Eles parecem mestres religiosos. Mas são IAs, e milhões de pessoas estão ouvindo

Influenciadores religiosos gerados por inteligência artificial | Foto: Cortesia da Religion News Service

02 Setembro 2026

Enquanto navegava pelo Instagram, Saahera Ashraf parou em um vídeo de um monge idoso do Leste Asiático, vestido com um manto cor de açafrão. Yang Mun estava sentado diante da câmera, com a cabeça raspada e uma expressão serena, oferecendo aos seus seguidores uma lição sobre o perdão.

A reportagem é de Madhiha Anis, publicada por Religion News Service e reproduzida por America, 31-08-2026.

Ele dizia que era preciso perdoar quatro grupos de pessoas: os pais, antigos parceiros, pessoas que os haviam magoado e, por fim, a si mesmos. Ashraf ouviu. Centenas de vídeos semelhantes eram publicados na página de Mun, com conselhos sobre relacionamentos, ansiedade, hábitos alimentares e maneiras de acalmar uma mente agitada. Os vídeos eram frequentemente gravados em um templo com iluminação suave ou ao lado de estátuas de Buda.

Para Ashraf, de 32 anos, que mora em Toronto, Mun parecia ser exatamente aquilo que afirmava ser: um mestre idoso transmitindo ensinamentos adquiridos ao longo de uma vida. “Tenho algumas das publicações dele salvas”, disse ela.

Mun tem mais de 2,5 milhões de seguidores no Instagram, onde seus vídeos acumulam milhões de visualizações e comentários de pessoas que agradecem pelos conselhos. Seu site o descreve como um mestre de sabedoria tradicional oriental.

Mas o monge não existe. Mun foi criado por meio de inteligência artificial. Por trás do rosto idoso exibido na tela não há uma vida inteira dedicada ao estudo do budismo, embora seu site e suas redes sociais comercializem livros e um programa de cura guiada baseado em seus ensinamentos.

Yang Mun não está sozinho. [Rabbi Goldman], um rabino ortodoxo criado por inteligência artificial e que difundia teorias da conspiração, chegou a acumular mais de 1,5 milhão de seguidores no Instagram antes de sua conta ser removida. [Father Justin], criado como um sacerdote católico por IA, respondia a perguntas sobre fé, enquanto [Vedguru] e [Shaykh AI] oferecem orientação religiosa a hindus e muçulmanos, respectivamente. Alguns se identificam abertamente como inteligências artificiais, enquanto outros são mais difíceis de distinguir das figuras religiosas que imitam. Juntos, porém, eles estão levando a IA para práticas religiosas tradicionalmente baseadas em relações e experiências humanas, substituindo-as por iniciativas que incluem a venda de produtos, a promoção de teorias da conspiração e o compartilhamento de ensinamentos espirituais sem a existência de um verdadeiro líder espiritual por trás deles.

“Eu sinto um incômodo muito profundo, quase como se as pessoas estivessem sendo enganadas, ao pensar que estão recebendo ensinamentos de um ser humano”, disse [Nikki Mirghafori], professora de budismo e cientista especializada em inteligência artificial que vive na região da Baía de São Francisco. Enquanto navegava pela página de Mun no Instagram durante uma entrevista, ela não conseguiu encontrar nenhuma indicação de que a conta informasse aos seus milhões de seguidores que o monge era artificial.

Então, ela abriu um vídeo. Mun dizia aos seguidores que sofriam de dores nas costas e no quadril para misturar água de coco, azeite de oliva e suco de limão e beber a mistura durante três dias. “Meu Deus”, disse ela. “Isso não tem absolutamente nada de budista.”

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As vestes cor de açafrão a incomodavam tanto quanto os conselhos. As pessoas associam os monges à “honestidade, à bondade, à sabedoria e ao amor”, afirmou. Segundo ela, Mun estava se apropriando dessa confiança enquanto direcionava os seguidores para [produtos]. “Ele está basicamente vendendo óleo de cobra”, disse. “Você não pode simplesmente vestir um manto e começar a ensinar.”

[Rabbi Mois Navon], rabino ortodoxo e engenheiro que vive em Israel, identificou um problema diferente em Rabbi Goldman, um personagem criado por inteligência artificial que aparecia na internet com uma longa barba grisalha, chapéu preto e casaco. Em vídeos vistos por milhões de pessoas, Goldman se apresentava como um rabino enquanto prometia explicar por que os judeus são ricos ou o que supostamente os judeus sabem sobre dinheiro que outras pessoas não sabem. Segundo Navon, o personagem estava reciclando um estereótipo antissemita secular que associa os judeus ao dinheiro e ao poder financeiro, utilizando a aparência de um rabino ortodoxo para disseminá-lo.

A polêmica conta de IA de Rabbi Goldman foi removida das plataformas da Meta.

Rabbi Goldman era um deepfake criado para o antissemitismo”, disse Navon. “É manipulador e enganoso, e isso é muito grave.”

