Como é fácil ser fascista em uma democracia e como é difícil ser democrático em uma ditadura. Artigo de Jesús Lozano Pino

Mais Lidos

  • “Eu me converti”. Bispo italiano fala de como pessoas LGBTQ+ mudaram sua visão pastoral

    LER MAIS
  • Será que a inteligência artificial pode sair do controle e ameaçar a humanidade? Veja o que dizem alguns dos maiores especialistas do mundo

    LER MAIS
  • “Na cosmotécnica indígena, a transformação vegetal envolve não apenas técnicas de manejo, mas também voz, canto, dança e ritual”, afirma o pesquisador

    Modos de transformação vegetal e cosmotécnica indígena. Entrevista especial com Gilton Mendes dos Santos

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Aceleracionismo Amazônico

Edição: 559

Leia mais

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

12 Setembro 2026

"O grafite no muro nos deixa, em última análise, com uma lição aberta: a democracia permite que o espaço pregue até mesmo a sua própria destruição, mas é nosso dever, como cristãos e pessoas de boa vontade, transformar essa liberdade em uma ferramenta ativa para democratizar o mundo e erradicar toda forma de ditadura".

O artigo é de Jesús Lozano Pino, missionário e filósofo em formação, publicado por Religión Digital, 06-09-2026.

Eis o artigo.

Uma parede desgastada, dividida em duas por textura e cor, guarda uma verdade incômoda pintada à mão: "Como é fácil ser fascista em uma democracia. E como é difícil ser democrático em uma ditadura."

A frase não é apenas um grafite urbano; é um raio-X direto das tensões políticas, sociais, econômicas e éticas que permeiam nosso presente turbulento.

A sedução do autoritarismo em tempos de incerteza

A frase na parede toca em um ponto crítico: posições extremistas e autoritárias são tentadoras porque evitam o esforço de compreender a complexidade humana e social.

O atalho socioeconômico: diante da insegurança no emprego, da inflação ou da falta de moradia, os discursos da extrema-direita oferecem culpados fáceis. É mais fácil culpar os vulneráveis,os migrantes ou os diferentes, do que desafiar modelos econômicos injustos ou exigir reformas estruturais.

O privilégio das garantias democráticas: a democracia garante liberdades que asseguram a existência mesmo de discursos que buscam miná-la. Promover a intolerância dentro de uma estrutura de direitos não acarreta riscos para aqueles que a praticam: eles gozam de proteção constitucional para apoiar o fim de suas próprias liberdades e das liberdades dos outros.

As vantagens, os limites e o grande paradoxo da democracia

Para entender a armadilha do nosso tempo, é essencial analisar os pontos fortes e fracos do sistema democrático:

As vantagens do modelo democrático

Garantia de direitos e pluralismo: permite a coexistência pacífica entre diferentes formas de pensar, protege a liberdade de consciência e coloca a dignidade da pessoa em seu cerne.

Mecanismos de autocorreção: oferece maneiras pacíficas de renovar o poder, monitorar abusos, e integrar as demandas de grupos historicamente marginalizados.

Limitações e Falhas Estruturais

Lentidão Institucional: A busca por consenso e a deliberação podem ser percebidas como ineficiências em comparação com a imediatidade que os cidadãos exigem em tempos de crise.

Minorias Não Representadas (o Espinho no Lado): A regra da maioria pode levar à invisibilidade ou marginalização de grupos vulneráveis, migrantes e minorias sem uma voz institucional. Essas minorias não representadas atuam como um incômodo constante e o verdadeiro teste ético da democracia: elas nos lembram que um sistema não é totalmente justo porque a maioria vota, mas quando é capaz de garantir a dignidade e os direitos dos mais esquecidos.

Vulnerabilidade ao Populismo: Quando as democracias falham em abordar as desigualdades econômicas e garantir a justiça social, elas criam um terreno fértil ideal para que o descontentamento se transforme em ódio.

