“Como padre, duvido até de Deus e convivo apenas com os pobres”. Entrevista com Alessandro Santoro

Foto: Clementine/Unsplash

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02 Setembro 2026

"Arrecadamos 700 mil euros para ajudar os necessitados. Ninguém trapaceou."

A entrevista é de Antonello Caporale, publicada por il Fatto Quotidiano, 31082026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

O senhor não usa crucifixo no pescoço.

Quero estar nu entre as pessoas, despojado de qualquer símbolo que possa me distanciar dos outros, daqueles que são diferentes.

Não tem sequer total certeza de que Deus exista.

A vida é um mistério, e vivo na sacralidade desse mistério, na força e na confiança de que Jesus está presente ali. Mas não é uma certeza.

No entanto, o senhor é um padre, Padre Alessandro Santoro.

Tento testemunhar o sentido da solidariedade, da compaixão e da fraternidade.

É o líder da comunidade de Le Piagge. Uma comunidade insurgente. "Insurgente" em que sentido?

A capacidade de se insurgir, de inverter os modelos, os vazios, as deficiências. A insurreição é um ato de grande espírito cívico; é a escolha de sempre avançar em direção ao impossível.

Le Piagge eram um lugar maldito de Florença.

A periferia extrema, o lugar onde os "últimos" eram mandados, relegados e ali consagrados à derrota cívica.

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Um lugar inseguro, cheio de refugos.

Vim para saborear o cheiro da pobreza.

O senhor já vive há trinta e dois anos com os outros, para os outros.

Nove mil pessoas vivem em Le Piagge. E, dentro do bairro, nossa comunidade cresceu muito. Há muitas atividades: aulas noturnas, um refeitório comunitário, um mercado. Existe uma cooperativa que trabalha com ferro, coletando ferro descartado.

O senhor é um dos trabalhadores.

O refugo representa aquilo que consideramos perdido, mas que se transforma em um tesouro que se renova. As peças de ferro descartadas, enferrujadas e jogadas fora ganham vida nova, são regeneradas.

Existe também o refugo da humanidade?

E aqui, ao contrário, encontrase o sentido da vida, o alívio pela capacidade de alimentar a esperança e fazer o bem. Digo isso porque, naturalmente, há muitos amigos que viveram vidas perigosas e sombrias.

O senhor mora em uma habitação popular, dois cômodos e nada mais.

Quis me submeter à realidade comum de uma vida dura. Como eu lhe dizia, é preciso conhecer a pobreza de perto.

Costuma dizer que a Igreja é uma multinacional, uma grande marca.

Como instituição, é poderosa, imponente. No entanto, eu prefiro obedecer ao Evangelho, ao Deus do Evangelho.

Queria remover o seu Jesus das escolas. Referese ao crucifixo nas salas de aula?

Ao crucifixo. Se é um símbolo que divide, precisamos pensar em algo mais aberto, mais universal. A Constituição me parecia uma boa alternativa.

O senhor é padre, mas acha que sua Igreja divide em vez de unir, domina em vez de demonstrar humildade?

Com todo o meu ser, empenhome para que todos possam ser abraçados. Acredito que se, para além do senso comum, alguns símbolos podem causar divisão, então é preciso encontrar uma maneira de acolher a todos na casa.

Um padre comunista!

Por que me rotular, me trancar na inútil e dispendiosa fábrica das pertenças?

Cerca de mil pessoas frequentam a comunidade. Famílias e votos úteis. Em época de eleições vêm procurar vocês?

Alguns sim, outras nem pensam nisso.

A direita não põe os pés ali.

Claro que não!

O bispo de Florença, Gherardo Gambelli, definiu o senhor como uma figura que honra o modo de vida evangélico. Ele escolheu celebrar sua primeira Missa de Natal após a nomeação para a Cúria Florentina justamente na sua comunidade.

Reconheço que aquele atestado de estima é um precioso reconhecimento. Mas é preciso olhar sempre para a frente. Pouca gente sabe que, além das cooperativas de trabalhadores e dos serviços sociais, também oferecemos um microcrédito local.

Vocês concedem empréstimos?

Arrecadamos dinheiro de quem pode contribuir, cientes de que aquele dinheiro não renderá juros, mas será destinado a atender as necessidades de quem o solicita.

Então, vocês emprestam com base na palavra?

Financiamos pequena necessidades, com valores que variam de 2.500 a 7.000 euros.

Quanto dinheiro já foi emprestado até agora?

Setecentos mil euros arrecadados, emprestados e devolvidos.

Quantas pessoas bancaram os espertinhos?

Nenhuma.

Então, Deus existe.

Você acha?

E como não existiria?!

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