15 Agosto 2026
"A direita aprendeu como usar ou manipular essa linguagem religiosa “pura” para seus interesses políticos e econômicos. Para os que querem transformar essa situação da relação religião e política na direção de humanização do mundo, precisamos resolver dois problemas."
O Artigo é de Jung Mo Sung, teólogo católico e cientista da religião.
Eis o artigo.
Não se pode, hoje, fazer uma boa análise política e geopolítica do mundo sem levar em consideração a relação entre a religião e política. Por exemplo, não se pode entender as disputas eleitorais nas três Américas sem levar em consideração a aliança entre os políticos da direita e da extrema-direita com os setores do cristianismo nacionalista e/ou sionista. Alguns poderiam acusar essa relação entre a religião e política como algo indevido ou uma manipulação da religião pelos políticos com interesses “impuros”.
Essa interpretação dessa relação entre a religião e política, um tema importante nas atuais eleições, se baseia em um dos elementos constitutivos do mundo moderno, a secularização. Após muitos anos de séries de guerras religiosas, nos séculos XVI e XVII na Europa, provocadas com a Reforma Protestante e as reações, a Europa inventou uma solução: tirar Deus da equação política.
Isto é, como não se pode terminar uma guerra que se combate em nome de Deus e, portanto, contra o inimigo visto como representante do Diabo, enquanto não se destrói o reino do diabo. Para poder estabelecer um pacto de paz e restabelecer uma vida “normal”, a guerra não pode ser feita em nome de Deus, mas deve ser em nome do Estado ou da nação. Essa separação entre o Estado e a Igreja, ou a política e religião, foi um grande avanço civilizatório.
Mais do que um avanço civilizatório, os pensadores da modernidade projetaram o futuro do desenvolvimento civilizatório a partir da experiência europeia cristã e tornaram um fato, secularização, em um conceito interpretativo e avaliativo. Isto é, o conceito de secularização passou a ser critério do progresso ou retrocesso de uma cultura ou de um país. Culturas, grupos sociais e nações que ainda misturam a religião e política eram considerados atrasados, e os que separam completamente o Estado, ou a esfera da vida pública, da Igreja, ou da religião agora restrito à esfera privada, eram ou ainda são considerados desenvolvidos, progressistas ou ilustrados.
Na década de 1970, a teologia da libertação latino-americana (TLLA) rompeu com esse pressuposto cultural e uma das características fundamentais do mundo moderno: a separação entre a religião e política. Muitos cristãos de diversas denominações entram na política, e até mesmo em movimentos revolucionários, em nome da fé cristã usando linguagem e teorias sociais modernas e até mesmo marxistas.
A Igreja Católica sempre teve dificuldade em aceitar o pressuposto da secularização, mas, na medida em que se integrava ao mundo moderno, ela assumiu a tarefa de defender sua doutrina social na esfera dos direitos sociais e não no campo específico da política, muito menos na linha revolucionária ou institucionalmente transformadora.
Com a TLLA, muitos cristãos assumiram explicitamente a “política”, entendendo esse conceito como um que englobava as questões sociais e as políticas (por ex, eleições e a tomada de poder). A dificuldade da relação entre a fé/religião e a política, interpretada em grande parte a partir do pressuposto da secularização, foi ou ainda é um desafio teórico e prático para a esquerda e os progressistas.
Após muitas pressões do Vaticano e das direções de outras igrejas cristãs e também de outros organismos e instituições contra esse movimento de libertação, esse cristianismo de libertação que assumiu a “fé e política” entrou em crise. Assim parecia que a expectativa do processo de secularização no mundo inteiro fosse retomada. Mas, tivemos outro “retorno” de Deus no campo da política com a entrada do islamismo nos geopolíticos. E depois, a forte intervenção de setores das igrejas evangélicas, protestantes e pentecostais na política, não somente em questões sociais e morais, mas também explicitamente eleitorais nas Américas. Ao entrar na política, uma grande parte deles apoiam e/ou entram em partidos da direita, defensores do capitalismo e dos valores moralmente conservadoras.
Uma característica dessa nova compreensão da relação “religião/fé e politica” é a sua linguagem pré-moderna ou não ilustrada. Na linguagem dominante da TLLA, encontrávamos dois tipos de discurso, o religioso e o das ciências sociais modernas, no interior dessa relação fé e política.