O Paradoxo da Tolerância: Aqui surge o grande dilema proposto pelo filósofo Karl Popper: devemos tolerar os intolerantes? Se uma sociedade tolera sem restrições aqueles que pregam a destruição da coexistência e a rejeição da diversidade, a tolerância será, em última análise, destruída pelos intolerantes.

Portanto, a democracia não pode ser ingênua; o respeito à liberdade de expressão não equivale à permissão para violar direitos humanos fundamentais ou incitar o ódio contra os mais fracos.

Jesus Diante do Poder: A Vocação Imperativa Democratizadora da Fé Se lermos o Evangelho sem anestesia teológica, fica claro que a prática de Jesus de Nazaré jamais se encaixaria no molde opressivo de uma ditadura. Jesus incorpora, em sua essência mais profunda, um espírito profundamente democrático, comunitário e participativo.

Igualdade radical e antiautoritarismo: Jesus desmantela o princípio vertical das ditaduras, pelo qual a vontade de um silencia a voz de todos. Quando ele proclama que “os governantes dos gentios dominam sobre todos, mas entre vocês não deve ser assim” (Mt 20,25-26), ele não apenas rejeita a tirania imperial romana, mas também propõe uma ética de fraternidade na qual não há vassalos, mas irmãos e irmãs de igual dignidade.

Desobediência diante do dogma autoritário: Jesus não era executor de decretos ditatoriais nem cúmplice da inação do Sinédrio. Diante de estruturas que usavam a lei como instrumento de opressão, ele priorizou a liberdade interior, a consulta à consciência, e o valor supremo da pessoa humana. Afirmar que Jesus se aliaria ao ditador é falsificar sua mensagem; Jesus sempre esteve com as vítimas da tirania.

O imperativo cristão de transformar estruturas: desta premissa surge um dever inescapável para o crente. A fé não é neutra em relação às formas de governo. Seja qual for a realidade sociopolítica em que um cristão vive, seu compromisso ético não pode consistir em resignação ou submissão à opressão. A vocação cristã exige agir como fermento de mudança para transformar estruturas ditatoriais, arbitrárias e injustas em estruturas verdadeiramente democráticas e participativas, orientadas para a justiça social.

O preço da libertação: Jesus foi crucificado precisamente porque seu modelo do Reino desafiou as alegações absolutistas do poder político e religioso de seu tempo. Romper as correntes do autoritarismo para construir espaços de liberdade, igualdade e respeito mútuo é o caminho mais fiel ao Evangelho, mesmo que isso signifique aceitar o preço da dissidência. Um Espaço para Reflexão Compartilhada Criar um espaço para reflexão exige transcender as trincheiras ideológicas para examinar as decisões éticas que tomamos como sociedade.

A liberdade não é um estado estático nem um privilégio garantido para sempre; É um processo frágil que se deteriora quando a indiferença substitui a responsabilidade cívica. Observando a fragilidade de nossas instituições, é legítimo perguntar onde exatamente se encontra a linha divisória entre proteger o pluralismo e salvaguardar a comunidade daqueles que exploram as normas para destruí-las.

Leis e constituições estabelecem estruturas formais, mas a verdadeira saúde de um sistema depende da qualidade humana de seu tecido social, da capacidade da comunidade de reagir a abusos e da coragem moral de não ceder à tentação da vingança ou do fanatismo. Da perspectiva da fé e do engajamento cívico, a neutralidade diante da injustiça ou a retirada complacente sob regimes autoritários nunca foram opções legítimas.

Quando discursos de conflito se consolidam, a resposta não pode ser o silêncio ou o conformismo institucional. É necessário reativar a pedagogia do diálogo, promover a democratização das estruturas sociais e nos lembrar de que a busca constante por justiça para os mais fracos é o verdadeiro teste do nível ético e espiritual de um povo. O grafite no muro nos deixa, em última análise, com uma lição aberta: a democracia permite que o espaço pregue até mesmo a sua própria destruição, mas é nosso dever, como cristãos e pessoas de boa vontade, transformar essa liberdade em uma ferramenta ativa para democratizar o mundo e erradicar toda forma de ditadura.

Leia mais