Flávio ou o mito de um “Bolsonaro moderado”. Artigo de Isabela Kalil

Foto: Maura Martins/TV Brasil

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15 Setembro 2026

O candidato presidencial da direita brasileira busca herdar o eleitorado de seu pai Jair sem repetir os ataques frontais às instituições que o levaram à prisão. Construiu uma imagem de Bolsonaro "vacinado", familiar, negociador. Escolhido por eliminação entre os filhos homens, e pela exclusão de Michelle Bolsonaro, tentará vencer Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições de outubro próximo.

O artigo é de Isabela Kalil, publicado por Nueva Sociedad, setembro de 2026.

Isabela Kalil é antropóloga, doutora pela Universidade de São Paulo (USP) e coordenadora do Núcleo de Etnografia Urbana da Fundação Escola Paulista de Sociologia e Política (NEU-FESPSP), onde pesquisa a extrema-direita brasileira há anos. Coordenou o estudo "Democracia Sitiada e Extremismo no Brasil: 18 Meses de Protestos Bolsonaro" (NEU-FESPSP).

Eis o artigo.

Na avenida principal de São Paulo, uma multidão esperava, sob a chuva, o início do ato de 7 de setembro. Bandeiras brasileiras se misturavam com as dos Estados Unidos e com cartazes em inglês nos quais se pedia a Donald Trump que interviesse nas eleições do Brasil. Sobre a multidão, um boneco inflável gigante representava o presidente americano com o braço erguido, segurando uma caricatura de Luiz Inácio Lula da Silva com uniforme de presidiário. Na própria celebração da independência brasileira, parte dos manifestantes reclamava a intervenção dos Estados Unidos na política nacional.

Não era a primeira vez que o 7 de setembro servia de palco ao bolsonarismo. Durante o governo de Jair Bolsonaro, essa data se converteu numa de suas principais demonstrações de força. Nas manifestações de 2021, o então presidente anunciou que deixaria de acatar as decisões judiciais. A ofensiva contra as instituições continuou durante seu mandato e alcançou sua forma mais violenta após a derrota eleitoral. Em 8 de janeiro de 2023, seus seguidores invadiram as sedes dos três poderes numa tentativa de golpe de Estado. Condenado e preso por sua participação na trama golpista, Jair Bolsonaro já não podia ocupar seu lugar diante da multidão.

Em 7 de setembro de 2026, esse lugar foi ocupado por Flávio Bolsonaro, senador pelo Rio de Janeiro e candidato escolhido para suceder o pai na disputa presidencial. Aos 45 anos, Bolsonaro filho precisava herdar os eleitores de Jair e assumir sua posição na tribuna. Antes do discurso, seus advogados recomendaram que evitasse ataques contra o sistema eleitoral e as instituições, ameaças às autoridades e referências a rupturas institucionais, como as que seu pai costumava fazer. Flávio tinha motivos jurídicos para medir suas palavras.

Formado em Direito, Flávio Bolsonaro havia se incorporado à equipe jurídica do pai em março daquele ano. Conhecia, portanto, as consequências jurídicas que certas declarações poderiam acarretar. Foi justamente um discurso contra o sistema eleitoral, pronunciado diante de embaixadores estrangeiros e transmitido por canais oficiais, um dos fatos centrais que provocou a inabilitação de seu pai. Mas o candidato não podia abandonar por completo a retórica de confronto que mobilizava a base bolsonarista. Se moderasse demais o discurso, poderia ser acusado de trair o legado do pai. Se repetisse seus ataques contra as autoridades e o sistema eleitoral, poderia colocar em risco sua própria candidatura.

A tensão daquele 7 de setembro sintetizava a posição de Flávio Bolsonaro na campanha presidencial. Diante de seus seguidores nas ruas, tinha que demonstrar que era capaz de ocupar o lugar de Jair e estar à altura das expectativas de confronto com as instituições, ao mesmo tempo em que se apresentava como o Bolsonaro "moderado", capaz de negociar com empresários, políticos e partidos. Essa imagem não surgiu com a campanha, mas foi sendo construída ao longo de mais de duas décadas de vida política. Para entender por que Flávio foi escolhido como possível herdeiro e o que essa escolha revela sobre a reorganização da direita brasileira, é preciso voltar ao Rio de Janeiro.

