23 Setembro 2026
"Ludmila foi presbítera. Foi-o de verdade. Lembrar disso significa fazer memória de um sinal profético que convoca o direito canônico a repensar a ministerialidade a partir do princípio da igualdade batismal."
O artigo é de Luigi Mariano Guzzo, professor associado de Direito Canônico e Direito e Religião na Universidade de Pisa, publicado por SettimanaNews, 19-09-2026.
Eis o artigo.
Do blog do teólogo Andrea Grillo, fico sabendo da morte de Ludmila Javorová.
Vem-me imediatamente à mente o belíssimo livro através do qual conheci essa história: Dal profondo. La storia di Ludmila Javorová ordinata sacerdote nella Chiesa cattolica romana [Do fundo. A história de Ludmila Javorová ordenada sacerdote na Igreja Católica Romana], de Miriam Therese Winter (Edizioni Appunti di Viaggio, Roma, 2004). Assim como a publicação mais recente da editora Effatà, que traduziu para o italiano o livro de Zdeněk Jančařík: Ludmila Javorová. Sacerdote nella Chiesa del silenzio [Sacerdote na Igreja do silêncio] (2022).
Ao apresentar essa segunda publicação, as teólogas Marinella Perroni e Cristina Simonelli fazem referência a uma dupla espiral de "silêncio": a da situação de clandestinidade da Igreja tchecoslovaca, superada com a queda do Muro de Berlim (cf. SettimanaNews), e a da condição das mulheres no interior dessa experiência eclesial, que – escrevem – "continua implacável" e é o reflexo, infelizmente, da condição que as mulheres vivem na Igreja, em toda latitude. Diante desse silêncio, Ludmila é uma mulher "desarmante", como destacam ainda Perroni e Simonelli, a partir justamente de sua trajetória pessoal.
Voltemos um passo atrás. A história se situa nos anos da dura repressão do regime comunista na Tchecoslováquia, quando a chamada "Igreja do silêncio" atuava na clandestinidade para garantir a continuidade dos sacramentos e a assistência espiritual aos fiéis.
Em 1970, em pleno andamento da experiência sinodal de Kobeřice, denominada "Concílio do Povo de Deus", dom Felix Maria Davídek amadurece a decisão de ordenar presbíteras algumas mulheres. Consciente das necessidades pastorais urgentes da comunidade, Davídek sustenta com paixão que a vida e as exigências do povo de Deus têm precedência sobre todo código e disciplina canônica.
A assembleia sinodal se divide sobre esse ponto, quase ao meio. Mas o bispo Davídek considera, ainda assim, que não há impedimentos para ordenar algumas mulheres. Entre elas, impõe as mãos sobre Ludmila. Outras mulheres serão ordenadas, e outros bispos seguirão esse exemplo. Mas quando, nos anos 1990, a autoridade eclesiástica intervém sobre as ordenações clandestinas tchecoslovacas, dispõe para os homens caminhos de regularização "sob condição", enquanto para as mulheres reafirma peremptoriamente a doutrina tradicional sobre a invalidade das ordenações.
Ludmila aceita a decisão vaticana. Ainda assim, em seu coração, continua a sentir a dinâmica de uma vocação sufocada pela hierarquia eclesiástica.
Creio que a história de Ludmila, junto com a das outras mulheres presbíteras da Igreja do silêncio, tem um significado importante, que não pode passar despercebido, tanto no plano teológico quanto no canônico; sobretudo em relação a um direito, o canônico, que hoje, com a revisão do direito penal, codifica o delito de tentativa de ordenação feminina, punido com a excomunhão. Sobre esses temas, remeto ao meu livro Eguaglianza battesimale e diseguaglianza ministeriale [Igualdade batismal e desigualdade ministerial] (2026).
Aqui basta lembrar que, no ordenamento canônico, a capacidade radical e primária de acesso aos sacramentos deriva do batismo, que constitui a igualdade fundamental de todos os fiéis na dignidade e na ação. Trata-se de um dado adquirido com o Concílio Vaticano II.
Por conseguinte, na atribuição da ordem sacra, a ausência do batismo acarreta uma invalidade ontológica, enraizada na própria natureza do ato. O mesmo não se pode dizer da ausência do requisito do sexo masculino, que representa uma proibição estabelecida pelo legislador por motivos históricos, antropológicos e culturais.
A persistência de argumentos remetidos à constituição divina da Igreja, ou seja, de direito divino, é simplesmente um dispositivo de bloqueio à possibilidade de uma reforma dos ministérios eclesiais, que pode ser superado com razões teológicas adequadas, como destaca Grillo em seus estudos.
Desse ponto de vista, a ordenação de uma mulher batizada, como Ludmila Javorová, não se reduz, portanto, a uma simples ficção ou a uma "peça teatral", mas representa um evento real, situado na história, que gera relações eclesiais autênticas. Um ato que produz efeitos jurídicos. O próprio fato de a autoridade eclesiástica ter intervindo com medidas formais para declarar sua invalidade demonstrou que aquele ato ritual existiu e produziu um impacto concreto na comunidade.
Ludmila foi presbítera. Foi-o de verdade. Lembrar disso significa fazer memória de um sinal profético que convoca o direito canônico a repensar a ministerialidade a partir do princípio da igualdade batismal. Uma reforma que não pode mais ser adiada.
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