Trump, Prevost e o legado estadunidense do 11 de Setembro. Artigo de Massimo Faggioli

Ataque as Torres Gêmeas, em 11 de setembro de 2001 | Foto: Liam Enea/Flickr

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15 Setembro 2026

"Até o conclave de 2025, a discussão centrava-se na possibilidade de ter um papa estadunidense e até que ponto o papa poderia ser "estadunidense". Leão XIV, no entanto, levanta uma questão diferente: até que ponto são realmente estadunidenses os estadunidenses hoje?", escreve Massimo Faggioli, publicada por Il Giornale di Brescia, 11-09-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Massimo Faggioli é professor no Instituto Loyola do Trinity College, em Dublin. Seu livro mais recente é Teologia e ensino superior católico: além da nossa crise de identidade (Orbis Books).

Eis o artigo.

Cerca de cem milhões de estadunidenses, um terço da população dos EUA, nasceram depois de 11 de setembro de 2001. Em um país como os Estados Unidos, onde a história não é um livro de capítulos dos quais extrair lições, mas simplesmente prólogo do futuro, a gestão da memória daquela série de eventos permanece uma questão em aberto. Não apenas pelo trauma vivido por uma nação que acreditava ser protegida por Deus e pelos oceanos, não apenas porque os EUA se encontram atolados, mais uma vez, em outra guerra no Oriente Médio iniciada sem nenhum critério. Mas também porque, há mais de uma década, a política estadunidense é dominada pelo produto mais original do 11 de Setembro: o ‘plurifracassado’ magnata Donald J. Trump, eleito presidente duas vezes, em 2016 e 2024, e o senhor absoluto do Partido Republicano. Osama bin Laden e seus comparsas blasfemos mudaram a trajetória dos Estados Unidos: o nativismo anti-imigrante, a islamofobia, o nacionalismo militarista, a ruptura com a Europa e, acima de tudo, o mais imperdoável dos ateísmos: a falta de fé nos Estados Unidos. Tudo isso nasce das cinzas daquele dia, de um desvio de rota moral da incrível mobilização do povo estadunidense em resposta aos ataques.

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O que distingue este vigésimo quinto aniversário dos anteriores é que Trump já não é mais o único estadunidense que nos obriga, diariamente, a confirmar ou refutar nossos juízos e preconceitos sobre aquela que não é mais a nação-guia do Ocidente, mas que para nós continua sendo inconfessavelmente indispensável. Desde 8 de maio de 2025, há outro estadunidense no cenário global: Leão XIV, nascido Robert Francis Prevost em Chicago, em 1955, filho de um pai que desembarcou na Europa em 1944 (duas vezes: primeiro na Normandia, depois no sul da França) para libertar o continente. O Papa Francisco também era, à sua maneira, um produto do 11 de setembro: o Sínodo dos Bispos realizado em Roma logo após os ataques marcou a entrada do futuro Papa jesuíta no cenário global do catolicismo, quando o então Arcebispo Jorge Mario Bergoglio foi chamado para substituir o Cardeal Edward Michael Egan, de Nova York, impossibilitado de chegar a Roma em decorrência dos ataques terroristas, na função de Relator-Geral do Sínodo.

No entanto, Francisco não pôde falar aos Estados Unidos da maneira que Leão XIV pode. O 11 de setembro de 2001 tem um significado especial para este Papa. Prevost foi eleito Prior-Geral dos Agostinianos em 14 de setembro de 2001, dia de seu aniversário, iniciando assim sua trajetória em um mundo que passava por mudanças rápidas e dramáticas. Era o começo da carreira eclesiástica de um clérigo "born in the USA", mas moldado por duas décadas de trabalho missionário no Peru, uma experiência que, em certos aspectos, fez dele alguém alheio à cultura clerical católica estadunidense. Ao mesmo tempo, Prevost é um dos estadunidense que - ao contrário de seu antecessor - vê os Estados Unidos como uma história de sucesso: uma visão que o último quarto de século coloca radicalmente em xeque.

O Papa Leão XIV teria sido "o outro estadunidense", ou um tipo diferente de estadunidense, mesmo em tempos normais. Mas, desde 2001, o Ocidente vive uma fase de desmanche de seus sistemas políticos e das relações internacionais. As igrejas católicas, e o papado de forma especial, são cada vez mais chamadas (a guerra na Ucrânia, a Inteligência Artificial) a atuar como um dispositivo de segurança, um "sistema de backup" de alguma forma de ordem moral global. Leão XIV também serve, de maneira mais específica, como backup moral dos Estados Unidos de hoje.

Em relação aos Estados Unidos, a tarefa do Papa Prevost não é apenas apresentar uma alternativa ao trumpismo, de um lado, e ao pós-modernismo secularista, de outro (embora não exista equivalência entre os dois). Ele também é chamado a suprir a falta de uma reflexão, inclusive dentro do catolicismo estadunidense, sobre as consequências da reação ao 11 de setembro no país e na Igreja. Os "neoconservadores" católicos, que, desde a Guerra do Iraque de 1991 e mesmo antes disso, interceptaram as tentativas do Vaticano de dialogar com a Casa Branca, agora discutem as guerras no Afeganistão e no Iraque como se as decisões tivessem sido tomadas por Obama e Biden; silenciam diante da normalização da islamofobia, ignoram a ligação entre a "presidência imperial" de Bush e a corrupção sistemática do Estado de Direito de Trump. Até o conclave de 2025, a discussão centrava-se na possibilidade de ter um papa estadunidense e até que ponto o papa poderia ser "estadunidense". Leão XIV, no entanto, levanta uma questão diferente: até que ponto são realmente estadunidenses os estadunidenses hoje?

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