Tempo de Deus: vocações em idade adulta. Artigo de Eliseu Wisniewski

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05 Setembro 2026

"Sob uma perspectiva crítica, uma das contribuições mais pertinentes da obra consiste em colocar em crise a ideia de que os mesmos procedimentos utilizados na formação de jovens possam ser simplesmente transferidos para adultos. Pessoas que chegam à vida religiosa ou ao seminário depois de percorrerem diferentes etapas da existência trazem consigo uma história pessoal, afetiva, profissional, cultural e espiritual já constituída", escreve Eliseu Wisniewski, presbítero da Congregação da Missão Província do Sul, mestre em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).

Eis o artigo.

O livro Tempo de Deus: vocação em idade adulta: discernimento e formação (Loyola, 2026, 106 p.), de Jaldemir Vitório, dedica-se a uma problemática que ganha crescente importância, embora permaneça insuficientemente refletida no âmbito da pastoral vocacional: o acompanhamento de pessoas que, já na idade adulta, discernem a possibilidade de assumir a vida religiosa consagrada ou o ministério ordenado. Professor de Sagrada Escritura na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), em Belo Horizonte, e com longa experiência no acompanhamento pastoral, espiritual e formativo de religiosos, religiosas e seminaristas, o autor parte de uma experiência concreta acumulada ao longo de décadas para questionar modelos formativos tradicionalmente estruturados a partir do perfil do vocacionado jovem.

Sob uma perspectiva crítica, uma das contribuições mais pertinentes da obra consiste em colocar em crise a ideia de que os mesmos procedimentos utilizados na formação de jovens possam ser simplesmente transferidos para adultos. Pessoas que chegam à vida religiosa ou ao seminário depois de percorrerem diferentes etapas da existência trazem consigo uma história pessoal, afetiva, profissional, cultural e espiritual já constituída. Aplicar-lhes indiscriminadamente pedagogias concebidas para adolescentes ou jovens pode produzir efeitos contraproducentes, entre eles a infantilização, a perda da autonomia e até o desânimo diante de um processo que não reconhece suficientemente sua trajetória. A crítica do autor não se limita a propor adaptações metodológicas; ela toca uma questão mais profunda: que concepção de pessoa, de vocação, de liberdade e de formação está subjacente aos modelos tradicionais de acompanhamento?

A obra também questiona, ainda que indiretamente, uma determinada compreensão institucional da vocação. O aumento de vocacionados adultos não deveria ser interpretado apenas como uma resposta pragmática à diminuição das vocações jovens, nem como uma estratégia para recompor numericamente seminários e congregações. Se a vocação é compreendida como experiência de discernimento e resposta livre a um chamado, o adulto não pode ser reduzido a uma “solução” para a crise numérica das instituições. O desafio consiste em discernir a autenticidade de sua opção e, simultaneamente, verificar se a instituição possui condições humanas, espirituais e comunitárias para acolher e formar alguém cuja história já apresenta significativa consolidação. A questão decisiva não é simplesmente quantos ingressam, mas quem ingressa, por quais razões, com quais expectativas e em que tipo de comunidade será inserido.

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É particularmente importante, nesse contexto, a distinção entre quantidade e qualidade vocacional. O autor sustenta que novas vocações devem contribuir para o crescimento missionário e qualitativo dos corpos apostólicos, congregacionais e presbiterais. Tal perspectiva representa uma crítica pertinente a qualquer pastoral vocacional orientada predominantemente por critérios estatísticos. A preocupação com o número de candidatos pode levar instituições a relativizarem exigências fundamentais do discernimento e da formação, sobretudo em períodos de escassez vocacional. A vocação, porém, não pode ser legitimada pela simples necessidade institucional de preencher espaços vazios. Mais do que aumentar efetivos, trata-se de formar pessoas capazes de integrar-se criticamente em comunidades concretas e de assumir responsabilidades pastorais, espirituais e missionárias com maturidade.

A experiência do autor constitui a principal base da obra. Não se trata, segundo sua própria perspectiva, de uma investigação acadêmica fundamentada prioritariamente em ampla pesquisa bibliográfica ou em documentos eclesiásticos, mas da sistematização de uma experiência prolongada de acompanhamento e formação. Essa opção confere ao livro uma dimensão eminentemente prática, mas também constitui um de seus limites. A experiência pessoal, por mais extensa e qualificada que seja, não substitui a necessidade de confrontação com pesquisas recentes sobre desenvolvimento humano na idade adulta, psicologia vocacional, processos de conversão, maturidade afetiva, mudanças culturais e novas configurações da vida religiosa e do ministério ordenado. Uma abordagem ainda mais consistente poderia estabelecer maior diálogo entre a experiência formativa do autor e as contribuições das ciências humanas e sociais, bem como com a produção teológica recente sobre vocação e formação.

A estrutura da obra acompanha essa preocupação. O primeiro capítulo (p. 11-45) aborda a vocação em idade adulta a partir de diferentes perspectivas, passando pela questão terminológica e etária até chegar à dimensão teológica do chamado e do discernimento. O segundo (p. 47-70) procura caracterizar as particularidades desse tipo de vocação e as circunstâncias que precisam ser consideradas no acompanhamento. O terceiro (p. 71-83) concentra-se nas exigências do processo formativo, enquanto o quarto (p. 85-101) trata de questões ainda abertas, reconhecendo que as respostas não podem ser absolutizadas, uma vez que cada pessoa e cada contexto formativo possuem características próprias. Essa estrutura revela uma compreensão dinâmica da formação, distante da pretensão de oferecer receitas universais.