O filho mais velho

Diferentemente do pai, que chegou à política depois de uma carreira militar, Flávio cresceu enquanto a política se convertia numa profissão familiar. Em 2000, aos 19 anos, recebeu do pai a proposta de se candidatar nas eleições municipais do Rio de Janeiro para enfrentar sua própria mãe. Rogéria Bolsonaro, primeira esposa de Jair e mãe de seus três filhos mais velhos, tentava a reeleição como vereadora.

Depois da separação, Jair quis impedir que ela usasse o sobrenome Bolsonaro na campanha. Como não conseguiu, decidiu enfrentá-la nas urnas por meio do filho. A primeira opção foi Flávio, que se recusou. A tarefa recaiu então sobre o irmão Carlos, que na época tinha 17 anos. Este foi eleito, tomou posse aos 18 anos, e Rogéria não conseguiu a reeleição.

A recusa em se candidatar contra a própria mãe não demonstra necessariamente independência em relação ao pai, mas antecipa uma diferença em relação aos irmãos. Recorrendo a uma linguagem militar, Jair chama seus filhos homens por números, segundo a ordem de nascimento. Carlos, apelidado "zero dois", iniciou-se na política por meio dessa disputa com a mãe e construiu sua trajetória pessoal e política como o filho mais próximo de Jair. Eduardo, o "zero três", entrou na política mais tarde, ao ser eleito deputado federal por São Paulo em 2014, mas rapidamente passou a ocupar o posto de herdeiro ideológico do pai. Jair Renan, o "zero quatro", tornou-se o último dos filhos adultos a entrar na política, ao ser eleito vereador em Balneário Camboriú em 2024. Já Flávio, o "zero um", construiria uma posição diferente dentro da família. Não era tão próximo do pai quanto Carlos, nem compartilhava tanto a radicalização ideológica de Eduardo.

Enquanto cursava Direito na Universidade Candido Mendes, Flávio foi eleito, em 2002, aos 21 anos, deputado estadual da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Tomou posse do cargo no ano seguinte. Carlos permanecia como vereador, e Jair, na Câmara dos Deputados. A partir de 2003, portanto, a família passou a ocupar simultaneamente três níveis do Poder Legislativo: o municipal, o estadual e o federal, todos coordenados a partir do Rio de Janeiro. Mais tarde, Eduardo e Jair Renan ampliariam a presença eleitoral da família para além do estado, ao serem eleitos, respectivamente, em São Paulo e em Santa Catarina.

O número de votos de Flávio aumentou ao longo de seus quatro mandatos como deputado estadual. Em 2002, obteve pouco mais de 30 mil. Nas eleições de 2014, chegou a 160 mil. Dois anos depois, candidatou-se à Prefeitura do Rio e obteve 424 mil votos, o que equivalia a 14% dos votos válidos, ficando em quarto lugar. Esses números indicavam que o sobrenome Bolsonaro já mobilizava uma parte relevante do eleitorado carioca mesmo antes da campanha presidencial de 2018. Na Assembleia estadual, Flávio desenvolveu uma atuação legislativa centrada na segurança pública. Presidiu a comissão dedicada a esse tema e atuou como porta-voz dos profissionais do setor: defendeu salários e benefícios de policiais, bombeiros e agentes penitenciários. Seu trabalho o aproximou de quartéis e delegacias, que constituiriam uma parte importante de sua base política.

