Sexualidade, saúde e adoecimento no clero católico. Artigo de Eliseu Wisniewski

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15 Setembro 2026

"O ponto de partida do autor é a compreensão da sexualidade como realidade dinâmica, construída ao longo da existência mediante a interação de fatores biológicos, psicológicos, culturais, sociais e espirituais. Esse entendimento permite questionar modelos formativos que, ao enfatizarem predominantemente a dimensão normativa da sexualidade, podem deixar em segundo plano os processos de amadurecimento afetivo e de integração pessoal", escreve Eliseu Wisniewski, presbítero da Congregação da Missão Província do Sul, mestre em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).

Eis o artigo.

Gustavo Cortês Fernandes, presbítero da Arquidiocese de Uberaba (MG) e doutor em Ciências da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás, enfrenta em Sexualidade dos padres: a relação, saúde-doença no clero católico (Pluralidades, 2026, 274 p.), uma temática particularmente sensível no contexto da formação e do exercício do ministério presbiteral. A obra nasce da preocupação em compreender como a sexualidade, enquanto dimensão constitutiva da pessoa, é integrada ou não à experiência presbiteral e quais consequências essa realidade pode produzir sobre a saúde física, psíquica, afetiva e espiritual dos presbíteros.

Sexualidade na vida dos padres: a relação saúde-doença no clero católico, livro de Gustavo Cortez Fernandez

O ponto de partida do autor é a compreensão da sexualidade como realidade dinâmica, construída ao longo da existência mediante a interação de fatores biológicos, psicológicos, culturais, sociais e espirituais. Esse entendimento permite questionar modelos formativos que, ao enfatizarem predominantemente a dimensão normativa da sexualidade, podem deixar em segundo plano os processos de amadurecimento afetivo e de integração pessoal. O presbítero não deixa de ser homem ao ingressar no seminário nem ao receber a ordenação. Sua sexualidade continua fazendo parte de sua história, de sua identidade e de sua relação consigo mesmo, com os outros e com Deus.

É nesse ponto que o celibato aparece como uma das questões mais desafiadoras da pesquisa. Mais do que discutir sua legitimidade ou validade enquanto disciplina eclesiástica, Fernandes procura compreender como ele é concretamente vivido pelos presbiteros. A questão desloca-se da norma para a experiência: como os padres lidam com a renúncia sexual? Existem conflitos entre a exigência celibatária e as necessidades afetivas? Quais mecanismos de elaboração ou compensação são desenvolvidos? Há espaços suficientemente seguros para falar sobre essas questões durante a formação e posteriormente no exercício do ministério? Tais perguntas conferem ao estudo um caráter crítico, pois colocam em evidência a distância que pode existir entre a prescrição institucional e a experiência concreta dos sujeitos.

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Metodologicamente, a pesquisa combina investigação empírica qualitativa e fundamentação bibliográfica. Os testemunhos dos presbíteros constituem elemento central para a construção da análise, permitindo que suas experiências sejam consideradas não apenas como ilustrações, mas como dados relevantes para a compreensão do fenômeno.

A opção por escutar os próprios presbíteros é particularmente significativa, pois possibilita acessar dimensões da vida presbiteral que dificilmente aparecem em documentos normativos ou discursos oficiais. A pesquisa, contudo, não abandona o diálogo teórico: os dados são confrontados com autores que permitem interpretar as relações entre religião, saúde, sexualidade e subjetividade.

O primeiro capítulo (p. 35-71) estabelece as bases conceituais da investigação e apresenta a articulação entre religião, saúde e sexualidade. O presbítero é analisado simultaneamente como ministro religioso e como sujeito inserido em uma realidade histórica e sociocultural concreta. Essa abordagem contribui para superar uma representação excessivamente idealizada do presbítero, segundo a qual sua condição ministerial poderia obscurecer suas necessidades humanas, afetivas e corporais.

