O preço de seguir a Cristo. Comentário de Enzo Bianchi

Foto: Nathan Marcam/Pexels

28 Agosto 2026

O comentário é de Enzo Bianchi, referente ao Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus 16,21-27, que corresponde ao 22º Domingo do Tempo Comum, ciclo A do Ano Litúrgico, publicado em seu blog, 26-08-2026.

Eis o comentário. 

Naquela ocasião, Jesus começou a mostrar aos seus discípulos que era necessário que ele fosse a Jerusalém, sofresse muito nas mãos dos anciãos, dos principais sacerdotes e dos escribas, fosse morto e ressuscitasse ao terceiro dia. Pedro, chamando-o à parte, começou a repreendê-lo, dizendo: “Deus me livre, Senhor! Isso nunca te acontecerá!” Mas Jesus, voltando-se, disse a Pedro: “Afasta-te de mim, Satanás! Tu és para mim uma pedra de tropeço, porque não estás do lado de Deus, mas do lado dos homens”. Então Jesus disse aos seus discípulos: "Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas quem perder a sua vida por minha causa, achá-la-á. Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Ou que dará o homem em troca da sua alma? Porque o Filho do Homem está para vir na glória de seu Pai, com os seus anjos, e então recompensará a cada um segundo as suas obras."

Ainda estamos em Cesareia, onde Pedro confessou Jesus como o Cristo, o Messias (cf. Mt 16,16). Mas que tipo de Messias é Jesus? E o que significa ser seu discípulo? Ele mesmo nos revela.

Jesus, ouvindo as palavras de Pedro, ordena aos seus discípulos que não digam a ninguém que ele é o Messias (cf. Mt 16,20), porque esse título poderia ser mal interpretado. E precisamente “a partir daquele momento”, sinal de uma importante virada na jornada de Jesus e da sua comunidade, “ele começou a mostrar aos seus discípulos que era necessário que ele fosse a Jerusalém e sofresse muito nas mãos dos anciãos, dos principais sacerdotes e dos escribas, e fosse morto e ressuscitasse ao terceiro dia” (cf. também Mt 17,22-23; 20,17-19). Mas o que significa que Jesus “precisa” passar por tudo isso? Isso não indica de modo algum um destino cruel imposto por Deus, mas antes, e acima de tudo, uma necessidade humana, porque num mundo injusto o justo só pode ser frustrado, até mesmo ao ponto de ser morto (cf. Sab 2). Ora, se Jesus, o Justo, enfrenta essa situação sem responder aos seus algozes com violência, mas permanecendo fiel a Deus, então a necessidade humana também pode ser interpretada como necessidade divina: no sentido de que a obediência livre à vontade de Deus, que exige viver o amor até o fim, exige uma vida de amor, mesmo ao custo de uma morte violenta. Assim viveu Jesus, tendo compreendido sua própria vocação messiânica à luz das Escrituras, com particular referência ao misterioso Servo Sofredor descrito por Isaías (cf. Is 52,13-53,12).

Pedro, porém, como fiel judeu, não consegue aceitar que esse seja o destino do Messias, o Rei de Israel. Portanto, com uma reação impulsiva e muito humana, leva Jesus para um lado e começa a repreendê-lo: "Deus me livre, Senhor! Isso nunca te acontecerá!" O discípulo, sem saber o que está dizendo, presume repreender o Mestre... Jesus, em resposta, reserva para ele palavras muito duras: "Afasta-te de mim, Satanás", isto é, volta para o teu lugar; "tu és para mim uma pedra de escândalo e uma pedra de tropeço, porque não és do lado de Deus, mas do lado dos homens", num sentido mundano. O passo entre a bem-aventurança dirigida por Jesus ao discípulo (cf. Mt 16,17) e ser chamado de "Satanás" é muito curto: damos esse passo cada vez que ousamos nos afastar de seguir Jesus para nos colocarmos à sua frente, obstruindo assim o caminho que ele abriu para o seu pequeno rebanho.

“Então”, esclarece Jesus, para evitar qualquer mal-entendido, o comportamento exigido daqueles que o seguem. Ele simplesmente reafirma, de forma mais explícita, a estreita comunhão entre o seu próprio destino e o dos seus discípulos, sobre a qual já havia dito: “O discípulo não é maior do que o seu Mestre” (Mt 10,24). Jesus declara primeiro: “Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me”. Isso significa deixar de se considerar a medida de todas as coisas e “negar o sentido idólatra de pertencimento a si mesmo” (Bruno Maggioni); quem renuncia a esse comportamento deixa de se justificar e, por amor a Cristo, aceita também o fardo da cruz, instrumento da sua própria sentença de morte. Esse modo de vida é plenamente iluminado pela palavra seguinte de Jesus, um dito paradoxal que ressoa em seus lábios diversas vezes nos Evangelhos: “Quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas quem perder a sua vida por minha causa, achá-la-á”. Eis o verdadeiro ganho, a verdadeira salvação que podemos conhecer dia após dia: perder a nossa vida por Cristo, entregá-la como Ele fez e nos ensinou a fazer, a ponto de não mais distinguirmos a nossa vida da vida de Cristo em nós...

Finalmente, Jesus, voltando a falar de si mesmo na terceira pessoa, diz: "Porque o Filho do Homem virá na glória de seu Pai com os seus anjos, e então recompensará a cada um segundo as suas obras". A ligação com o que foi dito anteriormente indica que o julgamento começa para nós aqui e agora, e a sua medida é o seguimento concreto de Jesus Cristo, sinal de uma fé professada com a própria vida: a vida daqueles que, por amor a ele, desejam "segui-lo por onde quer que ele vá" (cf. Ap 14,4).

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