03 Setembro 2026
As demissões deixaram de ser um sinal associado às crises. As "big techs" anunciam lucros históricos enquanto reduzem seus quadros de pessoal para financiar centros de dados, chips e modelos de IA. Mais de 150 mil trabalhadores ficaram sem emprego nos EUA no primeiro semestre de 2026. A revolução tecno-laboral chegou... para ficar?
A reportagem é de Ignacio J. Domingo, publicada por elDiario.es, 21-08-2026.
A colcha de retalhos da IA resulta, em algumas ocasiões, desconcertante. A Microsoft suprime quase 5 mil empregos poucos dias depois de apresentar resultados que voltam a superar qualquer previsão do mercado. A Meta se desfaz de milhares de trabalhadores enquanto acelera a contratação de engenheiros especializados em IA com bônus retributivos milionários. A Oracle reconhece ter eliminado mais de 20 mil postos de seu quadro de pessoal, logo em seguida de anunciar fluxos de capital sem precedentes em infraestruturas para IA.
Amazon, Cisco, Salesforce, Microsoft, Coinbase ou Cloudflare percorrem o mesmo caminho. Nunca tantas empresas haviam demitido trabalhadores desfrutando simultaneamente de semelhante solidez financeira. A Microsoft anunciou 4.800 demissões, 2,1% de seu quadro mundial, em julho; a Cloudflare, mais de 1.100 (20% de seus funcionários) em maio, apesar de registrar receitas 34% superiores às de 2025 na metade deste ano; e a Cisco, mais de 1.100, quase 5% de seu quadro de trabalhadores.
Não é como se o trabalho tivesse realmente desaparecido. Na verdade, ele muda de dono, de funções ou de responsabilidades. Durante décadas, o mercado de trabalho funcionou como uma escada na qual as empresas, que contratavam jovens para realizar tarefas rotineiras, os transformavam, com o passar do tempo, em funcionários experientes e, mais tarde, os promoviam até assumirem competências que exigiam níveis maiores de responsabilidade e, portanto, de remuneração. A IA, no entanto, ameaça derrubar esse castelo de cartas. Desde a base. E não exatamente porque as empresas estejam sobrando de talento. Pelo contrário. A explicação é meramente tecnológica e aponta para a revolução do algoritmo e sua facilidade, ou programação, para executar atividades repetitivas que tradicionalmente serviam como porta de entrada para as profissões qualificadas.
Esse novo painel de controle produtivo encerra uma estratégia surrealista. As empresas competem por contratar especialistas em IA ao mesmo tempo em que reduzem as ofertas para jovens que aspiram um dia se tornar como eles.
A magnitude desse reajuste começa a adquirir dimensões estruturais. Segundo a plataforma especializada TrueUp, as empresas de tecnologia americanas eliminaram cerca de 150 mil postos de trabalho durante o primeiro semestre de 2026, por meio de 364 processos de demissão, uma cifra que coincide com o maior ciclo de investimentos da história da indústria de IA americana. Para Joseph Fuller, professor da Harvard Business School, não se trata de um episódio conjuntural, mas do tiro de largada de novos métodos de gestão do setor privado. As empresas, diz ele, "entraram numa fase de sintonização contínua (continuous tuning), na qual reestruturam seus quadros de pessoal sem registrar ciclos recessivos, com prazos de validade sine die e com a única justificativa das prioridades estratégicas latentes e mutáveis que a IA impõe".
Essa incerteza constante, arrisca Fuller, "fará com que as empresas se inclinem a cometer excessos de demissões".
O Goldman Sachs admite ter detectado essa transformação em tempo real. Faz isso na última edição de seu relatório AI Adoption Tracker, no qual mostra que, embora o impacto líquido da IA sobre o emprego americano tenha se moderado (de cerca de 16 mil postos destruídos por mês para cerca de 11 mil, graças ao boom da construção de centros de dados), a deterioração continua concentrada em trabalhadores jovens e ocupações administrativas e técnicas. O fenômeno ainda não reflete um aumento generalizado do desemprego, mas sim uma crescente polarização do mercado de trabalho. Enquanto eletricistas, instaladores, especialistas em climatização ou engenheiros civis encontram oportunidades ligadas à implantação de infraestruturas digitais, designers gráficos, analistas juniores, programadores iniciantes, cargos de atendimento ao cliente ou seu pessoal administrativo veem suas funções começando a ser absorvidas por modelos generativos.
