02 Setembro 2026
Tendo como pano de fundo o filme "Planeta dos Macacos", a encíclica Magnifica Humanitas do Papa Leão XIV aponta para um perigo mais sutil do que a dominação da IA: o de que os humanos possam vir a imitar as máquinas que criam.
O artigo é de José Borg, publicado por Global Catholic, 01-09-2026.
José Borg é professor visitante sênior na Universidade de Malta, onde leciona Ética da Mídia e outras disciplinas. Foi ordenado sacerdote em 1977.
Eis o artigo.
A franquia Planeta dos Macacos, que começou com o filme de 1968, continuou a ser adaptada até seu lançamento mais recente em 2024.
Ambientado em um mundo pós-apocalíptico, humanos e macacos inteligentes entram em conflito pela supremacia. O resultado é uma inversão de papéis: macacos altamente inteligentes ascendem à supremacia enquanto os humanos são escravizados.
Com o tempo, a série tornou-se uma referência cultural sobre arrogância e autodestruição. Ao longo de suas versões, ela questiona repetidamente quem merece o domínio, o que torna uma sociedade humana e como a violência e a tecnologia remodelam a identidade.
Hoje, em um mundo moldado pela IA, a série parece renovada e relevante. A competição — se não a luta — não é mais entre humanos e macacos inteligentes, mas entre humanos e sua própria criação. Além das questões de domínio, agora enfrentamos preocupações sinistras sobre a sociedade, a humanidade e a tecnologia.
A crença de que a IA irá dominar ou escravizar os humanos é generalizada, especialmente na cultura popular. Os tecnófobos frequentemente apontam para O Exterminador do Futuro (1984) como a representação mais icônica da dominação da IA: a Skynet torna-se senciente, inicia um holocausto nuclear e trava uma guerra para exterminar a humanidade.
🔍 Adicione o Instituto Humanitas Unisinos – IHU às suas fontes favoritas do Google
Her (2013) e Ex Machina (2015) apresentam dois caminhos muito diferentes para a superioridade da IA — um através do apego emocional que substitui silenciosamente os relacionamentos humanos, o outro através da inteligência que supera o controle humano e a compreensão moral.
Os tecnófilos, por outro lado, encontram consolo em representações de IA benevolente: o ajudante compassivo em The Wild Robot (2024) ou o sistema que impede a destruição global em WarGames (1983).
A posição de Leão XIV sobre a tecnologia em geral, e a IA em particular, é muito mais matizada. Em Magnifica Humanitas (MH), ele se distancia tanto do otimismo dos tecnófilos quanto do pessimismo dos tecnófobos.
Ele adverte os leitores para que “não demonizem nem idolatrem as ferramentas tecnológicas” (MH 137). A encíclica vai além da dicotomia simplista de que a IA ou domina a humanidade ou a serve fielmente. A realidade, insiste ele, é mais complexa.
A metáfora de Leão sobre a IA como uma “ferramenta” é extensa. Ele a chama de ferramenta valiosa que requer uma abordagem ponderada e vigilante (MH 100) e insiste que seu uso “nunca é uma questão puramente técnica” (MH 192). Na nota de rodapé 123, ele cita a descrição do Papa Francisco sobre a IA como “uma ferramenta empolgante e temível”. Leão também rejeita a concepção errônea comum de que as ferramentas tecnológicas são neutras e se tornam boas ou ruins apenas pelo uso.
Ele escreve:
“Não podemos considerar a IA moralmente neutra. Na realidade, toda ferramenta técnica incorpora escolhas e prioridades através do que mede, ignora e otimiza, e de como classifica pessoas e situações. Se um sistema é projetado ou usado de forma a tratar algumas vidas como menos valiosas, ou a excluí-las sem possibilidade de recurso, então não é meramente uma ferramenta 'para ser bem usada', uma vez que já introduziu critérios que contradizem a dignidade inalienável da pessoa humana” (MH 104).
A IA torna-se uma “ferramenta” capaz de remodelar “ações cotidianas e relações sociais” (MH 131). Ela pode “impulsionar mudanças profundas na comunicação pública e política… fomentar o diálogo e a participação… construir narrativas distorcidas e confundir as fronteiras entre a verdade e a falsidade” (MH 132).
Mais do que uma ferramenta, “a IA já é um ambiente no qual estamos imersos, bem como uma força com a qual devemos interagir” (MH 110). O conteúdo que circula neste ambiente digital “molda a forma como as pessoas percebem o mundo e introduz na consciência coletiva imagens e narrativas que direcionam os nossos desejos e influenciam as nossas escolhas diárias” (MH 135).
Leão então refuta o que eu chamo de “Síndrome do Planeta dos Macacos”. Seu principal alerta antropológico é que o verdadeiro perigo não é que a tecnologia nos domine, mas que sejamos moldados à sua imagem e semelhança — “porque toda tecnologia molda aqueles que a usam” (MH 140).
O maior perigo reside no fato de que os seres humanos podem começar a imitar os sistemas que criam: reduzindo a complexidade a dados, tratando os relacionamentos como transações e perdendo a dignidade da vulnerabilidade. Em seu discurso em Madri, no início deste ano, ele alertou contra “simplificações que deformam a pessoa humana”, defendendo, em vez disso, “uma apreciação frutífera da complexidade”. Sua preocupação não é meramente cultural ou política; é existencial.
Isso coloca Leão em continuidade com uma longa tradição dentro da teoria da comunicação.
