Como responder ao medo. Artigo de Massimo Recalcati

Foto: Europeana/Unsplash

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01 Setembro 2026

"A civilização não começa quando eliminamos o medo, mas quando aprendemos a não o transformar em um impulso agressivo", escreve Massimo Recalcati, psicanalista, em artigo publicado por la Repubblica, 28-08-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Em tempos traumatizados pelas guerras e pela incerteza quanto ao nosso futuro, a questão da segurança assumiu uma importância que já não é apenas política, mas adquire também uma dimensão psicológica. Reduzir a necessidade de segurança a uma mera manifestação de um rudimentar analfabetismo político não é apenas um erro estratégico que escancara palcos para discursos radicais provocatórios e tradicionalistas, mas, acima de tudo, sinaliza a incapacidade de compreender a natureza incontornável da pulsão securitária.

O ser humano não é apenas um "animal social" -como defendia classicamente Aristóteles - mas é também movido por um impulso (antissocial) de rejeitar o estranho, o estrangeiro, identificá-lo, como diria Freud, com o hostil, por ser um fator de perturbação do seu equilíbrio interno.

A pulsão de fechar-se, em vez de abrir-se, não é, portanto, uma patologia mental, mas uma atitude fundamental humana, destinada a se acentuar diante de situações de incerteza e de desordem. A pulsão securitária nasce da necessidade de traçar fronteiras identitárias que possam proteger a vida individual e coletiva da intrusão do estranho. Antes mesmo de ser política, a exigência de segurança é, portanto, um imperativo psíquico. Embora a figura de Ulisses destaque a natureza aventureira da nossa vida, a sede de conhecimento que a impele a cruzar fronteiras e se sentir atraída pelo desconhecido, nunca se deveria esquecer que existe no ser humano também um impulso igualmente intenso de preservar e defender suas próprias fronteiras: fechar uma porta, cercar uma propriedade ou erguer uma fronteira são ações que respondem à exigência psiquicamente elementar de distinguir o familiar do estranho. A fronteira, portanto, não é apenas uma linha geográfica abstrata, mas uma forma essencial de nossa organização mental.

Por essa razão, a demanda por segurança não pode ser descartada como um comportamento politicamente regressivo ou o fruto de uma ação de mera propaganda orquestrada para fins eleitorais. Esse é um erro clamoroso, frequentemente cometido até mesmo por ilustres figuras da esquerda.

Deveríamos lembrá-las de que, ao lado do fascínio irresistível de Ulisses, existe também a observação perspicaz de Elias Canetti que destaca a específica sensação que nos invade quando, ao caminhar por uma avenida movimentada ou embarcar num ônibus, esbarramos acidentalmente em um estranho. Por um instante, nossas fronteiras pessoais são violadas. Alguém que não conhecemos entrou abusivamente no nosso espaço físico, interrompendo a distância que nos protege.

Por um lado, então, a humanidade jamais teria se aventurado além de suas próprias fronteiras se o desconhecido tivesse provocado apenas medo, mas, por outro, o desconhecido pode desencadear um arrepio capaz de transformar a curiosidade pelo estrangeiro em uma ameaça de violação.

A exasperação ideológica da pulsão securitária é, naturalmente, sempre possível. No século XX, provocou dramas sem precedentes. O risco de sua transformação em xenofobia, em culto à raça e à saúde, ou até mesmo na fantasia delirante de um mundo finalmente expurgado de todas as formas de alteridade, tornou-se tragicamente realidade.

No entanto, fechar fronteiras, erguer barricadas e defender o próprio território não são apenas gestos ideológicos, mas respondem a um fantasma fundamental: construir um lugar protegido contra a intrusão do exterior. Freud trazia o exemplo da casca que garante proteção contra estímulos imprevisíveis vindo do exterior, um "dentro" sem um "fora", um espaço finalmente blindado contra o imprevisto.

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A tarefa de uma política à altura do desafio da democracia deveria ser reconhecer a existência da pulsão securitária. Sem escarnecer do chamado às armas defendido pelo General Vannacci (1), é preciso ter a coragem de argumentar que a inclusão não comporta o cancelamento da identidade nacional, que o acolhimento não comporta a negação da própria memória histórica e que a fronteira como local de troca não comporta sua supressão como limiar que define um pertencimento.

Além disso, a demanda por segurança é inesgotável, pois jamais poderá ser plenamente satisfeita: quanto mais o mundo parece precário, desordenado e imprevisível, mais cresce o desejo de estabelecer fronteiras cada vez mais definidas; quanto mais as identidades se misturam, mais pode emergir a tentação de solidificá-las. Mas o problema é que a segurança absoluta coincide apenas com a morte. Um mundo totalmente seguro seria um mundo sem surpresas, sem alteridade e sem riscos.

Essa é a contradição que deveríamos conseguir tornar frutífera: não se deveria apenas contrapor abertura a fechamento, liberdade a segurança. Se, como sabemos, uma sociedade que organiza sua identidade em torno do medo está fadada a transformar a proteção em uma forma de segregação, também não devemos esquecer que uma sociedade que nega a existência do medo acaba se entregando aos piores propagandistas da reação. A tarefa da política não é suprimir a pulsão securitária, mas levá-la em consideração dando-lhe uma forma que não destrua aquilo que pretende proteger. Não temos medo apenas porque alguém nos ensinou a tê-lo. Temos medo porque somos seres vulneráveis, expostos às insídias do mundo.

A civilização não começa quando eliminamos o medo, mas quando aprendemos a não o transformar em um impulso agressivo. O medo não é resultado de um déficit cognitivo; ele faz parte de quem somos. O que podemos fazer dele? A brasa que alimenta a loucura de uma sociedade fechada sobre si mesma, que transforma suas fronteiras em muralhas, ou uma demanda por segurança que merece séria consideração, não negada nem escarnecida com desdém como se fosse apenas o produto preconceituoso de uma má educação ou de uma manipulação propagandística?

Nota do IHU

1.- Roberto Vannacci é um general do exército aposentado e político italiano de extrema-direita, atualmente membro do Parlamento Europeu e líder do partido Futuro Nazionale.

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