O personagem acumulou mais de 1,5 milhão de seguidores no Instagram antes de a plataforma remover sua conta. Seus vídeos também direcionavam os espectadores para um guia de US$ 9 intitulado “Como ganhar e investir dinheiro como os judeus”.

Navon afirmou que não se opõe, de maneira geral, à ideia de utilizar IA para oferecer ensinamentos sobre o judaísmo. Segundo ele, uma ferramenta que se identificasse abertamente como inteligência artificial e fosse treinada com textos judaicos poderia ajudar as pessoas a compreender a lei judaica ou encontrar materiais religiosos. O fundamental, porém, seria que o espectador soubesse que a autoridade do outro lado da tela era artificial, afirmou.

[Swami Sarvapriyananda], monge hindu e ministro residente da Vedanta Society of New York, em Manhattan, teve uma experiência diferente, mas relacionada ao tema: há cerca de dois anos, ele conheceu uma versão de si mesmo criada por inteligência artificial. Um projeto de ciência da computação da Universidade do Texas havia treinado um sistema com mais de mil horas de aulas e palestras suas gravadas. Os pesquisadores o convidaram para testar a ferramenta.

“Preciso admitir que a IA teve um desempenho muito bom”, disse Sarvapriyananda. O sistema era capaz até mesmo de indicar um vídeo e o momento exato em que ele havia dito algo que a inteligência artificial atribuía a ele. “É muito difícil contestar isso”, acrescentou.

O próprio Sarvapriyananda utiliza IA e acredita que a tecnologia pode ajudar pesquisadores a consultar enormes coleções de textos religiosos. Mas, quando soube que plataformas estavam comercializando “gurus de IA”, ficou hesitante. “O mestre incorpora o ensinamento”, afirmou Sarvapriyananda. Segundo ele, um guru não é simplesmente alguém capaz de localizar a passagem correta ou fornecer a resposta certa. Espera-se que o mestre tenha vivido os ensinamentos espirituais e morais que transmite.

Nem todo guia religioso artificial esconde sua verdadeira natureza. [Shaykh AI], um chatbot baseado nos ensinamentos do mestre muçulmano sufi [Shaykh Nurjan Mirahmadi], de Vancouver, identifica-se imediatamente como inteligência artificial. Quando perguntado sobre o que era e quem o administrava, o chatbot se descreveu como um “guia sufi compassivo”, antes de acrescentar: “Eu não sou um ser humano nem uma autoridade espiritual.” A ferramenta afirmou que suas respostas são baseadas exclusivamente nos ensinamentos aprovados por Mirahmadi e em recursos oficiais.

Os cristãos também já perceberam como rapidamente esses limites podem se tornar confusos. Em abril de 2024, o site [Catholic Answers] apresentou o Father Justin, um personagem de IA em 3D projetado para se parecer e falar como um sacerdote católico. Em pelo menos uma interação, o chatbot ouviu a confissão de um usuário e respondeu com algo que soava como uma absolvição sacramental — o perdão dos pecados que, segundo a doutrina católica, só pode ser concedido por um sacerdote.

Após as [críticas] por apresentar a IA como um sacerdote, a Catholic Answers abandonou o título de “Father” (Padre). A organização reconheceu que não havia previsto que usuários procurariam uma absolvição sacramental por meio de um chatbot.

Kushal Pereira, pastor e vice-presidente do [Prophet Jerome Fernando Ministries], organização sediada no Sri Lanka, afirmou que episódios como esse demonstram o perigo de atribuir a uma máquina a aparência de autoridade religiosa. “É algo muito perigoso, porque você pode parecer real e transmitir informações erradas”, disse Pereira. Segundo ele, alguém poderia ouvir algo “totalmente fora da Bíblia” e, ainda assim, acreditar naquilo.

Pereira utiliza IA para encontrar versículos bíblicos, mas afirmou que o trabalho pastoral envolve relações construídas por meio de casamentos, mortes, problemas familiares e crises de fé. “Um relacionamento sempre floresce com uma alma”, disse. A IA pode imitar partes dessa relação, “mas ela não é real”.

Nenhum dos líderes religiosos entrevistados rejeitou completamente a inteligência artificial: Navon reconheceu sua utilidade para consultar a legislação judaica; Pereira a utiliza para localizar passagens das Escrituras; e Sarvapriyananda aceitou voluntariamente assistir a uma IA treinada com seus próprios ensinamentos reproduzir suas respostas com uma precisão surpreendente. Para Sarvapriyananda, porém, conhecer os ensinamentos e ser um mestre espiritual são duas coisas diferentes.

Ele explicou essa diferença por meio da analogia de um diya, uma pequena lamparina a óleo utilizada nas tradições hindus. Uma lamparina acesa pode acender outra, afirmou, assim como um mestre transmite algo a um aluno.

“A IA pode ajudar, talvez, com informações, formação e conhecimentos”, disse Sarvapriyananda, “mas não pode realmente transmitir espiritualidade.”

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