A energia curativa dos gatos domésticos. Artigo de Leonardo Boff

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04 Setembro 2026

Cuidemos desses seres domésticos, amorosos como o Queirós, respeitando sua liberdade intrínseca, dando-lhes o alimento adequado sem as adições químicas que lhes são prejudiciais. Eles são companheiros em nossas sociedades, que são parte da natureza, portadora de direitos, e por isso os gatos comparecem como concidadãos, também sujeitos de direitos a serem respeitados.

O artigo é de Leonardo Boff, teólogoque também escreve para a revista do ICL LIBERTA, disponível aqui. Escreveu também O pescador ambicioso e o peixe encantado: a busca da justa medida (Vozes, 2022), disponível aqui.

Eis o artigo. 

Temos em casa um gato maravilhoso chamado Queirós. De vez em quando desaparecia e reaparecia 3-4 dias depois. Por esta razão, demos-lhe o nome de Queirós como referência àquela figura política que sumia e depois reaparecia. Servia aos interesses de uma conhecida família de políticos, todos homens, que construíram suas fortunas de forma obscura. O nosso Queirós é amoroso e possui especial energia curativa.

Se entrarmos no Google ou em outras plataformas de informação, encontraremos em todas elas a constatação da energia terapêutica dos gatos. Eles cumprem uma missão que vai além de seres animais de estimação. São portadores de energias sutis que se conectam com as energias humanas. Seu ronronar em distintas escalas é uma das formas como se acercam ao ser humano, especialmente adoentado.

Jean-Yves Leloup, um psicanalista do profundo, de origem francesa, estudou especialmente a terapia dos animais, particularmente dos gatos, na história do Egito antigo. Chegou a criar um movimento que vem sob o nome "Os terapeutas do Deserto" (Vozes, 1997). O terapeuta não precisa de formação psicológica ou psiquiátrica acadêmica. Pode vir de outros saberes, mas que se propõe entrar em contato íntimo com a natureza e seus elementos de forma a viver uma verdadeira comunhão com eles. É esse processo de comunhão que libera a irradiação das energias dos elementos e faz com que se torne curativo. Sem invalidar as terapias clássicas das várias escolas da psicologia e da psiquiatria, C. G. Jung foi um dos poucos que valorizou essa energia natural, pois, segundo a fórmula de Einstein, matéria e energia se equivalem. Werner Heisenberg, da mecânica quântica, sempre insistia que matéria não existe. Tudo é energia em distintos graus de densidade. E a energia, formando campos, sempre se difunde em todas as direções.

Tive a oportunidade de visitar algumas vezes a mística, poeta e escritora Adriana Zarri (1919-2010), perto de Strambino, no norte da Itália. Fazia dura crítica ao conservadorismo do Papa João Paulo II e de Bento XVI. Convivia com sua gatinha, a Arcibalda, a quem dedicou seu último artigo.

Ela, como pude testemunhar pessoalmente, possuía uma relação afetuosa com a gata como de íntimos amigos. Aquilo que a nossa grande psicanalista junguiana Nise da Silveira descreveu em seu livro Gatos, a emoção de lidar (1998) foi confirmado pela escritora Zarri, que escreveu: "o gato tem a capacidade de captar o nosso estado de alma; se me vê chorando, logo vem lamber minhas lágrimas".

Contam que a gata esteve junto dela enquanto expirava. Ao ver os amigos chegarem para o velório, se enrolava na cortina da sala para acolhê-los. Como se soubesse a hora, discretamente, pouco antes de fecharem o féretro, entrou discretamente na capela que havia no casarão em que Zarri seria velada.

Alguém, sabendo do amor da gatinha pela mística, pegou-a ao colo e a aproximou ao rosto dela. Fixou-a longamente e parecia que lacrimejava. Depois colocou-se debaixo do féretro e aí permaneceu em absoluta quietude.

Voltemos ao nosso gatinho Queirós. Por razões que não cabe aqui referir, estive por certo tempo acamado. O Queirós ficava ao meu lado e às vezes por longo tempo sobre o meu peito. Dormia ao meu lado, colado ao meu corpo para poder sentir-lhe o calor.

De manhã vinha pressuroso e com sua patinha me saudava, colocando-a sobre o cobertor. Ficava por longo tempo sobre a parte ferida do corpo, como se quisesse passar sua energia curativa. Efetivamente a passava, pois ouvia seu ronronar, a forma como os gatos e também as gatas se comunicam.

Estima-se que existem no mundo entre 600 milhões a 1 bilhão de gatos, de 250 raças diferentes. Geralmente vivem entre 15 e 20 anos.

Presume-se que o gato ancestral (Felis catus) remonta a 15 milhões de anos. Entretanto, sua domesticação começou na Babilônia por volta de 7500 a.C. É um animal cosmopolita, pois existe no mundo inteiro. Ele foi importante no neolítico, quando surgiu a agricultura. Alimentos e frutas eram atacados por ratazanas e outros roedores. Aí a função dos gatos, sempre tidos como bons caçadores, se tornou decisiva, também nas casas nas quais havia tais roedores.

Os gatos, por seu DNA, possuem um cérebro bastante evoluído, o que os torna capazes de sentir emoções e, como consideramos, possuir uma irradiação curativa. São extremamente higiênicos, empenhando largo tempo no cuidado da pelagem, utilizando a parte áspera da língua para remover sujeira e pó.

Por mais que praticamente por todo o tempo tenham sido animais de estimação, difundiu-se, no entanto, no início da Idade Média, a crença de estarem associados às bruxas e ao demônio. Curiosamente, foram excomungados, julgados em praça pública e queimados como se fazia com as bruxas.

Graças a Deus, passado esse tempo sombrio, mesmo na Idade Média das universidades e dos estudos, foram reintroduzidos como animais de estimação.

Hoje, gatos de todas as raças existem em muitas famílias. Alguns mais trabalhados artisticamente e até são levados pelas madames nos encontros sociais, talvez roubando mais carinho do que o dedicado aos próprios filhos.

Por fim, cuidemos desses seres domésticos, amorosos como o Queirós, respeitando sua liberdade intrínseca, dando-lhes o alimento adequado sem as adições químicas que lhes são prejudiciais. Eles são companheiros em nossas sociedades, que são parte da natureza, portadora de direitos, e por isso os gatos comparecem como concidadãos, também sujeitos de direitos a serem respeitados.

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