A evidência, aliás, também se instalou fora de Wall Street. O AI Index 2026, elaborado por um instituto tecnológico de Stanford, revela que o emprego de desenvolvedores de software entre 22 e 25 anos caiu 20% em relação a 2024, enquanto o de seus profissionais sêniores avança. O dado reflete que as empresas contratam engenheiros, mas buscam perfis capazes de supervisionar modelos, integrar sistemas complexos ou redesenhar processos. Não apenas escrever códigos rotineiros. A IA reduz o valor das tarefas repetitivas e exige experiência acumulada.
Sequestrados pelo tecnoemprego digital
Dario Amodei, fundador e CEO da Anthropic, é um dos poucos executivos de tecnologia dispostos a descrever abertamente as consequências dessa transição. Em sua opinião, a IA poderia eliminar até metade dos empregos administrativos nos próximos anos se governos e empresas não acelerarem a readaptação de seus trabalhadores e sistemas educacionais. Seu alerta rompe com o otimismo dominante no Vale do Silício e coincide com as conclusões do Boston Consulting Group (BCG). A consultoria estima que entre 50% e 55% dos empregos americanos mudarão substancialmente de conteúdo antes do fim da década, embora apenas entre 10% e 15% desapareçam por completo. E adota o argumento de que a revolução tecnológica em curso não consistirá numa substituição massiva de pessoas por máquinas, mas numa redefinição profunda das funções que elas desempenham.
Essa mesma ideia está na base das análises da McKinsey. A consultoria assegura que as empresas mais avançadas usam a IA para automatizar tarefas isoladas. Mas, sobretudo, para redesenhar por completo seus processos de negócio. Um detalhe substancial. Porque automatizar uma tarefa permite reduzir custos e remodelar as cadeias de valor. De modo que as equipes e áreas produtivas se tornam mais reduzidas, desaparecem os níveis intermediários de supervisão, e a tomada de decisão se concentra num punhado de diretores assistidos por sistemas inteligentes. O grande gargalo é gerado pela necessidade de encontrar profissionais capazes de entender o negócio, interpretar o contexto e supervisionar corretamente as decisões dos algoritmos. Bem-vindos à economia digital.
Carrol Chang, CEO da Andela, mercado privado para seleção de talento técnico, admite que os trabalhadores autenticamente nativos de IA são "difíceis de encontrar e extraordinariamente caros", razão pela qual fazem parte de um grupo de profissionais que recebem ofertas salariais milionárias. Nunca se vislumbrou uma brecha trabalhista tão profunda entre o trabalho em cadeia e o talento tecnológico. Inclusive entre funcionários de uma mesma empresa e de big techs como Microsoft, Meta ou Oracle, que expulsam massa trabalhadora enquanto contratam especialistas em modelos fundacionais.
Jeffrey Pfeffer, professor da Stanford Graduate School of Business, avisa que esse paradigma transcende o mercado tecnológico. "É uma ferramenta de gestão voltada a corroer tudo aquilo que as empresas não conseguem automatizar; ou seja, a confiança, o conhecimento acumulado e a capacidade de coordenação entre equipes." E a perda de capital humano nem sempre aparece refletida no balanço de resultados, adverte. Ainda que "acabe deteriorando a inovação, a cultura corporativa e a produtividade a longo prazo". Fuller concorda com essa visão ao antecipar que, quanto mais a IA se expandir, mais valiosos serão os profissionais com habilidades para compreender clientes, regulações, cadeias de suprimento ou mercados específicos. "É preciso conservar as pessoas que sabem do que estão falando", resume o professor de Harvard. Ainda que isso possa não ser detectado pelo algoritmo.
Essa tendência se estende para outras latitudes. Incluindo a Europa. Ainda que num ritmo mais pausado. A SAP reorganizou milhares de postos para acelerar sua transição digital; a Siemens usa sistemas generativos para automatizar tarefas de engenharia, manutenção e design industrial, e empresas como Deutsche Telekom, BT, ING ou Deutsche Bank intensificam a automação de processos administrativos e de atendimento ao cliente. A Klarna, por exemplo, também converteu a IA em um dos pilares de sua tática operacional ao demonstrar que um único assistente conversacional pode assumir o trabalho equivalente ao de centenas de agentes. A Telefónica, por sua vez, colocou a IA no centro de sua transformação tecnológica para simplificar operações, otimizar redes e automatizar funções internas.