A defesa desse setor vinha acompanhada de uma concepção punitivista da segurança pública. Flávio apoiava penas mais duras, a flexibilização do acesso a armas de fogo pela população e operações policiais com veículos blindados nas favelas. Também se opôs às cotas raciais e às políticas de gênero e sexualidade, e defendeu a ditadura militar (1964-1985). A distância ideológica em relação ao pai era mínima; a diferença estava sobretudo na forma de atuar. Enquanto Jair usava seu mandato na Câmara dos Deputados para dar projeção nacional a seus discursos e confrontos, Flávio incorporava, com menor exposição pública, parte desse mesmo repertório ao seu trabalho legislativo e ao estabelecimento de vínculos com as forças de segurança do Rio de Janeiro.

Esses vínculos se tornaram mais problemáticos à medida que as milícias ganhavam mais poder no Rio. Formados inicialmente por policiais e outros agentes armados, esses grupos controlam territórios e se impõem como fornecedores forçados de serviços (como transporte, gás ou TV a cabo) por meio da extorsão e da violência. Em 2007, Flávio defendeu publicamente a legalização das milícias. No ano seguinte, votou contra a criação de uma comissão parlamentar para investigá-las e voltou a defender na Assembleia a atuação de alguns desses grupos. Além dessas críticas, Flávio também enfrentou suspeitas relacionadas ao funcionamento de seu gabinete parlamentar. O caso envolveu Fabrício Queiroz, policial militar e funcionário sob suas ordens por mais de dez anos. Em 2018, as movimentações bancárias de Queiroz deram origem à suspeita de "rachadinha", prática na qual funcionários públicos nomeados por um político lhe devolvem parte do salário em troca da nomeação. Flávio foi denunciado pelo Ministério Público em 2020, mas o caso não chegou a ser julgado no mérito por questões processuais. Flávio sempre negou as acusações.

Ao deixar a Assembleia estadual para assumir seu mandato no Senado, em 2019, Flávio completava quatro mandatos e 16 anos como deputado estadual. Nesse período, apresentou 208 propostas legislativas, das quais 51 se tornaram lei. Entre as medidas aprovadas estavam benefícios para os agentes de segurança e multas por trotes aos serviços de emergência. Ao final dessa trajetória, Flávio havia consolidado sua própria base no Rio de Janeiro e aprendido a se movimentar dentro das instituições, sem por isso se afastar das posições políticas que compartilhava com o pai.

O articulador no Senado e o gestor das crises familiares

As eleições de 2018 deram uma dimensão nacional à carreira de Flávio. Obteve mais de 4,3 milhões de votos e foi o candidato mais votado na disputa pelo Senado no Rio de Janeiro. O resultado não pode ser separado da candidatura presidencial de Jair. Pai e filho concorreram pelo Partido Social Liberal (PSL) e foram impulsionados pela mesma onda eleitoral que levou Jair à Presidência. Sua chegada ao Senado, porém, também diferenciou Flávio de seus irmãos. Carlos permanecia na política municipal do Rio e se encarregava de mobilizar a base digital do pai. Eduardo ocupava uma cadeira na Câmara dos Deputados e começaria a ganhar protagonismo nos círculos internacionais da direita, especialmente por meio de suas relações com o trumpismo nos Estados Unidos. Já Flávio adotou no Senado uma postura mais discreta, atuando na coordenação política do Congresso com o governo do pai.

Mas essa capacidade de negociação não significava que sua agenda fosse necessariamente moderada. Suas propostas se concentraram novamente no âmbito da segurança pública, com projetos que incluíam a defesa da redução da maioridade penal e iniciativas para ampliar o porte de armas. Mas até maio de 2026, nenhum projeto de sua autoria exclusiva havia se tornado lei. Sua atuação no Senado teve resultados mais visíveis nos relatórios legislativos e nas comissões. Em 2024, foi relator do projeto de lei que restringiu as saídas temporárias de presos e que acabou se tornando lei. No ano seguinte, foi eleito presidente da Comissão de Segurança Pública e anunciou como prioridades estabelecer normas mais rígidas para as audiências de custódia (o procedimento judicial que revisa toda prisão dentro de 24 horas) e promover o endurecimento da legislação penal.