Outro aspecto significativo consiste na compreensão da formação como processo integral. O autor aponta para dimensões humana, religiosa, espiritual, pastoral, psicoafetiva, intelectual, cultural e profissional. Essa perspectiva é especialmente relevante porque impede que a formação seja reduzida à preparação funcional para o exercício do ministério. No caso dos adultos, essa integralidade torna-se ainda mais necessária, pois sua formação não começa do zero. O candidato já possui competências, vínculos, experiências, convicções, feridas, responsabilidades e referências construídas anteriormente. Formá-lo não significa apagar essa história para substituí-la por uma identidade institucional, mas ajudá-lo a relê-la criticamente à luz de uma nova opção de vida.

É precisamente aqui que a proposta de Vitório pode ser ampliada criticamente. A formação de adultos não deveria significar apenas adaptar métodos antigos a uma faixa etária diferente. Ela pode exigir uma revisão mais profunda do próprio paradigma formativo. Se o adulto é sujeito de sua formação, e não mero objeto de intervenção dos formadores, então sua experiência anterior precisa ser reconhecida como lugar efetivo de discernimento. Isso implica deslocar o centro da formação de uma lógica predominantemente normativa para uma pedagogia do acompanhamento, do diálogo, da corresponsabilidade e do discernimento. O formador deixa de ser simplesmente aquele que “forma” e passa a exercer também a função de acompanhar um processo no qual o próprio formando participa ativamente da construção de sua resposta vocacional.

A dimensão comunitária aparece igualmente como um ponto crítico. O adulto que ingressa em uma instituição religiosa ou em um seminário não apenas precisa adaptar-se a uma nova forma de vida; a própria instituição é desafiada a acolher alguém cuja identidade já se encontra em processo avançado de constituição. Por isso, não basta perguntar se o candidato é capaz de adaptar-se à comunidade. É necessário perguntar também se a comunidade possui maturidade suficiente para acolher pessoas diferentes, com histórias diversas, sem exigir delas uma uniformização que ultrapasse as exigências legítimas da vida comum. O discernimento deveria ser bilateral: o candidato discerne sua vocação, mas também a instituição precisa discernir sua capacidade de acolher e acompanhar aquela pessoa.

A insistência na mistagogia como fio condutor da obra acrescenta uma dimensão teológica importante. A formação não pode ser compreendida apenas como aquisição de conhecimentos, competências pastorais ou adequação a normas institucionais. Ela deveria conduzir progressivamente à experiência do mistério de Deus e a uma configuração mais consciente da própria existência ao seguimento de Jesus. Contudo, essa dimensão mistagógica corre o risco de perder sua força quando utilizada para justificar previamente decisões institucionais ou para interpretar toda trajetória pessoal como manifestação inequívoca de um “projeto de Deus”. Uma teologia da vocação precisa preservar espaço para a dúvida, a liberdade, a ambiguidade, a revisão de escolhas e até mesmo para a possibilidade de que o discernimento conduza à não permanência no caminho inicialmente imaginado.

Nesse ponto, a expressão “projeto de Deus” requer especial cuidado. A linguagem vocacional pode tornar-se problemática quando apresenta a escolha pela vida religiosa ou pelo ministério ordenado como se fosse uma trajetória previamente determinada por Deus e simplesmente descoberta pelo indivíduo. Uma compreensão mais responsável do discernimento reconhece a interação entre graça, liberdade, história pessoal, condicionamentos, desejos, mediações comunitárias e decisões humanas. O discernimento não consiste em descobrir passivamente um roteiro divino já estabelecido, mas em interpretar, à luz da fé, uma história concreta e assumir responsavelmente uma decisão diante de Deus, dos outros e da própria consciência.

A obra apresenta uma contribuição pastoral significativa ao chamar atenção para um fenômeno que desafia os modelos tradicionais de formação. Sua contribuição mais significativa está em questionar a tendência de enquadrar as vocações adultas nos mesmos parâmetros formativos destinados aos jovens, como se a diferença de idade não implicasse trajetórias, experiências e exigências próprias. Elas exigem acompanhamento diferenciado, reconhecimento da história pessoal e processos formativos capazes de respeitar a maturidade sem abandonar as exigências próprias da vida consagrada e do ministério ordenado. Ao mesmo tempo, sua proposta pode ser enriquecida por uma interlocução mais ampla com as ciências humanas, com pesquisas empíricas sobre vocações adultas e com uma análise crítica das próprias estruturas institucionais que recebem esses vocacionados.

A obra de Vitório coloca diante da Igreja uma questão que ultrapassa a simples metodologia vocacional: que tipo de Igreja, de vida religiosa e de ministério está preparada para acolher pessoas adultas que chegam trazendo uma história já construída? A resposta não pode consistir apenas em adaptar horários, conteúdos ou métodos. Será necessário repensar relações de autoridade, processos de acompanhamento, concepções de maturidade, formas de convivência comunitária e critérios de discernimento. A vocação adulta pode ser não apenas um novo desafio para as instituições, mas também uma oportunidade para que elas próprias revejam seus modelos formativos. Mais do que formar adultos para caberem em estruturas previamente estabelecidas, trata-se de construir estruturas suficientemente maduras para acolher, discernir e acompanhar adultos que desejam responder livremente ao Evangelho.

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