Ao falar da motivação e a razão pela qual os cristãos deveriam entrar no campo da política, a estrutura do discurso era do tipo: “Deus, na Bíblia, nos ensina que devemos entrar na luta política para ser solidários com nossos irmãos pobres e oprimidos”.
Mas, ao falar de como e onde atuar na luta, o discurso muda e o sujeito da frase é outro. Por exemplo, ao explicar as razões do sofrimento, a frase: “o sistema capitalista é o causador do sofrimento dos pobres”. (Para entender essa frase que fala da relação entre o sofrimento dos pobres e o sujeito do causador desse sofrimento, o sistema capitalista, é preciso aprender, a fazer um curso rápido sobre o que é e como funciona o capitalismo.) Depois disso, para a solução: “nós precisamos nos organizar e lutar para atingirmos à vitória”.
O que eu quero chamar atenção é que “Deus” como sujeito da frase só aparece para motivar pessoas religiosas a entrar na luta sócio-política – o que é uma linguagem religiosa – e desaparece quando temos uma linguagem não religiosa quando se fala do sujeito da libertação. Há uma mistura entre a linguagem religiosa e a moderna secular, no sentido que separou o tema da luta política da esfera religiosa.
Por outro lado, pessoas cristãs e igrejas que entram na relação “religião e política” em nome da fé cristã “tradicional”, não moderna e muito menos pedindo transformações sociais, usam uma linguagem religiosa “pura”.
Deus é o sujeito de todas as frases fundamentais da argumentação. Seja na explicação causa – por ex., “Deus está punindo os pecadores com os seus sofrimentos” –, seja na solução – por ex., “Deus com suas bênçãos vai providenciar a sua prosperidade e sua cura”. Não há conflito ou confusão entre a identidade pessoal marcada pela sua fé religiosa e a linguagem que explica as causas dos problemas e expressa os desejos de soluções.
Não é à toa que pessoas e grupos que tem a sua identidade marcada pela figura de um Deus todo poderoso que atende e resolve os pedidos dos seus fieis são anticiências porque ciência, por definição elimina Deus nas explicações e nas soluções. Quanto mais complicadas as explicações científicas naturais, sociais e antropológicas, mais pessoas tendem a simplificar a realidade. E a religião de Deus onipotente é a melhor provedora ou vendedora desse desejo de simplificação, especialmente as que dividem o mundo entre os nossos amigos e inimigos.
A tentação dos “batizados” da ilustração é simplificar o problema e dizer que a religião é a inimiga do desenvolvimento da civilização. Os convencidos dessa solução podem manter a sua identidade de ilustrado, mas vão perder na luta real. A direita aprendeu como usar ou manipular essa linguagem religiosa “pura” para seus interesses políticos e econômicos. Para os que querem transformar essa situação da relação religião e política na direção de humanização do mundo, precisamos resolver dois problemas.
Primeiro, a desenvolver uma linguagem que seja capaz de colocar Deus como sujeito da frase, não somente na chamada à luta, mas também nas frases no interior do discurso que trata da ação e de conflitos na luta. Segundo, ter um discernimento mais claro sobre que com tipo de fé religiosa estamos lidando. Na tradição da TLLA, temos a diferença entre a fé em um Deus que exige sacrifícios de vidas humanas, um Deus que justifica até o assassinato de crianças, que a tradição bíblica chama de “ídolo”, e a fé em Deus da Vida, um Deus que dá vida para todas pessoas.
Leia mais
- Os movimentos de direita utilizam a religião como ferramenta política. Artigo de Martin Scheuch
- “A ideia de religião e política como coisas absolutamente separadas nunca existiu no Brasil”. Entrevista com Nina Rosas
- O capitalismo de colapso
- Evangélicos: o novo reino terreno da extrema direita na América Latina
- “A participação dos evangélicos na vida política desprivatiza as igrejas”. Entrevista especial com Oneide Bobsin
- O que a Teologia da Libertação nos ensina hoje?
- Lutas políticas na América Latina e Teologia da Libertação. Artigo de Clarisse Fabre
- Sionismo cristão tem raízes no crescimento evangélico na década de 1990, diz Pacheco
- Fé e política? Depende. Artigo de Jung Mo Sung
- A relação entre fé e política. Artigo de Gianfranco Ravasi
- Cristãos para o socialismo. Um movimento entre fé e política. Entrevista com Luca Kocci
- O abuso do poder religioso: intolerável manipulação da religião, da fé e da política