No caminho de Enzo Bianchi: o legado do misticismo bizantino. Artigo de Silvia Ronchey

Foto: Vatican Media

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05 Setembro 2026

O artigo é de Silvia Ronchey, professora da Universidade Roma Tre, publicado por La Repubblica, 03-09-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Enzo Bianchi tinha uma mensagem profética. Na esteira do Concílio Vaticano II, ele percebeu que, se o catolicismo quisesse redescobrir a espiritualidade e a dimensão mística que há muito havia perdido, precisava retornar às fontes antigas, resgatar o espírito de uma tradição que havia se mantido mais viva no mundo bizantino. 

Enzo Bianchi era um leigo. E era um homem de Deus, theios aner ou anthropos tou theou. Esses termos, que remontam ao paganismo greco-romano e ao judaísmo, e que perduraram no cristianismo primitivo, descreviam aqueles indivíduos carismáticos, dotados de uma virtude espiritual particular que, por um lado, buscavam o ascetismo, mas, por outro, atraíam o reconhecimento de uma especial autoridade por parte das comunidades com que interagiam ou, por vezes, em determinado momento de sua jornada, acabavam por fundar. Como Antão, o primeiro dos grandes Padres do Deserto, e os outros eremitas que, entre os séculos IV e V, naquela "época de angústia", de pobreza generalizada, de incerteza moral, que precedeu a queda do Império Romano do ocidente e acompanhou o início de sua gravitação oriental, buscavam recriar o vazio interior (eremos) dentro do vazio geográfico: Nítria e Cétis, Tebaida e Cálcis, as grutas do Sinai e as margens do Nilo assombradas por demônios. Ou como Basílio, fundador das primeiras comunidades cenobíticas que dariam origem ao monaquismo bizantino, cuja leitura apaixonou Enzo Bianchi desde a juventude e cujo exemplo inspirou sua própria anacorese ao fundar Bose.

Ana-choresis: literalmente retiro, afastamento de um mundo em crise no que diz respeito a pertenças morais, espirituais, sociais e políticas. As variadas expressões daquela súbita e extrema impossibilidade de se conformar ao mundo de seu próprio tempo, em que o povo dos retirados no deserto vivia, entre o fim da Antiguidade e o alvorecer da era bizantina, inspiraram páginas inesquecíveis aos intelectuais da época: a Vida de Antão, de Atanásio, a anônima História dos Monges do Egito, a História Lausíaca, de Paládio, as Vidas e cartas, de Jerônimo, a História Religiosa, de Teodoreto de Ciro, e o Prado Espiritual, de Mosco. Contudo, aquela dos antigos padres não era uma retirada. Pelo contrário, como ocorreu com Enzo Bianchi, era uma peculiar militância.

Ele pôs em prática os ensinamentos dos Padres do Deserto. O vazio, a tabula rasa e o ato de recomeçar, não apenas do nada, mas a partir do nada, foi o ponto de partida da empreitada revolucionária de um "monge resistente", como se definia outro admirador dos Padres do Deserto, Thomas Merton, autor profundamente estimado por Bianchi e com quem se identificava profundamente. Certa vez, escreveu sobre ele: "Merton não é muito amado nos círculos eclesiásticos de hoje: destino compartilhado por todos os homens que têm uma mensagem profética a comunicar".

Enzo Bianchi tinha uma mensagem profética. Na esteira do Concílio Vaticano II, ele percebeu que, se o catolicismo quisesse redescobrir a espiritualidade e a dimensão mística que há muito havia perdido, se queria comunicá-la à sociedade que estava se distanciando dela, precisava retornar às fontes antigas, resgatar o espírito de uma tradição que havia se mantido mais viva no mundo bizantino, ecumênico, mas que, depois do cisma, denominado ortodoxo, foi dividido daquele católico, cuja herança era, na verdade, indivisível. O ecumenismo de Enzo Bianchi era inevitável, pois brotava justamente dessa herança. Sua abordagem não era tradicionalismo, mas o uso de uma tradição atávica, recuperada por meio dos estudos e da cultura, em sentido progressista.

Quando, na casa dos vinte anos, ele se mudou para as ruínas de uma casa de campo próxima a uma solitária igreja românica no vale de Bose, cativado pelo genius loci do lugar, o pequeno núcleo incipiente do futuro mosteiro incluía também uma mulher. Desde o início, seu projeto não foi apenas ecumênico, mas inclusivo, abrangendo os diversos gêneros, bem como as diversas religiões e denominações do cristianismo. Foi uma busca compartilhada e multíplice da dimensão mística bizantina, seja explorando os apoftegmas dos Padres do Deserto e os escritos de Evágrio PônticoJoão Clímaco, Máximo, o Confessor, Simeão, o Novo Teólogo, Anastácio Sinaíta ou Gregório Palamas, ou examinando os desfechos das doutrinas e práticas espirituais que ressurgiram, após uma longa jornada oculta, no mundo ortodoxo séculos mais tarde: na Filocália, aquele grande cânone retrospectivo da espiritualidade ascético-hesicasta grega que disseminaria e incutiria na alma russa os ensinamentos de uma disciplina baseada na respiração diafragmática e na recitação de um mantra, a chamada Oração do Coração, conhecida como Hesicasmo (o "ioga cristão"), que mais tarde migrou para a Rússia dos Relatos de um Peregrino Russo, tão apreciados por Tolstói. O estudo daquela linhagem na história do cristianismo, expressada em diversas línguas, grego, siríaco, copta e eslavônico, foi distribuído entre os monges de Bose e enviado às prensas da Qiqajon, a editora do mosteiro, que disseminou os pensamentos e as práticas cujo conhecimento era o pré-requisito, e cuja difusão foi um dos grandes sucessos da disciplina da comunidade onde esse espírito ainda vive hoje. Assim como vive e viverá para sempre a coragem, a virtude e a força de seu fundador.

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