A Europa avança com maior cautela, condicionada por uma regulação trabalhista mais protetora e por um marco normativo como o regulamento europeu de IA, que opera na mesma direção: gestões corporativas mais enxutas, automatizadas e com demanda crescente por perfis especializados.
A OCDE e o Fórum Econômico Mundial (WEF), entidade organizadora das cúpulas de Davos, chegaram a um mesmo diagnóstico da situação: a IA não provocará um colapso generalizado do emprego. Embora gere períodos prolongados de realocações trabalhistas. Essa transição exige formação contínua, requalificação profissional e políticas educacionais capazes de preparar uma força de trabalho que conviverá constantemente com sistemas inteligentes.
Do desligamento em massa ao ajuste contínuo
Até muito pouco tempo atrás, o Vale do Silício zelava pelo emprego. Era uma das marcas registradas de plataformas tecnológicas que competiam para atrair talento num mercado com escassez de engenheiros, o que justificava salários exorbitantes, escritórios convertidos em campus universitários e quadros de pessoal que cresciam em dois dígitos ano após ano. A pandemia levou esse fenômeno ao extremo. Com juros próximos de zero e uma demanda digital disparada, as big techs contrataram centenas de milhares de trabalhadores, convencidas de que aquela expansão seria permanente. É o continuous tuning, ou ajuste contínuo, pelo qual as empresas tratam suas forças de trabalho como uma carteira que deve ser modificada constantemente conforme a tecnologia muda.
Mas a irrupção da IA generativa plasmou outra realidade, que busca alcançar o Eldorado da produtividade a marchas forçadas para justificar os desembolsos bilionários de capital aos quais a desenfreada corrida pela competitividade global com suas contrapartes chinesas as levou. Num processo que exige uma reconversão tecnológica, produtiva, administrativa e, claro, de pessoal. A empresa de recrutamento de executivos Challenger, Gray & Christmas precisa que a IA é a principal razão alegada pelas empresas americanas para justificar demissões. Ao mesmo tempo, a AlphaSense, plataforma de busca de talento no mercado, revela uma guinada copernicana na jargão corporativo. Enquanto em 2022 dificilmente se encontravam referências simultâneas a IA e demissões nas narrativas de resultados de empresas de capital aberto, este ano são mais de uma centena por trimestre as que admitem que suas variáveis de IA aconselham reajustes de emprego.
Várias das big techs americanas confirmam isso. A Microsoft insiste que seus últimos cortes não respondem à IA, mas sim à necessidade de simplificar sua organização. Mas ela os aborda. A Meta mantém um discurso de branqueamento semelhante, com expulsão de pessoal, ao mesmo tempo em que concentra milhares de funcionários em novas divisões de modelos fundacionais. A Cisco admite abertamente que precisa deslocar investimentos para áreas com potencial de crescimento por meio do algoritmo, e a Oracle vai ainda mais longe ao admitir, em seu relatório regulatório, que a adoção de tecnologia de IA é a causa de um corte de pessoal de 21 mil pessoas desde o verão passado, e ao adiantar que o processo está longe de diminuir no futuro.
De fato, os próprios roteiros das big techs, suas estratégias corporativas de curto e médio prazo, corroboram isso. As quatro tradicionais, Amazon, Microsoft, Alphabet e Meta, agora, com a licença da Nvidia, a de maior capitalização bursátil, com um PIB semelhante ao alemão, preveem destinar 700 bilhões de dólares a redes vinculadas à IA ao longo de todo o ano de 2026. De modo que o dinheiro liberado pelos ajustes trabalhistas não desaparece de seus livros contábeis. Apenas muda de destino. Por meio de itinerários e projetos para financiar centros de dados, processadores especializados, infraestruturas, contratos elétricos e capacidade de computação. Com a inestimável ajuda do AI washing, ou branqueamento de processos de demissão pela IA por parte de seus executivos, para ganhar tempo perante seus acionistas até que os investimentos bilionários em IA elevem margens e rentabilidades.
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