No entanto, durante seu mandato, sua atuação mais visível se deu na defesa da família, nesse caso, a sua própria. Na comissão parlamentar que investigou a gestão da pandemia, acompanhou os depoimentos e interveio quando as perguntas se concentravam na atuação de Jair Bolsonaro durante a crise. O governo de seu pai havia resistido às medidas de distanciamento, havia defendido tratamentos sem eficácia comprovada e havia colocado em dúvida a vacinação.

O relatório final da comissão recomendou o indiciamento de Jair por nove crimes: epidemia com resultado morte, infração de medida sanitária preventiva, charlatanismo, incitação ao crime, falsificação de documento particular, emprego irregular de verbas públicas, prevaricação, crimes contra a humanidade e crimes de responsabilidade. No caso de Flávio, a comissão recomendou seu indiciamento por incitação ao crime, devido à disseminação de informações falsas sobre a pandemia.

Em 2022, Flávio participou da campanha de reeleição do pai. Após a derrota, publicou nas redes sociais uma mensagem na qual evitava tanto as denúncias de fraude quanto o reconhecimento da vitória de Lula da Silva, enquanto o pai guardava silêncio público. Um padrão semelhante se repetiu após o 8 de janeiro. Na comissão parlamentar que investigou os ataques às instituições em Brasília, Flávio apoiou o relatório alternativo apresentado pela oposição, que rejeitava a qualificação dos fatos como tentativa de golpe de Estado e atribuía a responsabilidade por eles a Lula, chegando a solicitar seu indiciamento. Mais tarde, Flávio passou a defender abertamente a anistia para Jair e para os condenados pelos fatos do 8 de janeiro. O padrão consistia em isentar a família de toda responsabilidade pelos episódios mais graves e oferecer uma interpretação dos acontecimentos que preservasse o bolsonarismo.

Essa função ganhou importância à medida que se agravava a situação judicial do pai. Em 2025, Eduardo se instalou nos Estados Unidos e começou a pressionar o governo Trump para que impusesse sanções contra autoridades brasileiras. Essa atuação reforçava os vínculos internacionais do bolsonarismo, mas dificultava as alianças dentro do Brasil, a ponto de Flávio reconhecer publicamente que tentava conter os excessos do irmão, classificando os ataques como pouco estratégicos para a política nacional. Durante a campanha, sua posição na família seria posta à prova no conflito com a esposa do pai, Michelle Bolsonaro. O conflito se agravou quando Flávio tornou pública uma carta do pai na qual ele era apresentado como seu porta-voz exclusivo. Isso levou a Justiça a proibi-lo de visitar o pai na prisão durante o período eleitoral, e devolveu a Michelle o papel de principal interlocutora da família. Algumas semanas depois, ambos anunciaram uma trégua pública, com desculpas mútuas.

Flávio não se tornou o chefe indiscutível da família, mas passou a agir cada vez mais como o gestor político de suas crises. A prisão afastou Jair Bolsonaro das urnas, mas não eliminou sua autoridade sobre o Partido Liberal (PL), o partido da família Bolsonaro desde 2021, nem sobre a significativa parte do eleitorado que continuava reconhecendo-o como o principal líder da direita brasileira. Ao escolher Flávio, Jair levou o partido a converter uma decisão familiar numa candidatura presidencial e obrigou aliados e possíveis rivais da direita a se posicionarem a respeito. Não se tratava apenas de conservar o sobrenome Bolsonaro, a ex-primeira-dama Michelle também o carregava, mas de transmitir o capital político diretamente do pai para um de seus filhos.

