando o problema. E não podemos pedir que ele suporte mais do que já suporta... O oceano nos deu um prazo. O que fizermos agora determinará se esse tempo foi desperdiçado”, ibid.
O que fazer?
Será que a Conferência das Partes (COP31) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, com 193 países e entre 30 mil e 40 mil participantes, de 9 a 20 de novembro de 2026, em Antalya, Turquia, abordará efetivamente o problema insolúvel das emissões de CO₂ causado pela atividade humana, eliminando o caráter voluntário das Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) para a redução das emissões de CO₂ por meio da adoção de mecanismos robustos de fiscalização, ou permitirá que a inércia continue?
A pergunta, “quando será tarde demais?”, paira no ar como uma sombra sinistra.
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