Por trás da visita do chefe da CIA, revela-se a impotência das superpotências

Foto: Wikimedia Commons

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31 Agosto 2026

As duas superpotências estão aprendendo às suas próprias custas que não conseguem mais gerir o mundo sozinhas: a Rússia fracassou na Ucrânia, e os Estados Unidos, no Oriente Médio. Nenhuma das duas consegue subjugar os europeus, apesar das divisões internas e complexidades destes últimos.

O artigo é de Mario Giro, professor de Relações Internacionais na Universidade para Estrangeiros de Perúgia, na Itália, publicado por Domani, 27-08-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

A chegada do chefe da CIA a Moscou serve para comunicar ao mundo que a relação entre EUA e Rússia vai de vento em popa. A realidade, porém, é que as duas superpotências são incapazes de gerir o mundo sozinhas: Putin fracassou na Ucrânia, Trump, no Oriente Médio. Nenhum dos dois consegue subjugar os europeus, apesar de suas divisões e complexidades.

Não deveria surpreender que a CIA e suas contrapartes russas estejam dialogando, mas sim que estejam tornando isso público.

Os estadunidenses, surpreendendo até mesmo os serviços de inteligência russos mais ocultos, quiseram reiterar aos europeus que, um ano após Anchorage, a relação com Moscou permanece sólida. Não se trata apenas da Ucrânia. Obviamente Volodymyr Zelensky havia sido informado, no mínimo para evitar os ataques de drones enquanto os estadunidenses estavam no país. No entanto, a principal prioridade da administração Trump é esclarecer à sua contraparte russa o que implica o "Dia D econômico" contra o Irã, ou seja, o programa de sanções que os EUA estariam se preparando a implementar contra qualquer Estado que ainda mantenha relações comerciais com Teerã. Isso diz respeito à China, que já recusou categoricamente, bem como à Índia e outros países, mas também à Rússia. Os EUA tentam convencer Vladimir Putin a não criar obstáculos contra o seu plano, justamente em um momento em que qualquer manobra militar contra os iranianos já se mostrou inútil ou contraproducente.

Na medida em que se trata de um favor, veremos o que os russos pedirão em troca. O que é certo é que a relação EUA-Rússia é a prioridade máxima para ambos os aparatos, incluídos os "Estados profundos".

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Desde 1945, Moscou e Washington mantêm conversas, trocam informações mesmo em momentos de tensão, como no caso da crise dos mísseis de Cuba. As duas superpotências sustentaram o sistema bipolar criado em Yalta e posteriormente aperfeiçoado, sem jamais ter sucumbido à tentação de ultrapassar os limites entre si. Esse sistema está agora sendo posto em crise pela ascensão de novas potências, particularmente a China. O fato de a guerra na Ucrânia ter forçado Moscou a se voltar para Pequim cria um problema estratégico para os EUA, algo que tentaram corrigir no Alasca, sem sucesso.

Outro aspecto que incomoda as duas grandes potências é a recusa dos europeus em recuar em relação a Kiev. Não tem nada a ver com solidariedade ocidental: desde o pós-guerra até hoje, isso só importou para Washington quando estreitamente alinhada aos interesses estadunidenses. Trump apenas tirou o véu da estratégia histórica dos Estados Unidos. Embora o aparente "europeísmo" de seu antecessor, Joe Biden, pudesse ter alguma conotação sentimental, basicamente não violava os interesses nacionais dos EUA: basta considerar a proibição feita aos ucranianos de disparar mísseis de longo alcance. Paradoxalmente, foi a política caótica e emocional de Trump que deixou espaço para uma mudança, com bombardeios também sobre Moscou e São Petersburgo, antes estritamente proibidos, e agora difíceis de reverter. É por isso que os russos estão tão irritados com o atual governo EUA: é como se dissessem "acreditamos em vocês em Anchorage, apenas para descobrir, com desapontamento, que não conseguem dobrar os europeus".

O chefe da CIA enfrenta uma tarefa difícil para tranquilizar seus parceiros, especialmente após o fiasco constrangedor no Estreito de Ormuz. As duas superpotências estão aprendendo às suas próprias custas que não conseguem mais gerir o mundo sozinhas: a Rússia fracassou na Ucrânia, e os Estados Unidos, no Oriente Médio. Nenhuma das duas consegue subjugar os europeus, apesar das divisões internas e complexidades destes últimos. Todas as tentativas de romper a unidade europeia fracassaram até agora. Fundamentalmente, Rússia e Estados Unidos não conseguem entender o que se tornou a União Europeia; ainda a enxergam segundo os velhos critérios da Guerra Fria. No entanto, a Europa consolidou-se, e sua "eurocracia", tão vilipendiada pelos poderosos estadunidenses (Musk, Thiel, Karp, etc.), além de Trump e das próprias direitas europeias, criou um escudo quase impenetrável para os seus inimigos. A nova resiliência europeia é uma reação silenciosa ao poder avassalador das superpotências, antigas e novas. É por isso que qualquer resistência que ela oferece provoca reações de surpresa e irritação em Washington, Moscou e, agora, também em Pequim.

Mas, como demonstra a guerra na Ucrânia, não basta jogar na defesa com as armas: é necessária uma estratégia ofensiva, ou seja, uma iniciativa político-diplomática europeia para pôr fim aos conflitos das superpotências (atuais e futuros). Por isso, o caminho a seguir não é o do fracassado poderio militar, mas sim o caminho político, como a história da integração europeia nos ensina.

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