20 Agosto 2026
A China já fabrica 90% dos androides do mundo, que estão dominando o problema da locomoção. Mas levar esses avanços para o mundo real ainda apresenta desafios importantes.
A reportagem é de Carlos del Castillo, publicada por elDiario.es, 19-08-2026.
A corrida da inteligência artificial é, na verdade, a soma de muitos sprints. Há o dos modelos generativos, que melhoram a cada dia sua capacidade de criar textos, imagens ou vídeos; o dos chips, que leva a engenharia ao limite para conseguir processadores cada vez mais potentes; ou o da cibersegurança, com inteligências artificiais capazes de detectar e explorar vulnerabilidades por conta própria. Mas há outro que, até agora, transitava entre a ficção científica e a realidade e que, nos últimos meses, está caindo definitivamente do lado da segunda: o dos robôs humanoides.
A China tem vantagem nesse trecho da corrida. Se os EUA lideram em chips, software e investimento de capital de risco, o gigante asiático é a maior potência mundial em robótica industrial. Sua enorme capacidade de fabricação de eletrônicos e veículos elétricos, somada a um mercado interno gigantesco e a uma política de subsídios impulsionada por Xi Jinping, criou um ecossistema especialmente favorável para o desenvolvimento de humanoides. Nesta mesma quarta-feira, a Unitree Robotics estreou na bolsa de Xangai com uma alta de 460% em relação ao preço de abertura, uma demonstração do interesse por esse novo ramo de negócio. Pequim também aposta que essas máquinas ajudem a enfrentar o envelhecimento de sua população e, com o tempo, possam substituir trabalhadores humanos nas fábricas.
"Apesar de estar atrás no software fundacional, a força da China no hardware poderia permitir economias de escala capazes de desencadear um uso generalizado em toda a indústria manufatureira e garantir à China o domínio do mercado de robótica a longo prazo", antecipa o Mercator Institute for China Studies (MERICS), o maior centro de pesquisa europeu especializado na China.
A capacidade de reaproveitar baterias e componentes de carros elétricos ou telefones celulares permitiu que as empresas chinesas se expandissem muito rapidamente para a robótica humanoide, a ponto de 63% das principais empresas desse setor já virem do gigante asiático. Segundo o MERICS, em 2025 elas produziram 12.870 robôs humanoides, aproximadamente 90% da produção mundial. Uma liderança que coincide com a aceleração global para transformar esse campo no primeiro a tirar a IA das telas e aplicá-la diretamente ao mundo físico em grande escala.
Um gráfico da Tracxn mostra a evolução dos investimentos em startups de robótica humanoide ao redor do mundo: de 0,01 bilhão de dólares em 2017 e 2018, o valor passou para 0,04 bilhão em 2019, caiu para 0,02 bilhão em 2020, subiu para 0,09 bilhão em 2021, 0,28 bilhão em 2022, 0,44 bilhão em 2023, disparou para 1,06 bilhão em 2024, 3,05 bilhões em 2025 e chegou a 4,39 bilhões de dólares em 2026.
Esse marco pode acabar sendo um dos pontos de inflexão para uma infinidade de indústrias e setores econômicos. A ponto de o governo de Donald Trump ter proibido a importação de androides chineses no final de julho. "Esses dispositivos poderiam gerar vulnerabilidades na cadeia de suprimentos e perturbar a segurança econômica e nacional dos Estados Unidos, além de criar um risco de cibersegurança que ameaça a infraestrutura crítica americana", alegou a Comissão Federal de Comunicações (FCC).
É uma medida drástica, que passa a considerar os robôs humanoides um fator muito a ser levado em conta a partir de agora. Mas como se chegou a essa situação? Como os androides passaram de protagonistas de danças virais a serem considerados pela Casa Branca um perigo para sua segurança nacional? Há várias respostas, mas uma das chaves oferecidas pelos analistas é a transição do "cérebro pequeno" para o "cérebro grande".
