Seca em vários continentes ao mesmo tempo pode triplicar o preço do trigo, aponta estudo

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24 Agosto 2026

Estudo internacional mostra que secas simultâneas em grandes regiões produtoras de trigo explicam quase três quartos das variações no preço global do grão.

A reportagem é publicada por Ecodebate, 22-08-2026.

Pão, massa e cereal do café da manhã parecem estar muito longe de um campo seco e rachado em algum lugar do mundo. Mas uma nova pesquisa mostra que, quando a falta d’água atinge ao mesmo tempo várias das principais regiões produtoras de trigo do planeta, o efeito chega direto à prateleira do supermercado e à mesa de casa.

Pode parecer estranho pensar que uma seca na Ásia central, somada a outra na Europa e a mais uma na América do Norte, tenha alguma relação com o preço do pão francês na padaria da esquina. Mas é exatamente essa conexão que um grupo de pesquisadores decidiu investigar, e os resultados surpreenderam até os próprios cientistas.

O estudo, intitulado “Climate‐Induced Severe Water Scarcity Events as Harbingers of Global Wheat Price” e publicado na revista científica Earth’s Future, cruzou dados climáticos, mapas de áreas cultivadas e preços internacionais de commodities agrícolas ao longo de mais de duas décadas. A conclusão é impressionante: a extensão de eventos severos de escassez hídrica ao redor do mundo consegue explicar sozinha cerca de 74% das oscilações anuais no preço global do trigo entre os anos 2000 e 2021.

Entre os autores da pesquisa está Jørgen E. Olesen, professor e chefe do Departamento de Agroecologia da Universidade de Aarhus, na Dinamarca. Para ele, a novidade do estudo não está em provar que as mudanças climáticas afetam a produção agrícola, algo já bastante conhecido, mas em mostrar com clareza como secas espalhadas pelo globo se traduzem em preços mais altos para quem está no mercado e na ponta do consumo.

O problema não é uma seca isolada, é várias secas ao mesmo tempo

A grande sacada dos pesquisadores foi criar um novo indicador, batizado de Severe Water Scarcity, ou Escassez Hídrica Severa. Em vez de olhar apenas para o que acontece numa única região agrícola, esse indicador mede qual proporção da área de plantio de trigo em todo o mundo está enfrentando seca justamente nos meses em que a planta mais precisa de água.

A lógica por trás disso é simples de entender. Uma seca localizada costuma ser absorvida pelo mercado global sem grandes traumas, porque outras regiões produtoras compensam a perda. O problema real surge quando vários “celeiros do mundo” secam ao mesmo tempo, ou em sequência muito próxima, e o sistema global de abastecimento fica sem alternativas para equilibrar a oferta. Segundo os cientistas, esse tipo de evento combinado tende a se tornar cada vez mais frequente num planeta mais quente.

Um dos achados do estudo é que o trigo se comporta de um jeito bem particular entre os grãos. A relação entre escassez de água e alta de preço se mostrou muito mais forte no trigo do que no milho, e os pesquisadores nem sequer encontraram uma relação parecida no caso do arroz.

Quanto mais quente o planeta, mais caro o pão

Olhando para o histórico, os dados mostram que, em média, cerca de 5% da área mundial de cultivo de trigo passou por escassez hídrica severa em um ano típico. Só que essa fatia não é fixa, ela vem crescendo junto com o avanço das mudanças climáticas. Em anos particularmente secos, como 2000, 2010, 2012 e 2020, a proporção de área afetada ultrapassou 15%.

Com base nesse padrão, a equipe de pesquisa usou modelos climáticos para projetar cenários futuros, e os números acendem um sinal de alerta. Em um mundo com cerca de 2 graus de aquecimento global, a estimativa é de que o trigo chegue a custar em torno de 273 dólares por tonelada. Se o aquecimento avançar para 3 graus, esse valor pode subir para cerca de 364 dólares por tonelada, praticamente o triplo do preço global do trigo registrado em 2010, já corrigido pela inflação.

Para Olesen, o recado é direto: o trigo é uma das culturas alimentares mais importantes do planeta, o que significa que qualquer problema climático na sua produção tende a se espalhar rapidamente para o resto do mundo. Por isso, ele defende que a seca deixe de ser tratada como uma série de episódios locais isolados e passe a ser encarada como um desafio internacional e conectado.

Mais do que um problema do campo

Os próprios autores fazem questão de reforçar que a seca não é a única variável no tabuleiro dos preços do trigo. Custos de energia e de fertilizantes, o tamanho dos estoques mundiais de grãos, políticas de comércio internacional e conflitos geopolíticos também pesam bastante na equação. Ainda assim, o estudo consegue isolar um fator climático que, até então, era difícil de medir com precisão, e que já parece estar deixando marcas visíveis nos mercados globais. É justamente isso que torna a descoberta relevante para muito além do universo da agricultura.

O trigo é alimento básico para bilhões de pessoas ao redor do mundo. Quando a seca atinge simultaneamente várias das grandes regiões produtoras, o abalo se propaga pelas cadeias internacionais de comércio e pode chegar a países e famílias que nunca chegaram perto de um campo de trigo seco.

Por isso, os pesquisadores defendem que as próximas avaliações sobre segurança alimentar não olhem apenas para mudanças graduais na produtividade das lavouras ao longo dos anos. É preciso também levar em conta esses grandes eventos de seca que se repetem e que, cada vez mais, atingem várias regiões produtoras estratégicas ao mesmo tempo ou em um curto intervalo de tempo.

Referência

Trnka, M., Meitner, J., Balek, J., Feng, S., Gaviria, J. A., Fischer, M., et al. (2026). Climate-induced severe water scarcity events as harbingers of global wheat price. Earth’s Future, 14, e2025EF006095. Acesse aqui.

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