O segundo capítulo (p. 73-148) concentra-se na saúde e no adoecimento dos presbíteros. Alimentação, sono, atividade física, trabalho, descanso e condições emocionais são considerados juntamente com manifestações de sofrimento psíquico, como ansiedade e depressão. A utilização do pensamento de Viktor Frankl, sobretudo da noção de sentido, amplia a compreensão da saúde, que não é reduzida à ausência de doença. A questão passa a envolver também a possibilidade de o presbítero encontrar significado em sua existência e em seu ministério. A partir daí, o autor levanta uma hipótese relevante: determinadas formas de adoecimento podem estar relacionadas às particularidades da vida presbiteral, inclusive à maneira como a sexualidade é compreendida, controlada e vivenciada.

O terceiro capítulo (p. 149-253) constitui o núcleo mais provocativo da obra. A partir das narrativas dos presbíteros, a sexualidade é analisada em diferentes momentos da trajetória pessoal: infância, formação seminarística e exercício do ministério. Os relatos revelam a persistência de dificuldades para abordar abertamente a sexualidade nos ambientes eclesiais. Celibato e homossexualidade aparecem como temas especialmente marcados por tensões, silêncios e estereótipos. O diálogo com o filósofo Michel Foucault (1926-1984) permite aprofundar essa problemática ao mostrar que a sexualidade não esteve simplesmente ausente do discurso religioso e social; ao contrário, foi historicamente objeto de múltiplos discursos, classificações e mecanismos de controle.

A relevância desta pesquisa está justamente em evidenciar que o silêncio não significa necessariamente ausência de sexualidade, mas pode indicar a existência de dificuldades para nomear, compreender e elaborar experiências fundamentais da condição humana. A obra questiona uma formação presbiteral que eventualmente privilegia a disciplina e o controle em detrimento de processos de autoconhecimento, maturidade afetiva e integração da sexualidade.

A questão não se reduz ao cumprimento ou descumprimento do celibato, mas envolve a qualidade humana e espiritual com que essa opção é assumida.

Outro aspecto importante é a preocupação pastoral do autor. Ao investigar como os padres enfrentam situações de sofrimento e a quem recorrem em busca de ajuda, o estudo ultrapassa o diagnóstico e interroga os próprios mecanismos de acompanhamento existentes na Igreja. A pergunta sobre a eficácia dos recursos oferecidos aos presbíteros é particularmente importante, pois evidencia que o cuidado com o clero não pode ser pensado apenas em termos de produtividade ministerial ou de manutenção das funções pastorais. O presbítero precisa ser acompanhado também como pessoa, com suas fragilidades, conflitos, necessidades afetivas e processos de amadurecimento.

A obra apresenta uma provocação que merece ser aprofundada: a relação entre sexualidade e adoecimento não deve ser interpretada de maneira causal ou simplista. O sofrimento dos presbíteros é resultado de uma realidade complexa, na qual se cruzam condições de trabalho, solidão, exigências institucionais, relações comunitárias, história pessoal, formação, espiritualidade e afetividade. A sexualidade constitui uma dessas dimensões e pode assumir papel importante, mas sua compreensão exige evitar tanto sua absolutização quanto sua negação.

A pesquisa possui particular importância por colocar em discussão uma dimensão da vida presbiteral frequentemente tratada de modo insuficiente. Seu valor não está apenas nos dados apresentados, mas na capacidade de provocar a reflexão sobre os limites e as possibilidades dos atuais processos de formação e acompanhamento sacerdotal. Ao trazer para o centro da discussão a experiência concreta dos presbíteros, Fernandes sustenta que falar de sexualidade não significa necessariamente relativizar as exigências do ministério ou do celibato, mas reconhecer que a vocação presbiteral é vivida por pessoas concretas, com corpo, afetividade, desejos, conflitos, limites e possibilidades de crescimento.

A investigação oferece uma contribuição importante para a reflexão pastoral e interdisciplinar sobre o presbiterado. Seu desafio maior consiste em transformar a escuta das experiências em processos efetivos de formação e acompanhamento. Se a sexualidade é parte constitutiva da pessoa, não pode ser simplesmente ignorada ou reduzida a objeto de controle. Ela precisa ser integrada em uma perspectiva de maturidade humana, afetiva e espiritual. É nessa tensão entre norma e experiência, silêncio e diálogo, vulnerabilidade e cuidado que se encontra a força crítica do estudo de Gustavo Cortês Fernandes.

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