Do "cérebro pequeno" ao "cérebro grande"
No jargão da robótica de última geração, a anatomia de um robô humanoide se divide em dois sistemas independentes: o "cérebro pequeno" (encarregado do controle motor, do equilíbrio dinâmico e da locomoção) e o "cérebro grande" (a cognição de alto nível, a percepção de ambientes complexos e a tomada de decisões autônomas). Até muito pouco tempo atrás, os maiores esforços da indústria se concentravam no primeiro: conseguir que os robôs andassem, corressem, saltassem ou fizessem piruetas sem cair.
A melhoria acelerada do "cérebro pequeno" está permitindo que a indústria concentre cada vez mais esforços no grande. E é justamente isso que está sendo alcançado na China.
O melhor exemplo foi visto na Meia Maratona de robôs de Pequim deste ano. O evento viralizou pelo tempo marcado pelo vencedor (percorreu os 21 quilômetros em 50 minutos e 26 segundos), superando a marca do vencedor humano. Mas a verdadeira chave não foi esse recorde, e sim o fato de que o robô foi fabricado pela marca de telefones Honor, empresa desmembrada da Huawei cuja equipe de robótica tinha apenas um ano de existência. Uma empresa sem experiência no setor que, em menos de um ano, foi capaz de produzir um robô com desempenho locomotor de ponta.
O robô da Honor, chamado Shandian, mostrou que a cadeia de suprimentos industrial desses robôs está alcançando um alto grau de maturidade na China. "Quando uma marca de smartphones consegue construir pernas líderes em nível mundial em doze meses aproveitando as cadeias de suprimentos já existentes, isso significa que as posições defensivas em torno da locomoção se reduziram consideravelmente", explica Poe Zhao, analista especializado na indústria tecnológica chinesa e fundador da Hello China Tech.
O "cérebro pequeno" ficou tão barato que a produção física de um androide chinês já caiu para cerca de 100.000 yuans (uns 13.800 dólares). Essa eficiência de custos é o que pode impulsionar a corrida pelo "cérebro grande", o que pode fazer a diferença na corrida da IA.
"A Honor demonstrou que construir pernas excepcionais é hoje um desafio de gestão de engenharia, solucionável com capital, talento e acesso à cadeia de suprimentos. Construir um cérebro grande capaz de estar à altura dessas pernas, em um ambiente em que os dados de treinamento de alta qualidade sobre o mundo físico continuam sendo ordens de magnitude mais escassos do que os modelos provavelmente vão precisar, é o que define o próximo capítulo da indústria", continua Zhao.
Os problemas de ensinar o "cérebro grande"
Com o aparato locomotor avançando a passos largos, o desafio passa a ser levar esses robôs a espaços onde também há pessoas e conseguir que desempenhem funções úteis. "A pergunta mais reveladora é o que acontece quando o objetivo deixa de ser 'correr para a frente' e passa a ser 'realizar uma tarefa não especificada com antecedência, em um espaço que não foi mapeado previamente'", explica Zhao Mingguo, pesquisador em bipedestação da Universidade Tsinghua.
A locomoção pode ser aprimorada em ambientes controlados. Mas, para que o "cérebro grande" funcione, ele precisa seguir o mesmo caminho trilhado pela inteligência artificial generativa: treinar-se com quantidades massivas de dados. Enquanto sistemas como o ChatGPT ou o Claude tinham todo o oceano da internet para aprender, a quantidade de dados disponíveis sobre o mundo físico é muito reduzida. "Os dados de treinamento para robôs precisam ser coletados em ambientes físicos, com calibração espacial em múltiplos sensores e uma sincronização temporal precisa", lembra Poe Zhao.
Parece algo simples de resolver, mas não é, de forma alguma. "Cada hora de captura custa aproximadamente 200 yuans (27 dólares). Uma empresa líder em IA humanoide informou que gasta dezenas de milhões de yuans por ano em computação só para treinar com algumas centenas de milhares de horas. Escalar esse número em duas ordens de magnitude estouraria qualquer orçamento", continua o analista.