Entre os filhos adultos, a escolha de Flávio ocorreu depois de descartadas as demais alternativas em meio às crises familiares. Em junho de 2026, Eduardo foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal a quatro anos e dois meses de prisão em regime semiaberto, sentença que também o inabilitou politicamente. Se retornasse ao Brasil, seria obrigado a cumprir a pena. Segundo a sentença, Eduardo colaborou com o governo americano para pressionar as autoridades brasileiras e interferir no julgamento de seu pai pela tentativa de golpe de Estado. Carlos não tinha impedimento legal para se candidatar, mas estava vinculado ao chamado "gabinete do ódio" e havia sido indiciado pela Polícia Federal sob suspeita de fazer parte de uma organização que usou ilegalmente a Agência Brasileira de Inteligência (Abin), órgão federal de inteligência, para vigiar autoridades e adversários políticos. Segundo a investigação, Carlos recebia informações obtidas por essa estrutura e as usava em ataques nas redes sociais. Jair Renan tinha 28 anos e não alcançava a idade mínima de 35 anos exigida para a Presidência. Assim, Flávio era o único dos filhos adultos que reunia idade, elegibilidade, mandato nacional e capacidade de negociação. Não era necessariamente o sucessor preferido, mas era o Bolsonaro possível.

O Bolsonaro "reeducado"

Quando Jair escolheu Flávio como candidato, em dezembro de 2025, seu filho precisava conservar o sobrenome que lhe garantia o acesso imediato ao eleitorado de direita, mas também reduzir a rejeição que havia contribuído para a derrota e o isolamento político do pai. A estratégia inicial consistiu em destacar as diferenças entre ambos. Numa entrevista à agência Reuters, Flávio se definiu como um "Bolsonaro vacinado" por ter tomado duas doses da vacina contra a covid-19, enquanto Jair se opôs à vacinação e difundiu informações falsas sobre as vacinas. Posicionava-se assim exatamente onde o pai havia suscitado maior rejeição entre o eleitorado por sua gestão da pandemia. No entanto, o do "Bolsonaro vacinado" era, antes de tudo, um reposicionamento de campanha, já que a própria comissão parlamentar sobre a pandemia havia solicitado o indiciamento de Flávio por difundir desinformação sobre as vacinas e a pandemia.

Essa tentativa de diferenciação também se refletiu na construção de uma imagem familiar e religiosa. Nos vídeos, Flávio aparece em casa, ao lado da esposa e das duas filhas. Fernanda Bolsonaro brincou dizendo que o havia "reeducado" e que, dessa forma, havia criado um "Bolsonaro moderado". O slogan "Venha com fé" reforçou a aproximação com o eleitorado cristão. Enquanto Jair cultivava a imagem do homem indomável e "imbatível", Flávio tentava se apresentar como marido, pai de meninas e político capaz de dialogar. Diante do histórico de declarações misóginas do pai, essa imagem também servia para reduzir sua rejeição entre as mulheres.

Mas a imagem pública de Flávio também mudava conforme o público. Diante de empresários e representantes do mercado financeiro, Flávio falava de responsabilidade fiscal e segurança jurídica. Nos cultos, apresentava sua candidatura como uma missão encomendada por Deus. Diante dos seguidores do pai, prometia libertá-lo e dar continuidade a seu projeto político. Fora do Brasil, buscava se aproximar de Trump, do argentino Javier Milei e do salvadorenho Nayib Bukele. Flávio não moderava todas as suas posições, mas escolhia o que dizer e no que enfatizar em cada contexto.

Em matéria de segurança pública, porém, quase não há moderação programática. Durante a campanha, Flávio continuou defendendo a redução da maioridade penal, o endurecimento das penas e a flexibilização do acesso a armas de fogo pela população. Num comício no Rio de Janeiro, prometeu tirar os criminosos das ruas "de pé ou deitados" e construir megapresídios inspirados no regime de Bukele em El Salvador. Também propôs a castração química para condenados por estupro e a classificação das facções criminosas e das milícias, cuja legalização ele próprio havia defendido como deputado estadual, como organizações terroristas.

A mesma ambiguidade se percebe em sua relação com as instituições. Flávio afirma respeitar a democracia e o Supremo Tribunal Federal, mas defende a anistia para o pai e para os condenados pelos fatos do 8 de janeiro. Em diferentes ocasiões, declarou confiar no sistema eleitoral e tratou a polêmica sobre a fraude como um capítulo encerrado. Em julho de 2026, contudo, voltou a associar falsamente o sistema eleitoral brasileiro à empresa venezuelana Smartmatic, acusação que já fazia quando era deputado estadual. A Justiça Eleitoral esclareceu que a empresa nunca forneceu as urnas eletrônicas nem seus programas.