Em seu livro A Galáxia de Gutenberg (1962), o filósofo e teórico da mídia canadense Marshall McLuhan narra a história de um velho que, irritado, disse a um sábio chinês que quem usa uma máquina cultiva o coração da máquina. Em Compreendendo os Meios de Comunicação (1964), ele escreve: “Nós nos tornamos aquilo que contemplamos. Moldamos nossas ferramentas e, depois disso, nossas ferramentas nos moldam.”
As tecnologias não apenas ampliam os poderes humanos; elas reconfiguram a percepção e a identidade humanas. A percepção de McLuhan foi posteriormente reforçada por pesquisas neurológicas, incluindo trabalhos recentes do especialista em comunicação Rachid Amadane (2024).
Walter J. Ong, SJ, em Oralidade e Letramento (1982), argumentou que a escrita, a imprensa e os meios eletrônicos produzem formas distintas de consciência. Sua famosa frase — “As tecnologias não são meros auxílios externos, mas também transformações internas da consciência” — captura a ideia de que as ferramentas humanas remodelam nossa cognição, memória e percepção da realidade.
Yuval Noah Harari, em Homo Deus (2015) e 21 Lições para o Século 21 (2018), estende essa análise a algoritmos e plataformas digitais. Ele repete o aforismo de McLuhan: “Nós moldamos nossas ferramentas e, depois disso, nossas ferramentas nos moldam”.
O pensamento algorítmico, alerta ele, treina os humanos a se enxergarem como conjuntos de dados, incentiva a otimização em detrimento da contemplação e torna o comportamento previsível e programável.
Em trabalhos posteriores, Harari adapta essa ideia à IA. Em Davos, em 2026, ele argumentou: “O mais importante a saber sobre IA é que ela não é apenas mais uma ferramenta. É um agente.” Isso marca uma transição decisiva. Um agente age de forma autônoma e gera conteúdo novo — características geralmente não associadas a ferramentas.
Embora a Magnifica Humanitas situe Leão XIV firmemente dentro dessa tradição intelectual, ele, em última análise, a transcende. Mais do que oferecer uma análise profunda do papel da IA, a encíclica apresenta uma antropologia cristã.
É isso que torna a contribuição de Leão singular. Para ele, a pessoa humana é dotada de dignidade, interioridade e profundidade relacional — realidades que nenhum algoritmo consegue quantificar. Essa fundamentação teológica introduz uma nota de esperança amplamente ausente das análises seculares.
Assim, Leão refuta o que eu chamo de “síndrome do Planeta dos Macacos”: o medo de que a humanidade seja conquistada por suas próprias criações. Ele reconhece o perigo de os humanos começarem a imitar máquinas, mas, baseando-se na visão cristã da pessoa, insiste que essa trajetória não é inevitável.
Os seres humanos podem resistir ao reducionismo tecnológico porque são mais do que dados, mais do que sistemas e mais do que comportamento programável.
Para sustentar essa resistência, Leão propõe uma estratégia tanto política quanto religiosa. Comentarei apenas a última, que é uma estratégia de quatro pilares: a fé “que contempla o plano amoroso do Pai; o amor, que nos une em um só corpo eclesial; e a esperança, que sustenta nossas ações no mundo”, juntamente com a oração (MH 243).
Ele chega a propor o Magnificat de Maria como um programa político: os poderosos abatidos, os humildes exaltados. Esta é uma visão radicalmente nova para a humanidade – uma em que, como Maria, nos tornamos “tecelões da esperança”, para que, através da “humilde fidelidade da vida diária, até mesmo a era da IA possa se tornar um tempo em que o Espírito Santo traga a civilização do amor para as nossas vidas” (MH 245).
Magnifica Humanitas não é, portanto, um lamento, mas uma convocação. Ela convida a humanidade a se engajar com a IA sem medo ou ingenuidade, guiada por uma antropologia que salvaguarda a dignidade e alimenta a esperança.
Leia mais
- Magnifica Humanitas: um mapa das primeiras reações à encíclica sobre IA
- Magnifica Humanitas. Limites, possibilidades, perspectivas. Algumas análises
- ‘Magnifica Humanitas’. A inteligência artificial exige mais filosofia, não menos tecnologia. Entrevista especial com Celso Cândido de Azambuja, Denis Coitinho e Gabriel Ferreira
- Magnifica Humanitas: “Uma leitura que nenhum documento governamental teria facilidade de fazer com franqueza”. Entrevista especial com Marcelo Chiavassa
- Magnifica Humanitas: “um hino de sabedoria e de amor para um mundo de ‘podres poderes’ que se digladiam”. Entrevista especial com Lucia Santaella e Scott Hurd
- Uma magnífica humanitas sem humanitas. Artigo de Anita Prati
- Teilhard de Chardin aponta para o que Leão XIV deixou passar na 'Magnifica Humanitas'. Artigo de Ilia Delio
- Está sendo criada a Comissão Interdicasterial sobre Inteligência Artificial no Vaticano
- A visão do Papa sobre a IA e seus limites. Artigo de Peter Singer
- Uma solução católica para o preconceito de gênero na IA. Artigo de Phyllis Zagano
- O que é a Doutrina Social da Igreja? Retomando a compreensão. Artigo de Elvis Rezende Messias
- Mais-do-que-humanismo e pós-humanismo: aproximações a partir da 'Magnifica humanitas'. Artigo de Moisés Sbardelotto