Além disso, as bases de dados não são tão simples de montar quanto quando incluem apenas textos, apenas imagens ou apenas vídeos, com os quais são treinados os modelos de linguagem. Na hora de registrar o mundo físico, cada empresa tem seu próprio formato e métodos de coleta, o que gera problemas de fragmentação e desalinhamento dos dados.
É aqui que o bloqueio da Casa Branca ganha importância especial: não se trata apenas de um veto para impedir que os robôs chineses dominem o mercado interno dos EUA, mas também de evitar que comecem a coletar bases de dados sobre a realidade física do país e obtenham essa vantagem sobre suas empresas.
A ilusão dos vídeos e a dependência da Nvidia
Apesar de o domínio chinês dos androides ser incontestável, no MERICS lembram que ainda se trata de uma tecnologia de nicho em comparação com a robótica industrial. As 12.870 unidades construídas em 2025 empalidecem diante dos mais de 550.000 robôs industriais (braços robóticos, transportadores automáticos etc.) instalados no país no mesmo ano. Além disso, os androides continuam sendo "apenas metade eficientes em relação aos seres humanos" no trabalho manual das fábricas, afirmou Zhou Jian, fundador da UBTech, uma das empresas líderes do setor.
A essa diferença de desempenho soma-se uma vulnerabilidade da IA chinesa que ninguém em todo o setor tecnológico internacional conseguiu superar. Os grandes desenvolvedores chineses de robôs humanoides, da própria UBTech a Unitree, AgiBot, Galbot ou EngineAI, dependem profundamente da Nvidia para dar o próximo salto. A locomoção pode ser dominada com chips mais simples, mas a cognição profunda do "cérebro grande" continua se baseando nos componentes da fabricante americana, destaca o MERICS.
"Os vídeos corporativos costumam criar a impressão de que os avanços nos humanoides são iminentes. Muitos mostram humanoides se movendo livremente: dançando, praticando kickboxing e realizando tarefas que exigem movimentos hábeis das mãos. Essas demonstrações impressionantes são enganosas, já que os robôs raramente agem de forma autônoma em tempo real, mas sim seguindo programação prévia ou teleoperação", lembram os pesquisadores do centro: "Eles continuam muito longe de ser robôs inteligentes de propósito geral, capazes de receber continuamente informações do seu entorno para então decidir suas próprias ações no mundo físico".
Leia mais
- Satélites mostram o quanto data centers e IA poluem
- Cientistas alertam para o impacto hídrico dos data centers
- Os data centers aceleram o esgotamento do planeta
- Câmara aprova projeto de lei que dá isenção de impostos a data centers
- Expansão de data centers, incentivos fiscais e impactos sobre o direito à água no Brasil
- Emergência hídrica e energética: O impacto ambiental dos data centers. Artigo de Henrique Cortez
- O outro lado da IA: avanços recentes intensificaram consumo de energia e água de data centers
- Data centers crescem em São Paulo e demandam mais água em meio à crise de abastecimento
- O primeiro centro de dados do TikTok na América Latina será no Brasil e será alimentado exclusivamente por energia eólica
- O lado obscuro da expansão de data centers na América Latina
- Como a corrida por data centers está reescrevendo a política energética dos EUA
- Relatório da ONU pede uma moratória na construção de data centers: "Embarcamos em um plano suicida"
- Inteligência artificial e extrativismo digital: quem ganha com data centers na América Latina? Artigo de Natália Zuazo
- Data centers: as big techs cobiçam o Nordeste. Artigo de Lauro Accioly Filho
- Robô humanoide chinês promete companhia e "amor eterno"
- Plano de Trump para IA propõe centros de dados, menos regulação ambiental e disputa com China
- Inteligência artificial corre o risco de uma bolha? Veja como as gigantes da tecnologia (não) ganham dinheiro
- De "esquerdistas malucos" a "muito inteligentes e úteis": o que está acontecendo entre Trump e a startup de IA Anthropic?
- A boa empresa de IA ou o Mythos do nosso tempo. Artigo de Mariana Lins Costa
- Guerra dos chips: por que os semicondutores bloqueiam a relação entre Estados Unidos e China