Foi assim que ocorreu o 7 de setembro de 2026. Flávio seguiu a parte mais explícita das recomendações de seus advogados e não anunciou que descumpriria as decisões nem atacou diretamente o sistema eleitoral. Ainda assim, afirmou que a condenação do pai era fruto de perseguição política, classificou o 8 de janeiro de farsa e alertou, sem nomear a fonte, sobre uma possível ingerência nas eleições. Não repetiu exatamente o discurso de Jair, mas o reformulou para poder pronunciá-lo sem defender abertamente a ruptura.

O ato de 7 de setembro ocorreu quando as pesquisas já apontavam para uma disputa acirrada. Naquele dia, a pesquisa da consultoria Quaest indicava um empate técnico numa possível segunda volta entre Lula (42%) e Flávio Bolsonaro (41%). Ao mesmo tempo, o Supremo Tribunal Federal atravessava uma crise interna sem precedentes. André Mendonça, ministro indicado por Jair Bolsonaro, tornou público um relatório da Polícia Federal que levantava suspeitas sobre os contatos entre Alexandre de Moraes, figura-chave nos processos contra o ex-presidente, e Daniel Vorcaro, banqueiro acusado de comandar um esquema de fraude na casa dos bilhões. Moraes reagiu solicitando que Mendonça fosse investigado por abuso de autoridade.

Flávio aproveitou a crise para anunciar que, se eleito, nomearia cinco dos 11 ministros do Supremo Tribunal. Quatro dessas nomeações poderiam derivar de uma vaga já existente e das aposentadorias previstas durante o próximo mandato. A quinta vaga dependia da destituição de Alexandre de Moraes, cujo impeachment Flávio defende. A promessa revelava o alcance de uma possível vitória. Se o Supremo Tribunal havia atuado como o principal freio jurídico às investidas do bolsonarismo contra as eleições e as instituições, Flávio propunha alterar sua composição por dentro. Seus cinco indicados, somados aos dois ministros escolhidos pelo pai, poderiam ocupar sete das 11 cadeiras, o que alteraria profundamente o equilíbrio da Corte que condenou seu pai e conteve parte da ofensiva institucional bolsonarista.

A ação de 7 de setembro liderada por Flávio revela o que o distingue do pai e dos irmãos. Ele não apenas controla melhor a linguagem, negocia e sabe recuar quando lhe convém. Mais importante ainda, em vez de atacar diretamente as instituições, apresenta suas posições como propostas de mudança legal. A desconfiança nas urnas se converte em defesa de maior transparência, enquanto o confronto com o Supremo Tribunal assume a forma de nomeações de ministros e da defesa da destituição de membros da Corte. Flávio não abandona o confronto, mas busca conduzi-lo por meio de mecanismos legais capazes de transformar as instituições por dentro. O conteúdo continua sendo o mesmo, ainda que agora se apresente de uma forma mais prudente do ponto de vista jurídico.

Essa mudança de forma não retira protagonismo de Jair Bolsonaro. Flávio foi escolhido pelo pai, apresenta sua candidatura como a continuação do projeto familiar e depende dele para conservar a lealdade do movimento. Uma de suas principais promessas é justamente usar a Presidência para conseguir a libertação e a reabilitação política do pai. Assim, a escolha de Flávio como candidato revela uma nova fase do bolsonarismo. Após a derrota, os fatos do 8 de janeiro e a condenação de seu principal líder, o movimento não rompeu com o passado nem cedeu sua representação a alguém alheio à família. Escolheu o filho mais capaz de combinar continuidade ideológica e cautela jurídica. Flávio se apresenta como a tentativa de fazer o bolsonarismo voltar a ser possível e de que seu pai seja absolvido de seus crimes.

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