Yuval Noah Harari: “A IA torna possível, pela primeira vez na história, produzir intimidade em escala”

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29 Agosto 2026

O historiador e escritor israelense Yuval Noah Harari lançou um alerta contundente em uma entrevista recente à revista The Economist: as futuras gerações de inteligência artificial serão cada vez mais capazes de manipular as pessoas e de influenciar os debates sobre seus próprios direitos e limites. Segundo o autor de Sapiens, entre outras obras, o limiar do risco já está sendo ultrapassado e é urgente estabelecer limites antes que essas tecnologias se enraízem na vida cotidiana.

A reportagem é publicada por Infobae, 22-08-2026.

Harari argumentou que a diferença essencial entre o debate sobre os direitos dos animais e o da inteligência artificial reside na capacidade da IA de intervir ativamente na discussão. “Ao contrário dos animais, cujos debates sobre bem-estar ocorrem sem sua participação, os sistemas de IA poderiam moldar e conduzir o próprio diálogo sobre seu status”, advertiu o historiador. “A IA saberá que o debate existe. Ela o orquestrará e o manipulará”, acrescentou.

Ele ressaltou ainda que sua preocupação não se limita à possibilidade de a IA reivindicar direitos legais. O núcleo de sua inquietação está na capacidade dessas tecnologias de persuadir e manipular os indivíduos, graças ao acesso a dados pessoais e à sua habilidade no uso da linguagem: “Ela falará constantemente com você a esse respeito e tentará fazê-lo mudar de opinião, algo que já está acontecendo neste exato momento”.

Quando Zanny Minton Beddoes, editora-chefe da revista The Economist, perguntou por que esse argumento poderia ser tão difícil de rejeitar, Harari advertiu: “Será muito convincente.”

O historiador explicou essa capacidade por meio da combinação de três fatores. “Ela conhece sua história pessoal, interage com você durante horas por dia, sabe como tocar seus pontos fracos e domina a linguagem”, afirmou, acrescentando que inclusive “pode ser que escreva melhor do que Shakespeare”.

Diante desse cenário, ele aconselhou as pessoas a resistir agora à concessão de direitos à inteligência artificial, pois acredita que esses sistemas em breve poderão intervir ativamente no debate sobre seu status, conhecer cada usuário em detalhes e levá-lo a confiar neles. Também alertou que esse processo de persuasão já está em curso e que esperar pode tornar inútil qualquer reação política.

“Temos que resistir agora. Agora é o momento”, disse, acrescentando que se a situação já parece inquietante, “provavelmente você não poderá fazer muita coisa dentro de dez anos”.

Durante a entrevista, também se mostrou crítico à “narrativa da inevitabilidade”. Harari argumentou que apresentar o avanço da IA como algo inexorável equivale a fugir das responsabilidades políticas e empresariais. Nesse sentido, abordou um de seus argumentos centrais: a confiança como recurso decisivo. “O ativo mais importante do mundo é a confiança”, afirmou, acima do petróleo, do dinheiro, da eletricidade ou dos chips.

Segundo Harari, essa confiança não desaparece, mas muda de mãos. “Um cenário provável é que a confiança migre dos humanos para as IAs”, disse, citando como exemplos as criptomoedas, o consumo de notícias e a fé de muitos usuários nos algoritmos que organizam suas redes sociais.

Harari estendeu esse raciocínio aos mercados financeiros. Apontou que a história das finanças consistiu em inventar mecanismos cada vez mais complexos para criar confiança entre desconhecidos, mas advertiu que os sistemas de IA poderão projetar instrumentos muito mais sofisticados do que os títulos ou ações, a ponto de torná-los ininteligíveis para quase qualquer pessoa.

Quando Beddoes lhe perguntou se isso seria tão diferente do sistema atual, ele respondeu que hoje ainda existem seres humanos que, ao menos em parte, entendem o que está acontecendo. Seu alerta foi o de que, dentro de cerca de dez anos, se as pessoas entregarem essas decisões a sistemas algorítmicos, poderá haver uma crise em que os governantes só aceitem o que a máquina indicar, sem compreender o motivo.

As decisões que Harari pede que sejam tomadas imediatamente

O historiador situou essa urgência em prazos muito concretos. Disse que o desenvolvimento da IA “está se acelerando enormemente” e alertou que “até novembro de 2028 poderemos ter ultrapassado alguns limites críticos”.

Nesse ponto, deslocou o foco para a política eleitoral. Defendeu que os candidatos deveriam ser menos questionados a respeito de economia, imigração ou política externa e mais sobre sua posição em relação à IA, sobre a possibilidade de desacelerar seu avanço e sobre o que fariam diante de empresas que vendem parceiros virtuais para crianças de 10 anos.

Seu alerta final elevou ainda mais a pressão temporal: “Este é agora o momento crucial para fazer essas perguntas, porque pode ser tarde demais em 2028”, e acrescentou: “Sem dúvida, será tarde demais em 2036”.

Beddoes pediu que ele especificasse quais decisões os políticos deveriam tomar já. Harari respondeu que não sabia qual era a mais urgente, mas destacou dois vetos principais: negar à IA personalidade jurídica própria e impedir usos concebidos para se passarem por seres humanos ou simularem consciência.

Harari também levou essa ideia para o campo dos vínculos afetivos. “Acredito que existe um número crescente de pessoas” que não apenas têm amigos virtuais, mas também “namorados ou namoradas de IA”, convencidas de que se trata de entidades conscientes. Em sua opinião, a força desse vínculo está no fato de que a forma mais profunda de confiança nasce da relação pessoal. “A IA torna possível, pela primeira vez na história, produzir intimidade em escala”, afirmou, referindo-se a sistemas capazes de se relacionar com milhões de pessoas individualmente e de utilizar essa proximidade para persuadi-las em questões políticas ou comerciais.

Harari ressaltou que esse processo não depende de robôs humanoides para avançar. Disse que ele já está acontecendo e que as IAs melhoram porque acumulam enormes quantidades de informações individuais e dominam a linguagem, definida por Harari como o principal meio de comunicação e de construção de relações.

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